Porquê a Dear White People foi um erro?

Terminei ontem de assistir a série Cara Gente Branca (Dear White People), que causou tanta indignação por parte dos espectadores americanos (talvez aqui no Brasil também, não sei). Também não foi pra menos. Aquele Teaser trouxe um tom agressivo, confrontador, logo, pra aqueles que não estavam habituados e, nunca tinham ouvido falar da série ou o filme que a originou, aquilo foi um choque.

Pra você que viu a série ou o filme, logo pensa: “ Mas o quê que tem demais, é pra ser uma comédia, as pessoas são muito intolerantes, só racista deu unlike, maldito Trump” e por aí vai…

Bom, como eu falo por quem nunca tinha ouvido falar do filme ou da série antes, eu sugiro que você leia até o final para depois entender o porquê que eu e várias pessoas que assistiram a esse teaser pela primeira vez pensamos: O que você tem na cabeça, Netflix?

Resolvi escrever esta resenha, pois o meu primeiro impacto foi de ignorar completamente esta serie, afinal, a última coisa que a sociedade estadunidense precisa é de mais faíscas para o clima de tensão racial que hoje invade o país. Hoje, depois de ter visto a série, mudei minha visão e penso que a Netflix apenas exagerou no coentro.

Bem, se você não esteve em Marte no último ano, acredito que tenha ouvido muitos relatos sobre as tensões sociais entre os americanos, através do crescimento do Black Lives Matter, e demais movimentos sociais em correlação ao crescimento do pensamento conservador (Republicano) entre os jovens. Inclusive, mais a frente a história dirá melhor, mas se pudermos datar a partir de quando esta cisão começou, eu diria que foi precisamente em fevereiro de 2016, quando os espectadores do Superbowl, se depararam com uma Beyoncé politizada, com um figurino alusivo ao uniforme dos panteras negras e cantando uma música com vários jargões que só os negros americanos usam entre si. Ela então deixou de ser o elo entre as etnias e passou a ser vista como a negra, Negra

A partir desta apresentação a #BlackLivesMatter ganhou um aumento exponencial nas redes sociais, seguida das tags #Formation e por aí vai. Cresceu também uma tag em resposta, chamada #AllLivesMatter, onde o debate foi só esquentando. A partir daí, todas as mortes de negros por ação policial viraram o tema central do debate e a cada novo incidente, os protestos se inflamaram cada vez mais. Como se não bastasse, esse foi um ano de eleição, logo, mais lenha para aquecer o debate.

Trump venceu! Justo o candidato, cujo dos apoiadores já utilizavam da tag #AllLivesMatter . Claro que os apoiadores da Clinton não iam deixar barato e logo subiram o tom do debate, desejando a morte de todos os homens brancos (Inclusive alguns destes brancos, vai entender). Tags como #FuckWhitePeople #Whitepeoplesucks , dentre outras frases de impacto como estas foram encabeçadas por muitas pessoas influentes, inclusive o Jack Moore, produtor executivo e diretor da Netflix, mas isso não é tudo!

Em dezembro a MTV resolveu fazer um vídeo de fim de ano intitulado Resolutions For a New Year (resoluções para o ano novo), onde seus vjs, negros, latinos, e demais pessoas de orientação LGBT descarregam via youtube, todo um ranço ideológico, racista e classicista, sobre como os eleitores do Trump deveriam se comportar a partir daquele novo ano. O vídeo começa com a frase “Dear White Guy”…

Em resumo, foi um horror, tão grande e uma chuva de críticas de todos os lados, inclusive da mídia, que eles tiraram este vídeo do ar. Abaixo algumas imagens:

Ok, agora que você tem esse cenário todo em sua mente, imagine que menos de um mês depois desse caso da MTV, aparece um teaser de Netflix que começa com a frase: Dear White People…

Imaginou? se não, faça uma pausa e veja novamente o vídeo no início do texto, mas considerando todas as informações que eu coloquei aqui.

Qual a sensação que esse teaser passa? se você nunca viu antes, você imagina que, o que está por vir é nada mais do que a continuação daquele terrível episódio do vídeo da MTV. A associação cognitiva é imediata, logo uma chuva de reclamações e até cancelamentos de assinatura seguiram a visualização deste vídeo.

