[Um conto sobre o amor (im)posível]

Tanto correu para fugir do amor, que o encontrou no corredor. Através de olhares que a faziam flutuar na infinidade de mistérios escondidos por trás das cinco cores diferentes de gravata que ele usava naqueles cinco dias (in)úteis da semana.

As trocas de sorrisos por entre as paredes de vidro que lhe faziam pulsar o peito foram se tornando insuficientes diante do desejo de tê-lo por completo naquele cotidiano que por tempos vinha sendo tão maçante. O alinhamento daqueles ternos passa a desalinha-la. E, ao perder a linha, ela passa a desejar vê-lo vestindo calça jeans e moletom. Não quer mais vê-lo carregando aquela pilha e processos burocráticos, mas sim a sacola do supermercado com a cerveja preferida que vai refrescá-los nos finais das longas tardes de verão. Mas, como uma estação apenas não basta, ela quer ainda compartilhar do mesmo cálice com o vinho que vai potencializar o calor dos dois corpos em uma noite gélida.
Quer vê-lo nas entrelinhas das sutilezas cotidianas preparando um sanduíche ou escolhendo um filme no fim de semana chuvoso. Quer vê-lo cochilar em um sofá ao para poder admirar aquele fio de saliva que insiste escorrer por entre os lábios de quem está a vontade dentro de si mesmo. Quer mergulhar naqueles braços depois de um dia daqueles. Quer ser o refúgio dele quando tudo parecer perdido. Quer saber se ele fala dormindo, se prefere dormir de bruços ou de lado, quer saber se ele dorme com os pés cobertos, se deixa a toalha em cima da cama e se fecha a tampa do creme dental para então se certificar de que as obsessões dele complementam as suas. Quer saber quantas pintinhas ele tem nas costas, se ele se arrepia com beijos na orelha, se pega no sono com um cafuné para a partir desses sinais acreditar que é capaz de decifrá-lo.

Passado algum tempo, na direção do movimento dos desejos deu-se o encontro, hoje ela já sabe mais sobre ele, e ele sobre ela. Sabem-se unidos por uma fina sintonia inexplicável que vai desde músicas a troca de olhares que se intensifica a cada encontro da química perfeita existente entre ambos.
Ele a faz sentir o transbordamento do próprio coração para fora do peito, algo que há muito tempo ela não sentia e sequer recordava como era. Ele a faz sentir-se única e entrelaçados por entre braços e pernas eles tornam-se únicos no mundo. A paz de espírito e a tranquilidade que esse encontro transmite faz com que os pensamentos divaguem pelo espaço e a sensação que se tem é de que nada mais existe além deles.

É como se o relógio corresse, mas o tempo parasse em um abraço seguido de um entrelaçar de pernas de dois corpos calorosamente úmidos sedentos por estarem juntos. Hoje ela já sabe como ele fica dentro do despojo de uma calça jeans e um moletom, sabe que os beijos na orelha o arrepiam, sabe que aquele cabelo destaca as pontas dos dedos com unhas coloridas que ela desliza por entre os fios macios com o cafuné que sim, o faz dormir. Hoje ela sabe que ele não necessariamente tem uma cerveja preferida para carregar na sacola do supermercado, mas que mesmo assim, carrega as cervejas preferidas dela só para vê-la sorrir. Além das tantas infinitas coisas que ele faz para vê-la sorrir ainda que ele saiba que o fato de estarem juntos já é suficiente para que nela transborde o riso e acelere o peito.

Hoje ela já sabe que existe uma infinidade de pintinhas naquelas costas, as quais ela se dispõe a contar, uma a uma só para poder dizer que conhece cada pintura abstrata do corpo dele. Já faz algum tempo que ela (re) conhece a sensação de olhar nos olhos dele e conseguir dizer que está feliz, tendo a certeza de que ele sente o mesmo embora não verbalize tanto quanto ela, mas porque transmite quando lhe fita os olhos com aquele olhar que ficou guardado por muito tempo depois de encontrar tantas pessoas nas quais só se perdeu.

E então vivem a sensação de que em tantos desencontros eles se encontraram para não mais perderem-se um do outro.

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