Apresentação

Quando produzo escrita literária, acontece duas coisas: ou eu produzo um texto com alguma facilidade, o que me satisfaz bastante pelo fato ser disso um indicativo de sinceridade e franqueza, mas que no entanto são textos pouco interessantes de serem lidos por serem bastante pessoais, somados a minha própria vontade de não querer me expor e ainda me recusar a revisá-los no intuito de maquiar a exposição; ou então são textos que nascem de uma premissa pré-concebida antes do sentimento e que, embora sejam bastante pessoais e, apesar de pessoais, estejam muito bem maquiadas, têm um processo de maturação do sentimento a ser transposto que dura semanas e que necessita de refino, em um truncado processo de criação que me insatisfaz grandemente.

Esse trecho acima foi um caso dúbio em que me dei ao trabalho de refinar uma escrita que me veio subitamente e sem esforço, eis que é justamente esse meu principal objetivo no Medium, o de exercitar o ofício de escritor. Isto inclui uma preocupação existente porém mínima com o nível de agrado do meus textos diante dos potenciais leitores, que estejam avisados que notadamente produzirei coisas com tons de tons azuis e depressivos, ou outras de tons tão insosso e dotadas de racionalidade tamanha que ao leitor mais atento vá fazer cair na primeira categoria. Há quem escreva para impressionar, demonstrando tato literário ou sensibilidade inigualável e verdadeiramente excitantes, isto segundo a própria análise deles, mas aos mesmos ambiciosos questiono, e com vivência de quem já incorreu nisso, de que importa conhecer literatura, ser erudito se por exemplo isto não coloca comida na sua mesa, nem te oferece a mesma habilidade para lidar com gente, tendo em vista que enxergas a erudição como um meio vaidoso e não de descobertas de ti e do outro, ou mesmo que não adianta citar o artista desconhecido que tu curte em meio a um caldeirão de universitários sedento com o tipo de sede que a água não mata. Digo um tom de voz maroto, um sorriso sincero, habilidades de dança, ou simplesmente a falta de vergonha já bastam, e provavelmente o que escreve aqui sairá pelo ouvido de um e sairá pelo que compõe a simetria facial que prezamos, se os poetas célebres pelos seus textos viscerais e chocantes tivessem alguém pra se compadecer deles, não seriam o que foram. Pode ser que escrita seja sessão terapêutica, mas o terapeuta é o lápis, embora eu use caneta, ou no presente casos os meus dedos, mas te ilude se pensa como se palavras fossem suficientes para se expressar, ainda que elas não sejam exatamente ditas, sim escritas, o que dá no mesmo, se não pior por razões de semântica e sintaxe. Também cumprimento o ousado pretende ler textos de um blog pessoal ou de redes sociais quaisquer e que conclui precipitadamente padrões de comportamento que meses de terapia apenas conjecturam, em um exemplo ímpar de como nada disso deveria importar, e de como dialogar sozinho é satisfatório e edificante, embora quimérico, pois a descoberta se dá com o outro na capacidade de olhar pra ti mesmo enquanto olhas os outros.

Ao final, embora em segunda pessoa, converso comigo mesmo, o outro sou eu mesmo, como em um descolamento, e me redescubro e me contradizo vez ou outra a cada três linhas.