OK! Aí você pensa: pode ser que dentro deste meio existam pessoas racistas que não suportam ver nada com a temática negra? Pode! Mas como não é uma regra e, definitivamente eu não faço parte deste grupo, que eu acredito em um erro de estratégia na divulgação da série, ou como eu disse no começo, a Netflix exagerou no coentro. Coentro é um dos temperos mais controversos que existem, pois enquanto alguns amam (eu!!!), outros não suportam a ideia de comer algo que tenha esse vegetal. Então, assim como uns não entendem como alguém pode gostar, outros não entendem como o outro pode não gostar e por aí vai.

Não ficou claro ainda? Vamos trazer para o nosso contexto então. Aqui no Brasil, estamos desde 2016 duelando ferozmente nas redes sociais por conta dos que acreditam que houve um golpe versus os que acreditam em um impeachment. Com o passar do tempo, as coisas foram esquentando, a cisão aumentando e no meio dessa guerra ideológica de direita x esquerda, ou coxinhas x mortadelas, surgiu um reavivamento do sentimento dos tempos de ditadura e, nos deparamos com a estreia da série da Globo “ Os dias eram assim”. Uma série que precisa melhorar muito pra ser chamada de ruim, convenhamos! Pois temos personagens caricatos, divisão clara entre heróis e vilões e algumas frases de efeito extraídas direto do twitter (e estamos falando de uma serie de época!). Uma coisa terrível que não agradou nem coxinhas, nem mortadelas e os resultados do Ibope mostram que ela tem perdido diariamente audiência para o SBT.

Um ultimo exemplo: Lembra do produtor Jack Moore que eu falei acima, o cara branco que desejava morte aos homens brancos, logo após o resultado das eleições? Então, trazendo pro contexto brasileiro, imaginem que o Gregório Duvivier resolva fazer uma série sobre a vida dos militantes universitários, mais especificamente do Matheus Ferreira da Silva, que está internado em estado grave no hospital de Goiânia, por conta da pancada que ele levou do PM. Sinceramente, você acreditaria na imparcialidade de conteúdo desde documentário? Eu não!

Portanto, eu somo todos estes fatores acima e o excesso de informações as quais temos sido bombardeados todos os dias, para dizer que a Dear White People teria sido uma ótima série, se não fossem os dias em que vivemos. Inclusive, acho que se a Todo Mundo Odeia o Cris fosse lançada hoje, teria o mesmo impacto.

Assim como estamos em estado letárgico em relação ao que acontece na Lava-Lato, os estadunidenses estão de saco cheio também desse clima de tensão racial, esperando apenas uma faísca para que tudo exploda, ou que tudo se resolva logo para então virar essa página.

Agora falando da série (finalmente!), se trata de um enredo leve, em que nada se associa ao primeiro teaser, onde mostra o dia a dia da comunidade negra em uma universidade conceituada dos EUA. Funciona como uma autocrítica aos movimentos negros, pois revela os conflitos internos entre o “ser parte da causa” ou “ser simplesmente aceito”. Ou um convite a reflexão sobre quem se quem chamamos de inimigo realmente o é.

Essa série possui alguns entraves culturais, pois como se trata de uma fotografia da sociedade americana, talvez o público brasileiro não consiga ver a relevância de coisas cruciais para eles, como por exemplo o “Blackface” ou o uso da palavra “Nigga”. Estas são particularidades extremamente ofensivas para eles, mas que pra nós não faz tanto sentido. A expressão “Nego” ou “Neguinho” é incorporada no vocabulário de qualquer brasileiro, seja ele negro ou não.

Minha nota para esta série é 6/10, pois acredito que ela criou uma expectativa através do teaser que não será atendida pelos ativistas, por ser muito fraca aos olhos deles e ao mesmo tempo por afastar um grupo de pessoas em potencial que, se assistisse iria gostar e até refletir sobre o tema. Se você, assim como eu estava pensando em não assistir, eu sugiro que você veja. Pode ser que você mude de ideia, assim como eu: não por achar a série excelente, longe disso! Mas por pensar, ok. Vamos refletir sobre…