Sobre a Mistificação da Ciência

Fonte: http://otambosi.blogspot.com.br/2013/04/ideologia-x-ciencia.html

Recentemente, venho me coçando para escrever um pequeno artigo sobre esse assunto, mas as informações necessárias para tal nunca se encaixavam. Com algumas leituras recentes, acabei por me decidir a escrever sobre.

Vale notar: “Ciência” aqui refere-se aos estudos das ciências naturais: astronomia, química, física, etc. Não confundir com “ciência” como sinônimo de conhecimento, de ter ciência de algo.

Como alguns sabem, sou químico e atualmente estou cursando meu doutorado numa área específica desta ciência. O curioso é que as pessoas no meu instituto de pesquisa são extremamente comuns, “gente como a gente”: falam sobre coisas triviais, saem para beber e dançar, tem suas crenças pessoais, são casados e têm filhos, entre outras coisas. Bem diferente da noção que se tem de um cientista, não?

Pois bem, atualmente vem-se tentando empurrar goela abaixo uma visão errônea da Ciência e dos cientistas: a de homens solitários, imersos em seus pensamentos, que questionam a tudo e a todos; verdadeiros gênios incompreendidos pela maioria das pessoas, ignorante aos fatos a seu redor.

Parte disso vem da mania moderna de se querer verificar tudo através da metodologia científica. Veja bem: o método científico, ainda que muito útil, visa a observação da realidade física, da matéria e seus assuntos correlatos. Sendo assim, é complicado quando alguém tenta meter a ciência onde ela não foi feita para ser utilizada.

O método do conhecimento científico é a experimentação, e qualquer explicação que vise a correlacionar dois fatos observados cientificamente é feito através do raciocínio lógico. Ou seja, a própria ciência é insuficiente e necessita de um arcabouço lógico — e, portanto, filosófico — para ser completa.

Dito isto, fica claro que o saber científico não está apto para debater determinados assuntos. Poderia citar diversos, mas citarei alguns entre eles: a discussão da existência e natureza de Deus, os debates sobre o valor do individuo (inclui-se aqui a questão do aborto) e a definição do bem e o mal. Problemas desta magnitude, que envolvem aspectos além da realidade física, são problemas filosóficos.

Dito isto, não se pode discutir seriamente sobre a existência de Deus usando apenas a ciência. Naturalmente que a ciência pode deixar alguns indícios sobre o assunto, de forma positiva ou negativa, mas não se trata de nada mais do que isso: indícios. A existência ou não de Deus se dá em um plano além do físico (metafísico, daí o termo). Como já foi dito por alguém, seria o mesmo que Hamlet, que está contido na realidade da obra literária, tentar provar a existência de Shakespeare.

Sobre a formação do indivíduo e a questão do aborto: não é contando o número de células, vendo quando se desenvolve o funcionamento cerebral ou seus membros, ou descobrindo quando o coração começa a bater que você vai conseguir entender algo sobre o valor e a natureza do ser humano, quando suas faculdades começam e terminam e o que faz com que ele seja um indivíduo. Com o método científico, você não consegue sequer provar a existência de sua própria consciência! Como então distinguir claramente o momento onde se é ou não assassinato?

Sobre o bem e o mal, basta tentar justificar o pensamento de um cientificista sobre sua origem e natureza, e ver-se-á que este defenderá que algo é errado porque a sociedade o vê como tal. Daí, partir para a aceitação da pedofilia e da zoofilia são um passo, uma vez que isso não seria errado em uma sociedade em que isto fosse tolerado.

Convém observar que muitos religiosos da atualidade tentam validar alguns acontecimentos da Bíblia, como a criação do mundo e do homem, através de argumentos científicos. Contra esses, prefiro ficar com São João Paulo II e seus antecessores, que sempre deixaram claro que a interpretação das Sagradas Escrituras não deve ser feita de forma puramente científica (basta procurar as Encíclicas específicas sobre isso).

Para concluir, gostaria de deixar uma dica: não se enganem, a única forma de conhecimento que estuda a totalidade das coisas, as coisas como elas são, é o conhecimento filosófico (que me parece indissociável do conhecimento teológico, mas isso é assunto para um outro post). O conhecimento científico muito nos é útil, mas deve ficar em seu próprio plano.

Diga essas coisas para seu amigo cientista de quarto, que tenta colocar a metodologia científica além de toda outra forma de conhecimento. A cabeça dessas pessoas já está tomada de certa forma por este pensamento limitado que ela sequer vai conseguir entender o que você está falando. Muito provavelmente ela será um desses ateístas modernos completamente ideologizados.

Curiosamente, muitas destas pessoas são alunos do ensino médio que ficam pregando a “deusa Ciência” nos quatro cantos do Facebook. Possivelmente, tiram notas ruins nas matérias que tanto defendem. E certamente não sabem o que é ficar um dia inteiro num laboratório pra, no fim das contas, seu experimento dar todo errado e você ter que tentar novamente no dia seguinte.

Por fim, deixo uma pequena nota de Chesterton, um de meus autores favoritos: “Hoje em dia acusam-nos de atacar a ciência por querermos que seja científica. […] Como a ciência material poderia provar que o homem não é depravado? Não se corta um homem para procurar seus pecados dentro dele. Não se ferve um homem até que comece a emitir os inconfundíveis vapores esverdeados da depravação. Como a ciência material poderia encontrar quaisquer traços de uma queda moral? Que traços o autor esperava encontrar? Esperava encontrar um fóssil de Eva com uma maçã fossilizada dentro? Imaginava que as eras teriam preservado para si um esqueleto completo de Adão preso a uma folha de figueira ligeiramente murcha? […] Seria possível resumir o argumento desse autor de forma abrupta, mas acertada, mais ou menos assim: ‘Não desenterramos os ossos do Arcanjo Gabriel, que presumivelmente não tinha nenhum; portanto, se deixarmos que meninos pequenos cuidem de si mesmos, não serão egoístas.’ Para mim é tudo desvairado e rodopiante; como se alguém dissesse: ‘O encanador não consegue encontrar nada de errado com nosso piano; então suponho que minha esposa me ama’. […] Por sua natureza, a evidência do Éden é algo que não é possível encontrar. Por sua natureza, a evidência do pecado é algo que não é possível deixar de encontrar. […] O que as pessoas querem dizer ao afirmar que a ciência perturbou sua visão de pecado? Que espécie de visão de pecado tinham antes que a ciência a perturbasse? Achavam que era algo de comer? Quando as pessoas dizem que a ciência abalou sua fé na imortalidade, o que querem dizer? Será que pensavam que a imortalidade era um gás? […] A materialidade das coisas está na cara; não se requer nenhuma ciência para encontrá-la.”

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