Seria Prejudicial Nosso Fanatismo em Ler Muitos Livros?

Até que ponto estamos realmente aprendendo o que lemos? Foto obtida em: https://www.aisquared.com/audiences/libraries/ (data de acesso: 27/08/17)

Com algumas leituras recentes, venho me deparado com um problema bastante relevante para quem busca aprofundar o conhecimento em uma determinada área: o fetichismo por ler muitos livros. Claro, a leitura não é de nenhuma forma indesejada, e é ótimo que algumas pessoas consigam ler muitas obras, aumentando assim o seu conhecimento. O problema é saber até que ponto essa leitura volumosa chega ou não a ser uma leitura apressada.

Vou citar um exemplo descrito na página pessoal no facebook do professor William Bottazzini: Segundo ele, Santo Agostinho revela ter ficado anos e anos lendo e meditando sobre uma obra de Cícero, a fim de compreender completamente seu significado. Por outro lado, um jovem estudante contemporâneo se gaba de ler dezenas de livros todo ano. E aí, com quem ficamos, Santo Agostinho ou o jovem gênio da leitura?

Será que o rapaz que lê dezenas de livros realmente os compreende? Será que, daqui a um ou dois anos, ele saberá dizer sobre o que o livro aborda? Será que lembrará, mais ou menos, a estrutura geral do texto? A não ser que ele tenha realmente muito tempo livre para fazer uma leitura detalhada sobre as inúmeras obras que lê ou que seja uma pessoa dotada de inteligência fora do comum, não creio que suas leituras tenham sido muito proveitosas.

Vou usar um exemplo próprio: No começo da minha vida intelectual, li algumas obras de Platão, de Santo Agostinho, Chesterton e outros grandes autores do pensamento ocidental. Agora me pergunte o que posso falar sobre esses livros… A minha resposta será: muito pouco. Claro, não dá pra negar que lembro de trechos esporádicos que carrego comigo até hoje, mas não saberei analisar detalhadamente cada obra. Isso tudo mudou quando li um exemplar de “Como Ler Livros”, o trabalho mais popular do filósofo americano Mortimer Adler.

Nesse livro, Mortimer Adler conta um caso curioso: ele fez um curso na faculdade onde precisava ler 50 livros clássicos da humanidade, um por mês(se não me engano) e debatê-lo com a turma em algum momento. Para sua surpresa, se deu conta de que, no fim deste curso, não se lembrava muito bem de nenhum dos trabalhos que leu. O que ele tirou de conclusão dessa experiência?

Ele percebeu algo já óbvio para muitas pessoas: Não aprendemos a ler de verdade. Sim, o máximo que fazemos é fazer uma leitura superficial, na qual guardamos um mínimo de informação de cada livro, sem conseguir relacionar essa informação com as obras seguintes que leremos. Para isso, ele desenvolve uma metodologia fantástica para ler melhor, que consistem em quatro níveis de leituras, um mais complexo que a outra.

A primeira leitura é uma leitura mais superficial: Nele, você entende o objetivo do livro, analisa cada um de seus capítulos e verifica como ele desenvolve seu raciocínio geral; a segunda é uma leitura aonde se faz um esforço maior para se entender com a maior clareza possível o que o autor está falando, fazendo anotações, entendendo seus termos principais e sem avançar para o parágrafo seguinte enquanto não se entendeu o parágrafo anterior; a terceira é uma leitura no qual se dialoga com o autor, concordando ou discordando com sua linha de raciocínio; por fim, a última leitura, na qual se relaciona o conteúdo do livro atual com leituras prévias.

Repare que isso não quer dizer que você necessariamente precisa ler o mesmo livro quatro vezes: as duas primeiras leituras podem ser feitas em conjunto, enquanto a quarta leitura não é uma leitura propriamente dita, apenas uma correlação entre leituras. O próprio professor José Monir Nasser, em sua palestra sobre o livro, fala que as regras expostas no trabalho de Mortimer Adler não precisam ser seguidas a risca. Cabe a cada leitor adaptá-las da forma mais apropriada.

O que podemos tirar da leitura deste livro? Algo muito simples: Qualidade é MUITO mais importante do que quantidade quando se fala de leitura. Mais vale um clássico da literatura bem lido e estudado do que muitos entendidos superficialmente e sem nenhuma relação. Vejo isso claramente ao reler atualmente um livro que já havia lido antigamente, antes de saber desses princípios. Ao relê-lo, percebo que estou aprendendo muito mais do que na leitura anterior.

Ao realizar uma leitura, precisamos tornar nosso o conhecimento contido na obra, o que só só pode ser feito seguindo passo a passo do raciocínio do autor. Devemos ler buscando apreender a verdade que este autor fala, ou seja, tornar a verdade nossa. Caso não façamos isso, estarmos apenas repetindo o que o autor falou, sem realmente compreendê-lo. “ …examinai todas as evidências, retende o que é bom1Ts, 5:21.

Um caso curioso em “Como Ler Livros” é quando Adler fala sobre a Bíblia. Ele diz que, por conta da abrangência da fé cristã, a Bíblia é o livro que melhor foi lido em todos os tempos. Existem muitas obras sobre a Bíblia que são verdadeiras riquezas, pois nos fazem perceber certo aspectos das escrituras que não havíamos percebido. Santo Agostinho, por exemplo, possui uma obra com mais de 3000 páginas comentando os Salmos. Dá pra negar que ele realmente leu esta parte da Bíblia, meditando sobre seus principais pontos e estendendo seu significado? Santo Agostinho é só um dos exemplos dos Pais da Igreja, conjunto de filósofos e teólogos da cristandade em seus primeiros séculos. Todos eles leram, compreenderam e estenderam o significado das Escrituras de forma fenomenal.

Padre Paulo Ricardo, em seu curso “Ensinai-nos a Orar” fala que pessoas com uma vida espiritual mais avançada consegue meditar por muito tempo em cima de pequenos trechos das Sagradas Escrituras. Por que não tentamos fazer isso com todas as obras que lermos? Eu diria até além: não nos apeguemos apenas aos livros. Claro que eles são importantíssimos, e talvez sejam a melhor forma de guardar conhecimento, mas podemos aprender muito com bons documentários, filmes, pequenos artigos, entre outras fontes de aprendizado.

Como forma de aprender sobre como ler e estudar melhor, recomendarei aqui as seguintes fontes: 1)“Como Ler Livros” de Mortimer Adler; 2) “A Vida Intelectual” de Sertillanges; 3) “Trivium” da Irmã Miriam Joseph; 4) “Ensinai-nos a Orar” curso do Pe. Paulo Ricardo disponível no YouTube