UM GRANDE TRUQUE PARA OBTER A CERTEZA DA CONFIANÇA (?)
Entregarei a ela duas caixinhas de presente: Uma com um “Foi bom enquanto durou. O problema não é você, sou eu” e outra com “Quer casar comigo?”, respectivamente.
Estes presentes, por ela, terão que serem postos em um lugar que nos identifique, que traga boas recordações. Ela terá de prometer jamais cogitar abrir tais caixinhas. Tentarei conformá-la dessa difícil tarefa dizendo que com o tempo a direi o que contém nas caixinhas.
Se terminarmos o namoro entrego-a a primeira caixinha e digo que devido ao término ela não merece saber o que havia na segunda, já que não seríamos mais namorados (porque não namoraria alguém em que tenha quebrado minha confiança). Caso eu perceba que eu poderia evoluir nossa relação, pra, quem sabe, um casamento ou coisa similar e este ponto for realmente firme, eu ofereço a segunda caixinha, que estará escrito “Viva comigo até os fins dos tempos?”. Tenho certeza que, na hipótese de, essa namorada chegar a tal ponto eu já terei conhecido bem a sua personalidade e, devido a isso, tenho a certeza que, ela perguntará — antes mesmo de responder a pergunta de nossas vidas, sobre o que contém na primeira caixinha. E eu, o mais solerte possível, direi que ainda não chegou o tempo dela descobrir, mas que ela pode confiar em mim pois já terei aberto uma: “Tenha mais paciência” — terei dito a ela.
Se o não dar certo nossas vidas monogâmicas juntos eu a levo até a 1ª caixinha e poderei abrir, repetindo a mesma fala, da mesma forma, que em um pretérito imperfeito e inexistente não precisei dizer, já que havia superado com o, até então, perfeito relacionamento: - “Foi bom enquanto durou. O problema não é você, sou eu” — Direi, ao mesmo tempo que ela terá lido.
Mas se por acaso a relação perpetuar, possivelmente, ela esquecerá daquele antigo presente contingencial; seja por amnésia ou tempo ou a morte e, assim sendo, ela não precisará saber o que havia consigo na caixinha 1.
Teremos perecido sem que ela soubesse que eu não confiava no nosso amor .
Chegar a tal conclusão só seria possível partindo do pressuposto de que eu tivesse a certeza de que a encarregada pelo peso da curiosidade não acometesse o pecado de abrir a caixa de pandora. Mas como eu, ser não onisciente, poderia elaborar uma estratégia que atingisse este pressuposto? Na melhor das hipóteses seria testá-la, afinal, Heráclito já dizia que não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, ou seja, uma vez testada pensaria duas vezes antes de ler as escrituras que, de tão sagradas, seriam momentaneamente proibidas.
Ainda assim, ela tendo sofrido alguma consequência de um hipotético teste ao qual não poderia ter lido uma suposta carta, que não necessariamente precisaria ter algo escrito ou poderia haver uma frase de efeito escrita tal como “perdi a confiança”, não poderia eu, ainda assim, ter a indubitável certeza de que ela não leria minhas duas caixinhas.
Então não vejo, não encontro, sou incapaz, neste instante, de descobrir ou inventar um argumento que prove o Grande Truque e por isso indago-me: “diante da hipotética situação dela estar com as caixinhas, como tenho certeza que ela não abrirá?”; “tem como saber?”
Conforto-me o pensamento ao crer que ela não quebrará a promessa, que forcei a fazer, apenas pela observação empírica que possuo da personalidade que a possui. Só que não é o suficiente, quero que o Grande Truque Para Obter A Certeza Da Confiança seja uma lei, seja algo aplicável a toda e qualquer pessoa e, por isso, descarto as ideias de:
1- Recompensa
Porque eu preciso ter certeza de sua confiança.
Suponhamos que o pai ofereça uma tubaína a seu filho, uma criança, que está recusando a fazer-lhe um favor para só assim convencê-la realizar tal favor. Não necessariamente, após a oferta, esta criança realizará o desejo de seu pai. Poderá a criança recusar porque sua preguiça ou má vontade ou algum outro fator seja maior que a sede pela Tubaína. Ou pior, poderá a criança obedecê-lo, ter o ar da graça de fazer o favor, mas o pai não obterá a boa vontade — ou obediência — da criança, visto que ela teria recusado ir antes de ter-lhe proposto a tubaína em caso do pedido concretizado.
Com esse pensamento, acredito que uma recompensa para ela não abrir as caixinhas poderia até fazê-la não abrir as caixinhas, mas eu voltaria à estaca zero, que é a busca da certeza de que nela posso confiar.
2- Repressão (supracitada um pouco acima, no momento em que a testaria)
Da mesma forma que não posso conquistar a certeza da confiança a partir da recompensa, tampouco posso obtê-la a partir da repressão.
O pai, dessa mesma criança que demonstrou não ser generosa por recusar fazer o favor e recusá-lo fazê-lo mesmo quando lhe oferecido a tubaína, poderia partir para o método repressivo: uma punição caso seu filho não lhe obedeça. Então caso essa criança não cumpra a, então, imposição — porque a partir do momento de que quando algo não for cumprido você receber uma penalidade, é porque este algo já passou do estágio de “solicitação” para “imposição” — do seu pai, levará uma surra; e suponhamos que ele cumpriu. Qual a relevância? Terá valido a pena ter agido como um ditador para obter o que deseja? Será que com o tempo o pai não se arrependerá de ter incitado seu filho a obedecer por medo e não por generosidade? Será que o filho uma hora não poderá parar de ter medo dos amedrontamentos de seu pai e rebelar-se, deixando assim de realizar suas vontades? Mas caso o filho não realize e o pai tenha que lhe dar uma pêa, como se sentirá esse ser humano que batera em uma criança que apenas seguiu seus instintos, suas vontades e desejos?
Acredito que se usasse o método repressivo para que ela não abrisse as caixinhas (partindo da hipótese de que ela não abrisse, visto que há a possibilidade dela abrir mesmo tendo que entrar em conflito com minha intimidação e seu instinto humano de curiosidade), com o tempo, uma hora ou outra, ao já estar acostumado de conquistar o que quero com ela usando apenas ameaças, quando me fosse esgotado as ameaças para evitá-la de realizar algo que eu não fosse de acordo — ou que ela realizasse algo que eu quisesse (observe que poderia, eu, tê-la como escrava) — ela poderia cansar de minhas ameaças, parar de temer minhas intimidações e, já, antes disso ou com isso, eu não teria mais a confiança e tampouco teríamos o livre arbítrio no relacionamento.
[Continua]
(19/08/2015)