O Diabo

Filme maldito do diretor polonês Andrzej Zulawski (como quase tudo que ele lançou, já que conviveu com o regime comunista do país, que olha, não era lá tão ruim em questões culturais quanto o da Romênia, por exemplo) sobre uma história invasão da Prússia, que foi banido pelos governantes do país quando foi lançado (1972).

A história é simples, mas isso não importa: um sujeito acusado de conspiração (Jakub) é liberto da prisão/manicômio de um convento polonês e por consequência é salvo de um massacre do exército prussiano que ocorreu logo depois. A estranha figura salvadora só exige duas coisas: que ele entregue os nomes de seus colegas de conspiração e que ele volte para casa.

O que temos a seguir não é um filme de guerra, mas um longa sobre como lidamos com a memória, e a loucura que está ao nosso redor, nas sombras, mas aqui exacerbado pela guerra. Mas não qualquer loucura, mas aquela que surge como refúgio final, onde apenas ser louco é um processo de salvação e todo o resto é um chamado a auto-destruição.

Isso está no filme na figura do salvador, que pode ser um demônio (embora seja um tanto inocente). Mesmo com uma personalidade abertamente degradada, ele é a única fonte de salvação de Jakub em sua jornada de descoberta acerca de sua família — pai morto, mãe prostituta e irmã casando com um meio-irmão, a ex-noiva com outro amigo.

As coisas simplesmente não fazem sentido aqui (e digo num sentido ficcional, por obra da qualidade narrativa de Zulawski). Apesar da ideia ser exatamente demonstrar a insanidade que serve como base ao nosso constructo social, o filme sofre um pouco em diversos momentos, com situações repetidas e atuações nem sempre de primeira.

Mas Zulawski está lá para minimizar essas questões. Sua câmera tem foco no indivíduo, e mesmo que alguns reclamem dos montes de planos fechados, a ideia parece demonstrar que a fonte de toda essa loucura é individual, logo depois migrando para o campo social.

Há também uma certa crítica ao conceito de livre arbítrio, na figura do tal demônio misterioso, que conduz da passo de Jakub, que começa a entender que a liberdade é acompanhada da própria desgraçada que é a guerra.

É um filme um tanto complicado pela narrativa não ser exatamente um primor, mas Zulawski compensa isso com símbolos e situações cada vez mais degeneradas. Não chega perto da obra-prima A Terça Parte da Noite, mas é um belo filme sobre um tema clássico do cinema: a loucura presente abaixo da superfície.

Diabel (1972)

Direção: Andrzej Zulawski

Duração: 119 min

Nota: 7,5