O Auto do Táxi do Inferno

Victor Marques
Jul 10, 2017 · 6 min read

– Vai para onde, senhor?

– Para a Augusta, mas sem as putas…

Bom, mesmo não concordando com certos itinerários minha função era levá-los ao seu destino e entregá-los como vieram, receber meu dinheiro e partir para a próxima corrida. Assim é a minha vida. Sou taxista, assim como meu pai, meu tio, meu avô.

Andava sempre de noite. Não temia o perigo. Desde que eu topara levar algumas encomendas que as pessoas faziam a meu amigo de infância Biro Neves, meliante desde sempre. Começou furtando videocassete, assaltou banco e encontrou no tráfico um confortável meio de vida. Era muito conhecido no submundo da night como Brilho da Neve, todos os narizes do centro da cidade pertenciam a ele.

O estado nunca me deu segurança, mas graças ao Biro, tinha a sensação que no meu táxi ninguém tocaria. Era meu salvo-conduto. Ele também custeava minha diária. De todos os modos, vez ou outra, pegava um passageiro na rua, para despistar. Também atendia na porta dos inferninhos, caixinha boa quando levava um desavisado, um potencial cliente do ouro branco e claro, toda garota de programa tem seu taxista de estimação.

Era toda uma rede de negócios.

Na época que eu vivia exclusivamente da arte de ser Chauffer de Praça, os dissabores eram maiores. Alguns passageiros sofriam de flatulência, outros eram extremamente mau-humorados, alguns casais não se aguentavam e se atracavam no banco de trás. As vezes surgia aquele papo de política, sempre precedido pelo “vai chover”, mais batido que óculos Ray Ban em ditador. O pior eram as negociações, os caloteiros. Mas não dava para se queixar, consegui criar minha filha, sustentar minha família e uma amante, uma piranha que me tinha como taxista de estimação, que morava na Liberdade. Na minha casa tinha video-game, computador, aquecimento central e meus amigos do bairro não reclamavam de mim, já que eu sempre pagava a cerveja. Eu evitava dar bandeira, mas eu estava completamente satisfeito.

Quando o Biro não tinha serviço para mim, eu ficava sempre perto de alguma casa de tolerância, esperando levar algum casal formado ali dentro para um hotelzinho próximo, ou então a espreita de algum negócio que pudesse pintar. Sempre ficava em algum bar tomando um café e jogando conversa fora. Nessas conversas, sempre conhecemos gente nova, eu sempre conversava com o Leomar, nem sei se era esse seu nome, era um tipo incomum, cabeludo e careca ao mesmo tempo,s empre de camisa xadrez, não fazia nada da vida, morava nos arredores e parecia ser um cara culto. Vez ou outra se arvorava a entrar em um dos inferninhos e se divertir, mas era figurinha fácil mesmo no bar. Tomava Maria-Mole e falava sobre tudo que viesse. Vez ou outra comprava algo comigo e logo ia ao banheiro apertado verificar se o produto era bom.

Samantha, era minha amante e também a moça trabalhadora das noites que tinha me adotado. Ela não sabia para que operadora eu trabalhava, ou melhor, não sabia do Biro. Morava na Rua dos Estudantes, trabalhava feito louca (algo me dizia que era ninfomaníaca) e gostava de música eletrônica, algo que para mim era incompreensível, como alguém podia gostar dessa música, esse bate-estaca insuportável. Ela vivia me pedindo para ir a essas festas com ela, e eu nunca podia (ou queria aceitar o convite). Me escorava nas desculpas de que minha mulher iria desconfiar, que eu tinha de trabalhar e que o Biro não me dava licença, era o meu verdadeiro patrão. Compensava toda essa frustração de Samantha levando-a para ver algum filme. E claro, depois, caprichando nas preliminares. Mas tinha a sensação de que ela nunca estava satisfeita. Precisava que eu fosse a aquelas malditas raves, todas muito longe, e ficar 3 dias virado.

Fiquei bastante tempo nessa rotina de casa, táxi, desova de pó, alguma venda para narizes nervosos, porta de puteiro e motel com a amante. Em casa comparecia e levava minha garotinha para a escola.

