Arquitetura da Destruição e a arte d’O Bem contra O Mal

Construir narrativas é a melhor forma de popularizar uma ideia. Esse foi o método utilizado na antiguidade para transmitir seu conhecimento. Esse é o método bíblico para cultivar seus dogmas. A publicidade, a política, a educação e a filosofia já produzem através de técnicas de narrativas — ou de storytelling, como alguns preferem classificar — , há muito tempo. Sua efetividade está em criar empatia, apego e, principalmente, identificação do receptor da mensagem a ela em si. Assim sendo, a forma de narrativa mais comum em tradições populares, desde os mitos religiosos até os atuais blockbusters hollywoodianos, é o embate do Bem versus o Mal. Através disso podemos perceber o porquê do totalitarismo — como nos mostra o recorrente livro 1984 — ter em sua base a utilização dessa concepção de Bem x Mal, Heróis x Vilões, para a disseminação de ideais e formação de um Estado bancado pelo seu povo — não que isso não seja muito visto também em governos em tese democráticos. O regime nazista elevou essa forma (não inédita, como alguns pensam) de propaganda política à um nível sem precedentes e pouco comparável com qualquer outro visto até hoje desde então.

Titio Adolph e o Discóbolo

Mesmo os métodos nazistas sendo revolucionários e praticamente inatingíveis, podemos usar seu conceito e base para fazer um paralelo com a infeliz dicotomia política Direita-Esquerda sob a qual o Brasil hoje vive. Eu sempre esbarro em um dilema quando penso sobre o uso das redes sociais: se, por um lado, elas são quase uma concretização de delírios tecnológicos à lá Isaac Asimov; por outro, aproximou idiotas, como sabiamente já disse Umberto Eco — estou pendendo mais pra linha do finado italiano. Contudo, por teimosia um por burrice mesmo, quando percebo já tô lendo em loop embates políticos textões afora. Muitos dizem que a política brasileira está parecendo mais um FlaFlu, algo que não concordo. Diferentemente do que faz transparecer o noticiário sensacionalístico das tvs, no clássico carioca a imensa maioria dos envolvidos guardam um princípio de esportividade e assimilam bem o resultado negativo, tendo fé em sorte melhor na próxima e aturando a essencial ZUEIRA dos rivais.

Divagações à parte, em dias de grandes acontecimentos políticos eu opto por não acessar redes sociais, como durante eleições, na data da morte de Fidel Castro, por aí vai. Isso porque, inevitavelmente, seria inundado por posicionamentos extremados e dispensáveis. Alguns somente burros e irracionais, outros irritantemente travestidos de polidos porém passionais. Essa é a chave de ligação da nossa realidade atual com o sistema nazista apresentado no documentário Arquitetura da Destruição. Se a política está sendo sentida e tratada pelo nosso povo de forma irracional, passional, isso quer dizer que sua propagação está se fazendo por algum método que resulte nisso.

Ora, a arte é propositalmente causadora de emoções, em todas as suas vertentes possíveis. Escritores, músicos, cineastas etc, sempre falam como, invariavelmente, o intuito de sua arte é causar emoções. Por isso, uma política que instigue em seus consumidores sensações emocionadas está se utilizando da forma nazista de fazer política destrinchada por Cohen em seu filme: a estética artística e seu propósito de transmitir a narrativa d,O Bem contra O Mal. O sueco utiliza uma feliz analogia da sociedade como um corpo, que está sendo debilitado pelos males denunciados e combatidos pelo nazismo. Essa alegoria é emergencialmente “comprada” pela população, pois, instigada pela narrativa exposta, identifica e rejeita essa debilitação da qual o país necessitava de cura, que veio em forma do regime de Hitler.

No atual cenário político brasileiro, vejo como evidente a presença desse método nos dois FLANCOS da dualidade citada. Ambas pregam(!) — qualquer semelhança com discurso religioso pode, ou não, ser mera coincidência — que do outro lado reside os sintomas que deterioram o corpo social e que em si está a cura. De forma resumida, para a Direita (aqui representada pelo ponto de vista da idealização dos indivíduos, sem a vertente de políticas econômicas), os esquerdistas estão aliados à imoralidade que corrompe a sociedade; possuem agendas que vão contra os valores da tradição familiar judaico-cristã. Já pelo lado da Esquerda, vemos um discurso de que o conservadorismo da direita é um freio às pautas progressistas com intenção de manutenção do status quo e privilégios elitistas e excludentes de minorias. Estes são os males. A cura, como não poderia deixar de ser, está na colocação do seu lado no poder.

Independentemente de simpatização ou alinhamento à qualquer uma dessas frentes, vemos esses pontos de vistas embasados por argumentos que se utilizam da construção de símbolos e mártires, heróis e vilões. Ou seja, baseados na narrativa de Bem contra o Mal, se não idêntica, pelo contexto histórico distante, muito semelhante à estética artística do partido nazista que é objeto de estudo do filme Arquitetura da Destruição. O resultado disso é o empobrecimento do debante essencial à uma democracia saudável e natural corrupção da prática democrática, curiosamente, defendida pelos dois lados dessa moeda que sintomaticamente à vêm prejudicando.

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