Copa das Copas

“Essa será a Copa das Copas”. Esse foi o discurso do governo brasileiro desde o começo ao se referir à Copa do Mundo de 2014, realizada no nosso território. Obviamente que a tentativa era de vender uma ideia a fim de dar uma impulsionada no turismo do país durante a realização do evento. Mas isso não vem ao caso, não estou aqui pra falar de economia ou de política ou de coisa que o valha — pelo menos não hoje. O que importa é que muita gente comprou o slogan, e a “Copa das Copas” até fez por merecer essa alcunha com jogos emocionantes, zebras impensáveis — estou olhando pra você, Costa Rica — e uma média de gols altíssima, incluindo uma semifinal que só a mera menção me dá calafrios.

Porém… Essa foi mesmo a Copa das Copas?

Sim e não. Calma, eu vou (tentar) explicar.

Uma das maiores vantagens de ter uma memória boa é lembrar com vivacidade coisas remotas. Um dos maiores problemas de ter memória boa é lembrar com vivacidade coisas remotas. Isso significa que eu, mesmo tendo apenas 4 anos na época, ainda consigo ver na minha frente, com clareza e em alta definição, Zinedine Zidane subir pra marcar 2 gols de cabeça praticamente iguais. Eu estaria mentindo se dissesse que fiquei amargo e deprimido pelos próximos 4 anos, mas com certeza naquela tarde em 1998 o mundo me pareceu mais triste. Ora, pensa bem: por ter nascido 6 dias depois do tetra, aquela era minha primeira copa do mundo. E o desfecho dela era o que eu pensava ser o pior possível.

Isso até chegarmos em 2014.

Olhe para este homem e diga a ele que essa foi a copa das copas. Quero ver.

Essa é a parte do “não”. Essa não foi a Copa das Copas. Porque talvez não exista desfecho pior do que o dela (eu me recuso a citar diretamente o desastre ocorrido e acho que as pessoas deveriam ser presas por fazer piadas com algo tão sério. Sério). Talvez só se tivéssemos perdido na final pra Argentina em pleno Maracanã por um resultado igual ou semelhante, mas isso é apenas uma possibilidade num mundo de infinitas tragédias enquanto a semifinal de 8/7/2014 é uma realidade. Dolorida realidade. E a copa das copas, por melhor que tenha sido no conjunto da obra, jamais poderia terminar desse jeito.

Mas vamos fazer um exercício de imaginação aqui: imaginemos um garoto. Esse garoto nasceu no dia 18 de julho de 1998, 6 dias após a final da copa da França. O local do nascimento é a Alemanha e sua primeira copa é a de 2002, que tem um final tão trágico pra ele quanto o de 98 pra mim.

Eu não sei se tal garoto existe, mas os alemães viram o time chegar ao menos nas semis por 3 copas consecutivas, incluindo uma derrota na prorrogação em sua própria casa em 2006. Os que tiveram na de 2002 a sua primeira copa tiveram que aguardar por 12 longos anos até a conquista do título, e o povo alemão no geral teve que aguardar o dobro: 24 anos desde que foram campeões em 1990. Se para muitos brasileiros essa foi realmente a Copa das Copas, imagine para os alemães. Principalmente aqueles que não viram 1990. Essa é a parte do “sim”.

Olhe para estes homens e diga a eles que essa não foi a Copa das Copas. Quero ver.

O meu ponto é: a Copa das Copas é aquela que vai ficar gravada a ferro e fogo na sua memória e na sua imaginação. Talvez o desfecho nem importe tanto para alguns (foi mal, pra mim importa), talvez seja aquela copa em que você conheceu o amor da sua vida ao ir ao bar assistir um jogo, talvez seja uma copa que você assistiu com a sua família completa pela ultima vez… enfim, existem milhares de motivos que podem transformar uma Copa do Mundo na Copa das Copas, mas todos eles são completamente subjetivos.

No final, quem faz a Copa das Copas não é o país sede. É você. E toda próxima copa pode ser a Copa das Copas.

*Eu sei que ninguém me perguntou, mas, se não ficou óbvio, a minha Copa das Copas terminou no dia 30 de junho de 2002 com um corta-luz fenomenal de Rivaldo (Deus te abençoe) para gol do eternamente oportunista (mesmo fora dos gramados) Ronaldo.

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