Houve então, uma noite dura de trabalho na qual haviam muitas blitze policial e o Biro, dias antes, me passara uma grande quantidade de produtos, mas subitamente, ele tinha sumido, seu celular não atendia, e então não sabia o que fazer com aquilo, já que não tinha recebido a ordem. Em casa não poderia deixar. Estava me sentindo mal e pensei em parar o carro em qualquer lugar e esperar a poeira baixar. Sem ligações com o produto que eu transportava. O problema é que o momento era bom para pegar passageiros, e para não chamar atenção pegava todos que faziam sinal. Se passasse batido e alguém me reportasse poderia ser pior.

Preocupado, acabei usando um pouco do produto, parei para tomar um goró. Já era bem umas 7 da manhã, quando deixei uma senhora que fizera sinal ali perto do Estadão Lanches, no centro, no Aeroporto de Congonhas. O Bira realmente tinha sumido (ele vez ou outra chamava 5 garotas e se desligava do mundo), mas a sensação que estavam no meu encalço, que a casa tinha caído diminuíra, já que com o coração na mão, tinha passado por várias blitze e não tinham me pedido para parar. Voltar para casa era necessário, deixaria as coisas no carro, descansaria e passaria na casa de Samantha para levá-la ao seu local de trabalho. Não sem antes marcar território e tentar aplacar aquela fúria sexual que só ela tinha.

Uma hora a maré de sorte termina. E para mim ela havia mesmo chegado ao fim. Depois de toda a paranoia de perder contato com o “patrão” e ter no meu porta-malas quantidade de pó suficiente para endoidar um bairro inteiro e ainda assim ter passado incólume pelas barreiras policiais, encostei o carro em frente ao meu sobrado e saí com uma sensação de vitória. No entanto, surgiram policiais do nada e começaram a gritar ordens que eu tentava obedecer, mas eram tantas que nem conseguia. E eu ainda estava com os olhos arregalados, ligadão, não sabia muito o que fazer. Parecia um videoclipe aquilo tudo.

– Mão na cabeça! – Deitado! – LARGA A ARMA! – Documentos…

Era a imagem da derrota, eu estava sendo preso em frente a minha casa, com minha filha observando. Não sei onde eu falhara no negócio, não imaginei que isso pudesse acontecer. No camburão me informaram que o “Brilho da Neve” estava morto e que alguns nóias e um grampo telefônica haviam me delatado. Não queria imaginar como se sentiria meu pai, que até do sindicato dos taxistas fez parte. Mas enfim, me tiraram da sociedade.

No presídio não recebia qualquer visita,o que me doía um pouco, apesar de ser bem tratado pelo prestígio que o nome do Biro tinha, minha família tinha rompido relações comigo. A mãe de um detento amigo tinha se afeiçoado a mim e me trazia algumas coisas,me chamava de “Meu Menino”. Eu para não suscitar quaisquer dúvidas falava pouco, mas realmente ficava comovido. Era um alento na casa de pedra, mas eu precisava de uma visita íntima, já que estava quase sucumbindo ao desejo de traçar um viadinho escandaloso, que vivia a se insinuar para mim. Foram meses difíceis. Cadeia é para homem, mas a abstinência sexual testa essa convicção.

Enturmado, jogava bola com os ladrões, lembrava a vida de chofer de praça e terminava o dia dormindo sem pregar o olho. Foram meses e meses até aquele domingo chuvoso, mais um dia de visita em que eu não ia receber ninguém. Até assustei quando a vi adentrando o pátio, quase morri do coração, Samantha entrara triunfante, parecia estar com a roupa de trabalho, os detentos gritavam toda sorte de impropérios para ela. Pensei naquele momento que ficara livre de ter que comer um rapazinho e ainda passaria umas boas horas ali com ela. Nem consigo descrever o sexo que fizemos, foram muitas vezes que pareciam a primeira, um êxtase total, água naquele deserto. Incrivelmente cansado, deitei na cama improvisada no mocó esperando um pouco de carinho e amor, ela ao contrário, fechou a cara e colocou suas roupas. Perguntei o que tinha acontecido e ela muito decidida disse: – Encontrei quem me leve a uma Rave! – Vim só me despedir – Deixou uma sacola com coisas minhas, onde apenas identifiquei uma camiseta Jânio prefeito 85 e um calção da Penalty, e foi saindo do ambiente, eu sem ação, perguntei:

- mas quem?

Ela disse, já se afastando e de costas para mim (que rabo ela tinha!):

– Um cliente, um cliente…

Passei a esperá-la todos os domingos. Nunca apareceu. Acabei morrendo na mão da bichinha, que se sentindo rejeitada me enfiou a faca ali mesmo no pátio.

Victor Marques

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Mi ametralladora esta llena de magia

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