Filho, Você Só Percebe Que Já Está Bêbado Quando Levanta.

Não, eu ainda não tenho filhos, mas esse é o tipo de conselho que guardo para quando tiver, afinal, gosto de imaginar uma versão mais madura de mim, conversando com guris sobre o pouco que sei sobre viver.

Imagem(montagem) ridícula pegada na internet, e esperando que a Ambev me pague em produtos a divulgação que vou acabar fazendo aqui, ou talvez um acordo vitalício mesmo. E é engraçado ver cães “passando” por situações humanas, pelo menos pra mim.

Mas a questão aqui não é apenas a bebida, é sobre a situação, você começa a beber, confortavelmente sentado, numa boa cadeira, seja em casa, seja em um bar, dose atrás de dose, nem há necessidade de se levantar para buscar a bebida, ela já fica ali, te esperando, e você continua.

Até que sua bexiga finalmente dá os primeiros sinais que você precisa ir ao banheiro, e como é de costume, você segura, afinal, quanto mais demorar na primeira, mais demora nas outras, e você têm que segurar, aquela maldita urina.

Bebo uma garrafa e passo a mijar três vezes o que bebi, e nem sei como que isso é possível.

Você continua naquela batalha, contra seus próprios instintos, algo que nem Freud poderia explicar com qualquer conhecimento da psicanálise, pensa na possibilidade de todo aquele mijo escapar, daria uma puta má fama, você tenta não pensar em mijar, só consegue pensar nisso, então desiste, puxa a cadeira pra trás, e então levanta.

Agora seu problema é outro, você estava totalmente sóbrio até pouco atrás, quer dizer, quase isso, só a língua tava meio solta e você tava sorrindo mais que de costume, mas agora você percebe que o mundo tá meio turvo, desfocado, seu equilíbrio que nem é tão bom assim tá num nível crítico.

Atravessa aquele corredor, se segurando timidamente nas paredes, apalpando aquela estrutura sólida para não tropeçar em nada, odeia cada porta aberta no corredor pela falta de apoio, tem medo de cair, talvez todos venham ver e rir de mim, mas preciso mijar, desde que levantei não tem outra.

A vontade até passou mais, penso que é coisa do psicológico, nunca tive ele muito bom, minha bexiga é uma droga, eu mijo mais que um humano comum, verdade, mas finalmente cheguei no banheiro, foi uma saga até aqui, e sabe, ele tá ocupado, bati na porta e tem gente dentro, espero, ouço a criatura lavar as mãos.

Quase mijo nas calças enquanto ouço o barulho de água, a pessoa sai, sorri com educação e você entra, tenta soltar o cinto, e nenhum momento de ebriedade é tão complicado quanto a abertura de um simples cinto, você se sente bambear em cima do vaso, soltou, finalmente, abre o botão da calça, abre o zíper, baixa a cueca, segura seu magnânimo dito-cujo flácido.

Mira no meio do vaso, você nunca mirou bem nem quando sóbrio, bate na tampa, você tenta puxar pra trás pra mirar no centro, bate na água xixi, você acaba respingando mais em você que no vaso, o mijo continua saindo, saindo, saindo, você se sente bem de esvaziar a bexiga, a água que tava limpa ficou tão amarelada, você termina de mijar, quer dizer, dá os últimos espasmos de urina, jatos fracos que só servem pra sujar tudo, balança educadamente, lembra que a última gota vai ficar por conta da sua cueca, sempre é assim afinal.

Abaixa pra pegar uns pedaços de papel higiênico e tenta limpar toda a sujeira que deixou numa simples mijada, já devem ter se passado horas desde que eu levantei da mesa, devem estar sentindo minha falta, continua a limpeza, não vai fazer algo meia-boca e levar reclamação depois, termina de limpar, joga os papéis no lixeiro, sua vista rodando.

Levanta, a vista rodopia mais que aqueles brinquedos novos das crianças por ai, você finalmente toma posse do seu corpo novamente, lava as mãos com água, mas pensa bem, não vai querer pegar no tira-gosto com a mão mijada, lava com sabonete, quer dizer, se você conseguir pegar o sabonete, esse troço todo ensaboado escorrega pra caramba, pegou, limpou as mãos como aquele manual ensinou, manual pra lavar as mãos, algo tão ridículo é útil.

Vira pra porta, abre, anda pelo corredor ainda tonto da bebida, volta pra cadeira, senta, pega outro copo, o seu já tinha sido colocado sabe-se lá onde, põe uma dose, comenta com a pessoa do lado, Você Só Percebe Que Já Está Bêbado Quando Levanta.

A pessoa confirma sua tese, depois volta a ouvir o assunto principal, você nem ouve, pensa só que isso vai ser um conselho útil qualquer hora, pensa como fazer, desiste e volta pro mundo real, já bêbado, só por ter levantado.


Tudo isso pra poder dizer que você só percebe que uma coisa pode dar errado depois de já ter feito dar errado, a vida é assim, todo mundo só percebe que bebeu demais quando se levanta, então o conselho é continuar sentado, ou beber de pé, pra evitar essa embriaguez repentina.