IRA

Ledo engano achar que a Ira é, nada mais, do que um sentimento profano, angustiante e pecador. Sinto, neste instante, um amor pela ira que me aflige o peito. Ira essa que fizera ecoar os malditos, benditos, pensamentos que estavam trancafiados há tempos nas masmorras da emoção.

Pensamentos que me torturavam com o tempo que se passava, falsidade que com o tempo se alastrava.

A ira também me fizera perceber o quão tolo fui eu de ter que esperá-la surgir para ser quem sempre costumo ser e nunca ter sido por medo de magoar com a sinceridade. Ora, se a ira me faz ser sincero, me salva do sufocamento das palavras censuradas, por que eu ei de acha-la ruim?! Eu a amo. Ahhh… Já o amor, às vezes, faz o avesso; me faz mentir, me faz guardar amarguras, me faz ter que perdoar mesmo quando eu não devo — eu não me considero ter que ser obrigado a perdoar, tampouco acho que me devem perdoar por amar demais ou odiar demais.

Amor e ódio são armas e defesas, que quando sentidas de forma demasiadas estarão em uma perfeita simetria, deixarão de serem ambíguas e se tornarão um só: Se amo demais, mataria ou morreria por amor, seria eu mais um ser sedento de ira a fim de encorajar-me, pulsar-me e me fazer esquecer as dores por amar demais ou me fazer amar demais por sentir as dores — a auto flagelação é uma ira consigo; quando sentir-se irado demasiadamente sentirá a indubitável necessidade de aliviar-se de tal sentimento que te consome as energias, e recorrerá, então, a um ato amoroso: Perdão ou perdoar, ou outro, talvez, que seja. Um quase paradoxo.

Cheguei a uma certeza. Devo amar minha ira e irar-me ao amar, mas na proporção certa; sem gulas.

(04/11/2015)