Um dérbi para formar caráter!

Vinicius Fagundes
Feb 23, 2017 · 2 min read

Minhas maiores saudades são de tempos que nem vivi. Gostaria de ter ido a um dos rituais quase-xamânicos que eram os concertos dos The Doors; endividaria até a última geração dos netos do meu pai para ter tido a chance de testemunhar a catártica explosão de atitude juvenil que era um show dos Ramones. Para citar apenas dois dos arrependimentos-platônicos que carrego. O maior deles, porém, é jamais ter assistido da arquibancada um dérbi de verdade, desses que talham na alma do torcedor um tipo de lembrança que reverbera como um batismo de sangue que transforma criança em adulto e entrega à sociedade uma criatura forjada para enfrentar o mundo.

Surpreendentemente, o dérbi não-dérbi dessa quarta-feira, contra qualquer previsão e sob o olhar entusiasmado da vitória, até conseguiu se aproximar disso. A despeito da impossibilidade de se considerar como sendo um verdadeiro Corinthias x Palmeiras um clássico realizado sem palmeirenses, o desenrolar do futebol no campo foi suficiente para arrastar o espírito do torcedor gramado a dentro e sentir a peleja na pele, como há meses - talvez anos - o corinthiano não sentia.

Uma das coisas que mais odeio no futebol e que, como não poderia deixar de ser, está entre o que mais se vê por aí, é o infame discurso do “contra tudo e contra todos”. Entretanto, serei compreensível com quem citar algo do tipo quando se referir a essa última partida do Itaquerão (sim ITAQUERÃO!). O favoritismo estava todo do lado de lá, e se transformou em uma arrogância profundamente irritante, daquelas que nunca, nunca passam impunes. Como se já não fosse suficiente, algum gênio botou em campo um assoprador de apito que na juventude deve ter sido galã de Malhação ou algo da categoria. Nada contra ex-atores de seriados teen se tornarem árbitros, mas tava na cara que o cidadão iria fazer merda.

Depois da patética expulsão do agora convertido e purificado volante Gabriel, os rivais lançaram-se ao ataque desesperada e desorganizadamente. Foi constrangedor de tão inútil. E, se não o árbitro e nem os prognósticos dos especialistas, nós tínhamos a temperatura do jogo nas mãos, só faltava o gol da vitória. Jô pode não estar com o futebol em dia, mas não é burro. Sabe que só calçou as chuteiras e pisou no gramado porque Kazim, que foi o mais guerreiro e lutador em campo (ele, o gringo, não pitbulls ou afins), se cansou. Jô é fruto do extinto já-não-tão-terrão-assim, sabe o que significa o clássico, e o que significaria (e significou) para ele o gol.

Perdas impossíveis nunca serão reparadas. Não verei os The Doors ou os Ramones, mas, mesmo com todos os esforços ao contrário, enquanto houver futebol, ainda poderá haver Futebol de Verdade. Um dérbi ganho com coração apesar dos pesares, servirá enquanto aguardamos ao Dérbi Inesquecível.