Réquiem e Mia Zapata

Ou, mais um copo de uísque, por favor.

Eles não valem a pena, pois é, alguns, simplesmente, não valem esforço. O cruzamento maldito, destruiu sonhos e sepultou poesias. Essa cidade é triste — sim, triste. Há um mal à espreita, sempre há.

Eu e Amanda já não nos falávamos há meses. Estava sendo terrível para mim. Como não poderia deixar de ser, a culpa era minha, questão pra outra hora. Ela ligou lá em casa, e pareceu surpresa e decepcionada ao perceber que fui eu quem atendeu. Me mandou ir à casa dela por volta das 14 horas para buscar uns livros que estavam lá faz tempo. Com certeza achava que eu não estaria e minha mãe ou qualquer outro atenderia a ligação, deixando um recado para eu fazer a tarefa. Obviamente, no horário indicado, só estava o irmão mais novo dela em casa, com os livros já separados para me entregar. Estranho como algo assim, que deveria ser banal, pode ser melancólico. Eu fui e voltei sem conseguir não pensar em como aquilo não fazia sentido — no momento, ao menos, não fazia. O relacionamento de dois anos valia passar por esse fim infeliz? Aquela briga que levou ao fim fazia sentido de ser brigada, tendo como perspectiva os momentos bons que passamos antes e os que possivelmente passaríamos depois se tivéssemos nos entendido? Eu estava confuso, pensando em muita coisa e em nada ao mesmo tempo. Fazer o caminho ouvindo The Gits não ajudava.

Poucos artistas me causam sensações tão profundas quanto Mia Zapata. Impossível ouvir o som estridente, raivoso, profundo e sensível de sua banda, de sua voz, sem ter aquilo causando reações físicas de verdade. Conhecer a história de Mia é passar o resto da vida sentindo na pele os versos por ela cantados. Parece combinado, ou apenas um artifício literário, mas naquele dia fazia frio em São Paulo. O tempo tinha uma cor cinza pungente. A aparência das ruas, em meio aquele frio cortante, transmitia uma falta de vida, uma depressividade, quase palpável. Sim, eu estava na merda. As outras pessoas provavelmente estavam tendo um dia como qualquer outro, mas ninguém parecia estar melhor que eu. Os rostos estranhos eram um reflexo daquele dia maldito.

O crime e a violência são partes fundamentais da vida no extremo leste da cidade de São Paulo, essa é a regra. Eu e vários outros que realizam o milagre de conseguir crescer naquele caos, guardam histórias de quando a violência interferiu em sua vida. Já perdi a capacidade de contar quantos amigos com os quais dividi lanches na escola e risadas na rua foram assassinados pela polícia ou estão presos por assalto à mão armada e coisas do tipo. O pior é que ninguém naquele inferno que aprendemos a chamar de lar consegue mais se surpreender com essas histórias. O contrário é que é incrível. Lá, somos ensinados que nosso lugar é também nossa sepultura. Sucesso é para ser assistido.

Eu adoro a música e a arte dos anos 90 — sei, não me julguem… Uma das maiores artistas dessa época foi violentada e morta — daquele jeito que da ponte pra cá seria triste, mas comum. Por isso faço relação com a condição humana dessa cidade. O verdadeiro final da biografia de Mia Zapata nunca será lido. Para sempre teremos apenas esse que nossa realidade nos contou.

Engraçado é que até cheguei a apresentar The Gits pra Amanda, lembro que ela não gostou. Odiava quando eu botava esse punk sentimental pra tocar.


Fato é que nunca mais fui tão triste. Um imenso e injusto exagero, tragédias maiores aconteceriam e aconteceram. Mas eu era um adolescente de 17 anos e, você sabe, a vida gasta a sensibilidade. Via de regra, adultos não gostam de adolescentes. Relembrando a forma demasiadamente dramática com a qual lidei com o término com a Amanda, fiquei pensando nisso. Será que o fim dessa intensidade, impulsividade e todas as outras expressões e sensações hiperbólicas da adolescência é uma virtude da vida adulta?

(sempre lanço mais questões que respostas, é assim que é.)

Ficar cínico, descrente e desiludido, aparentemente, é sintomático do passar dos anos. A vivacidade da juventude é que não deveria ser deixada pelo caminho. Lamento ver isso nos outros. Espero ser e me acompanhar do vinho da juventude, que assim permaneçam.

{apenas uma ficção}

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