Mas orgânicos são muito caros, não?

A discussão acerca da alimentação orgânica ainda é muito pouco explorada e divulgada em nosso país. Muitas pessoas desconhecem que todos os alimentos que colocamos em nossos pratos foram tratados com toneladas de químicos que, mesmo após preparo e lavagem, continuam presentes em dosagens bem expressivas no momento em que estamos os comendo. O impacto disso para nossa saúde e para o meio ambiente é imenso, tanto que muitos países europeus não permitem, e cada vez mais essa lista cresce, o uso de diversos dos químicos que nós, brasileiros, pagamos para consumir. Contudo, o enfoque desse nosso texto não é falar da alimentação orgânica e de sua produção sustentável (é claro que esse será o assunto de um próximo texto), mas sim, focar naqueles que já perceberam os inúmeros danos da agricultura convencional regada a agrotóxicos e ainda não mudaram para a alimentação orgânica por enxergarem essa como uma opção muito mais cara. Mas será que é mesmo? E será que isso é um bom argumento? Bem, vamos lá.

Ser barato ou caro envolve muitas variáveis. Primeiro, não é difícil percebermos que os próprios convencionais variam muito de preço de acordo com o local onde estamos os comprando. E isso também acontece com os alimentos orgânicos, a diferença é que esses são vendidos em menor quantidade que os convencionais. Sua venda, em geral, é restrita a pequenas seções nos mercados, feiras orgânicas, algumas lojas especializadas, listas de compra online (Grupo Comida da Gente: Rede de Compras Coletivas e Orgânicas facebook) e CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura, que são, em geral, esquemas de entrega de cestas semanais com produtos orgânicos). Assim, os preços dos orgânicos também variam, mas se pesquisarmos direitinho podemos achar preços semelhantes aos convencionais ou, muitas vezes, até mais em conta. Por exemplo, atualmente, no Rio de Janeiro, já podemos encontrar diversos produtos orgânicos nas feiras orgânicas mais baratos que suas versões envenenadas vendidas nos mercados, principalmente as folhas e alguns legumes. Além disso, grupos de compra coletiva, como a Rede Ecológica e o grupo do facebook citado, ainda conseguem superar (e muito) a feira orgânica nessa diferença em relação ao convencional, já sendo possível comprar por eles até frutas, castanhas, farinhas, cereais e leguminosas mais em conta que as opções com agrotóxico.

Além do local de compra, outro fator determinante para o preço dos produtos é a época em que estamos os comprando. Isso também acontece com os convencionais, é claro, já que, quando estamos falando de plantar, o clima determina o que vamos ou não conseguir colher naquela época do ano. A diferença é que nos convencionais usa-se diversos químicos, que tornam o plantio inadequado para aquela época do ano possível de acontecer, logo, nesses o preço ao longo do ano não varia tanto como nos orgânicos. Desse modo, dar preferência por comer produtos da época também é fundamental para tornar a sua alimentação orgânica menos custosa financeiramente.

A verdade é que alguns produtos orgânicos são realmente mais caros que os convencionais, enquanto outros são mais baratos ou o mesmo preço. Mas será que faz sentido economizar naqueles que são mais caros e comprar suas versões envenenadas? Você pode pensar que sim, que és uma pessoa super econômica, que só compra aquilo que é o mais barato. E dependendo da sua condição financeira, você realmente pode ser. A questão é que muitas dessas pessoas que não compram orgânicos por terem preços mais elevados, não apresentam o mesmo comportamento em relação aos convencionais. Faça uma reflexão você mesmo, olhe o seu carrinho de compras e a sua dispensa com atenção. Você provavelmente vai perceber que muitos dos produtos que compras não são as versões mais baratas, mas sim uma escolha baseada na sua preferência. Compra-se guaraná Antártica ao invés de Kuat, Heineken ao invés de Skoll, Nescau ao invés de achocolatado Shefa, pão Panco ao invés de pão Energia. Isto é, paga-se mais caro para consumir produtos de determinadas marcas (seja qual for o motivo, gosto,confiança na marca, consistência, etc), em detrimento de comprar sempre aquilo que é o mais barato.

Contudo, quando chega na batata doce, essa mesma pessoa não está disposta a pagar a diferença entre a orgânica e a convencional, sem perceber que, muitas vezes, essa diferença é muito menor do que a diferença de preços dos industriais comprados em relação a suas versões mais baratas. Ou seja, nesses casos, a questão de comprar ou não orgânico não parece ser o preço em si, mas uma preferencia de onde escolhemos gastar o nosso dinheiro. Imagine o selo orgânico como uma marca mais saudável, mais saborosa (sim, muito mais saborosa), mais ecológica, socialmente mais positiva e mais confiável. Então, não parece mais interessante e benéfico pagar a diferença nessa “marca” também?

Na tabela abaixo, colocamos o preço por kilograma ou por litro (depende do produto) de alguns produtos comuns para a classe média carioca e o o preço de suas versões mais baratas. Calculamos também o percentual de diferença que pagamos para consumir aqueles mais usuais no lugar de consumir os mais em conta. Não fizemos uma tabela comparando os perecíveis orgânicos e os não orgânicos porque o preço desses varia muito a cada dia e local de compra. Mas se você for à feira orgânica ou pesquisar nos grupos online, perceberás que, quando mais caros, muitos orgânicos não costumam apresentar um percentual de diferença tão elevado em relação aos convencionais.

Preços do supermercado Extra

Na verdade, se lembrarmos do último texto que foi postado aqui na página (quem não o leu ainda, vale a pena dar uma conferida aqui), podemos pensar que todo o dinheiro que gastamos em industriais, que, como comprovamos no texto, são muito caros, independente de comprar a marca mais cara ou a mais barata, podíamos estar investindo em uma alimentação 100% orgânica (ou quase isso). Pense só, imagine se todo aquele dinheiro que pagamos a marcas caras para consumir produtos ultra processados, cheios de químicos, pouquíssimo nutritivos e envenenados com agrotóxicos, fosse investido em compras orgânicas de produtos naturais. Certamente, você e sua família ficariam muito mais saudáveis, a natureza ficaria muito mais preservada, os agricultores seriam muito mais beneficiados e ainda por cima, provavelmente, a sua conta no banco também ficaria mais gordinha (e você menos).

No fim, tudo é uma questão de preferência. Cada pessoa paga mais caro naquilo que considera mais relevante, seja porque é saboroso, saudável, ecológico, econômico ou socialmente consciente. Felizmente, os orgânicos são tudo isso.

Mais Informações:

http://institutokairos.net/2016/04/alimentos-sem-veneno-sao-sempre-mais-caros/

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