Efeito borboleta

Dubladora, no canto direito, transpõe para libras o debate (Foto: Wagner Wakka)

Dentre todas as pessoas no teatro pouco iluminado, era ela quem se mexia muito mais que todos. Mais até do que se era permitido aos que não detinham a palavra. Sentada, mexia os braços sem parar: subindo, descendo; por vezes próximos; outras, distantes. Estava também no palco, embora muda.

Era dubladora que, sem usar as cordas vocais, transpunha o debate em tempo real para Libras — a Linguagem Brasileira de Sinais.

Confesso que me perdi naqueles movimentos, viajando em tentar entender (em vão) cada palavra transposta. Era um bater de asas de borboleta: silencioso, mas latente — essencialmente modificador.

Os movimentos não eram o mais importante, mas a emoção precisa com que a dubladora os carrega. Era preciso certa interpretação, já que, na lateral do palco onde dublava, era quase impossível (imagino) para que alguém a visse e percebesse o semblante de quem falava.

Resultado: em uma história bonita, o sorriso carregava o tom para quem não não pudesse escutar. No momento triste, um ar pesado típico de máscaras saídas de um teatro grego tomava conta. Era um balé estático, semi-representado, apenas com as mãos.

Fiz daquilo espelho e refleti: “quanto das minhas palavras carregam as emoção que sinto?”. Com fala, gestos, movimentos faciais, munido de 100% da capacidade expressiva de um ser humano, conclui que não passo de um amador perto da leveza dos braços mudos daquela dubladora.

Senti, naquele momento, uma vontade pulsante de saber libras. De entender como aquela mulher transpunha aos gestos nomes próprios, por exemplo — como o da banda citada por um dos convidados.

Fiquei na vontade, voltei a abrir os ouvidos para o que era dito. A inveja que senti daquela mágica artesanal culminou em admiração. Quando o ser humano quer, faz silenciosa poesia com as mãos. Aliás, poesia era o tema da noite.

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