“Eu faço pograma”: o papo de 1 hora com uma prostituta

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“Dez para as nove”, respondeu o frentista de um posto beira de estrada, na saída de Bauru, quando Camila* perguntou as horas. Quem ela esperava, atrasara-se pelo menos vinte minutos. Como quem não tem futuro valoriza o presente, Camila pôs-se a aceitar a carona de que quem oferecesse. Ou melhor, nem carecia de oferta. Com o orgulho guardado no bolso vazio de moedas, perguntou ao primeiro que parou: “Vai pra onde?”.

O motorista do carro, quem até então havia parado ali apenas com a intenção de abastecer o veículo, escaneou Camila dos pés à cabeça, não como se fosse pessoa, mas objeto. Ela trazia um florido vestido, sandália e bolsa apenas. Cabelos bem penteados, lábios e unhas pintados. Tudo em proporções discretas demais para o decoro que pede sua profissão. Discrição essa que lhe rendeu a carona.

Uma vida inteira se passou na distância de uma hora em que o destino desse repórter e daquela dona misteriosa se cruzaram. Tempo suficiente para perceber que o acontece no caminho entre Bauru e Jaú transpõe a distância entre as duas cidades.

Como a profissão ensinou, Camila é direta. Ao ser perguntada sobre sua profissão, ela dispara:

“Eu faço pograma”.

Foi logo a primeira fala, com uma naturalidade e sinceridade de quem acha tudo prosaico. Efeito colateral de uma vida de infelizes surpresas.

Mais direta ainda, ela emenda:

“Você quer?”.
“Não, obrigado”, devolve o repórter como quem recusa um pedaço de chocolate ou um chiclete. “Tenho namorada”, ele tenta explicar, quando vê a tristeza dela depois da recusa.

Nenhuma mulher gosta de ser rejeitada, nem mesmo quem faz “pograma”. Para ela é pior, além da dimensão emocional, a rejeição representa uns trocados a menos, ou uma miséria a mais.

Cada “pograma” custa ao cliente entre 350 a 400 reais a hora. Montante alto para quem procura 60 minutos de prazer, mas baixo para valer a dignidade do corpo e a segurança do trabalho. Como na vida fora da “noite”, há impostos para quem vende o próprio corpo. É preciso pagar pelo ponto, pela proteção do cafetão, pela segurança do quarto de motel. Na ponta do lápis, o preço do corpo é quase nada. Na economia da noite, as inflações não respeitam normas de mercado. É a mão invisível quem dá as cartas na noite e ela não economiza na pancada.

Quando Camila vê que perdeu um cliente, ele percebe que encontrou uma personagem. Era uma mulher de 36 anos, que carregava alguns fardos além do de ser mulher: era mãe e avó. Sua filha tinha 21; a neta, apenas 6. Na conta dos anos, uma nova geração a cada puberdade.

Soma-se ao peso de ser avó aos 30, o de ser ainda esposa muito mais cedo.

“Ele não gosta, mas aceita”, ela diz.

Para Camila, a prostituição é mais prova de amor que traição. Há 2 anos na profissão, ela encarou a responsabilidade de fazer “pograma” depois que o marido fora preso.

“Ele roubou um mercado uma vez, era coisa miúda. Já tinha se endireitado, tava até indo na igreja comigo. Foi preso seis meses depois”, lamenta.

Depois disso, Camila quem prefere os riscos da pista à solidão, nem mesmo pensou muito. Vendeu seu carrinho de cachorro-quente e foi aos poucos vendendo o corpo; mas nunca o coração.

“Com o carrinho, eu não podia ir ver ele, porque era de quinta à noite, o melhor dia pra vender. Daí, na pista, agora posso fazer visita íntima”, explica.

A venda de cachorros-quentes também não lhe renderia os cerca de três mil reais líquidos em um mês com movimento normal. Preço bem abaixo do que os impostos da pista, nem sempre entregues em dinheiro.

Certa vez, a vida veio lhe cobrar. Estava na boleia de um caminhoneiro acordado às custas de rebite — anfetamina em comprimido bastante utilizado por motoristas para diminuir o sono. Como efeito colateral, causa impotência e o caminhoneiro não reconheceu isso. Diante da sua falta de “masculinidade”, culpou a “feminilidade” de Camila. Ele arrancou uma faca e a atacou, atingindo, por sorte dela, apenas o colchão. Camila conseguiu fugir em direção ao posto e aos frentistas, com quem troca proteção por favores sexuais. Aliás, muitas vezes seu corpo é sua única moeda de troca.

Outra vez, soube de uma colega que foi estuprada por quatro rapazes. Ela recomendara que a amiga não pegasse o programa, por isso acha que a culpa do crime foi da vítima.

“Tem que ter malícia. Ela sabia o que tava rolando. Mas Deus dá o fardo que a gente aguenta”, conforta-se.

É preciso fé e, com isso, Camila pensa que o futuro vai ser melhor. Na sua igreja, uma espécie de oráculo avisara essa pobre moça da vida que alguém importante iria voltar para ela. Nessa conversa com Deus, ela se enche de esperança pela liberdade do marido.

“O advogado tá pra dizer se ele vai poder responder em liberdade. Só pode ser isso. Vai sair’, anima-se Camila.

Já perto de Jaú, ela conta porque viaja diariamente atrás de programa.

“As puta da Nações [principal avenida de Bauru] bate na gente. Não têm nada a perder”.

Camila sabe que tem: o amor pela mãe, a filha, a neta e a esperança de poder ter visita íntima com o marido sempre que possível.

Jaú se aproxima e, antes de descer, Camila ainda tenta lavar a honra. “Como eu te pago essa carona?”. Ela não estava acostumada com favores. Depois da recusa do motorista, dispara aquele olhar típico de uma criança que acabou de conhecer algo novo e desce do carro.

Pasmada com o acontecimento, ela observa o carro se distanciando, sem entender porque o rapaz lhe havia dado carona. Nem mesmo reparara no “muito obrigado pela conversa” que ganhara de brinde. Pela primeira vez, alguém se dispôs a ouvir a sua história e não pediu nada em troca. Acostumada a ser tratada como objeto, Camila esqueceu como era ser humana.

*Embora a personagem não tenha pedido, o nome foi trocado para preservar sua imagem.

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