Está na hora de deixar de comparar a seleção feminina com a masculina

Saí da universidade dando pouca importância para Semiótica, mas essa charge me fez voltar a Pierce. A comparação da imagem é clara a um primeiro momento: time feminino de chuteiras; o masculino, de salto alto. Para se ter uma segunda interpretação disso, o leitor precisa ter conhecimento prévio do que é a expressão, típica do léxico futebolístico, “entrar de salto alto”. Diz-se isto daquele jogador que se acha superior antes de entrar em campo, o que resulta, via de regra, em derrota.
Visto por este prisma, a charge soa como uma crítica à falta de humildade do time masculino. Por outro lado, para quem desconhece tal expressão, pode ser vista como a atribuição pejorativa de uma característica feminina.
Entretanto, toda comunicação, tal qual uma flecha, quando lançada, não há o que se faça até chegar ao destino. É responsabilidade de quem se expressa pensar como ela será recebida. Portanto, uma criação infeliz.
Independente das duas interpretações, cabe aqui uma terceira camada. Não de hoje, grande parte (pra não dizer tudo) do que é relacionado ao universo feminino é usado de modo pejorativo. Para além do esporte, “salto alto” é uma clara crítica à mulher fútil que se acha superior.
Ouvi de um: “olha como elas não têm essas frescuras de fingir machucado”. Até no momento do “elogio” , tenta-se nega a elas a lembrança de que são mulheres. Para ser reconhecidas, é preciso não se mostrar frágil
Por outro lado, há aqui o reforço da necessidade desnecessária de comparação. Ao passo que nossa sociedade se posta em um modelo patriarcal, a referência se torna o homem. Ou seja, o sucesso masculino é a régua para os demais. “Elas jogam COMO os homens”, é outro suposto elogio.
Há quem possa argumentar que o time masculino chegou a ser uma referência independente do gênero. Contudo, o paralelo entre ambas as seleções é similar a comparação entre um taco de golfe e um de beisebol só porque exercem a mesma função. É preciso compreender: são esportes diferentes, com incentivos diferentes, cada um com sua beleza.
A comparação, portanto, só fortalece a imagem de homem como ideal. Nas entrelinhas dessa charge, ela não exalta o feito feminino, mas critica o demérito masculino. Eleva a um patamar de verdade o pensamento de que, não importando o quanto sejam boas, só serão de fato, reconhecidas caso “superem” no imaginário coletivo o correspondente masculino.
Importante reiterar, embora não tenha essa sido a intenção do chargista, faz parte do trabalho de qualquer artista ou comunicador pensar em como a menagem é recebida. Se é possível colocar em gradação, pior do que o machismo escrachado é aquele oculto em nossa cultura. Aquele é visível, criminalizável, por vezes, condenável. Este ainda passa invisível diante de uma charge “inocente”.