Sobre testes de layout e itens cotidianos
OU: De como estou tentando deixar isso mais bonito pra vocês
Se me apontassem uma arma neste momento e me mandassem escolher uma palavra do idioma português, essa fina flor do Lácio, que me causa um misto de amor e ódio, a palavra seria, sem dúvida, fronha.
“Fronha?”, indaga o intrigado leitor, que certamente terá problemas de falta de ar se tentar ler tudo que eu escrevo consigo mesmo em voz alta, como é o caso desta sentença de muitas palavras e poucas vírgulas, perfeita para ser corrigida por um sempre zeloso corretor do Word, o clipe Clippy desenhado no canto da tela a me levantar a sobrancelha com ar de descrença — “Tudo isso? 52 palavras?”
Mas sim, fronha, aquela do travesseiro, aquela na qual a gente esfrega a cara no primeiro dia de férias como se fosse a barriga de um cão particularmente peludo. Aquela que a gente amaldiçoa no verão por ser quente demais e no inverno por ser fria demais, ela mesma. O motivo de eu amar essa palavra é óbvio e imediato: pare tudo que você está fazendo, levante o olhar, relaxe os ombros e diga em voz alta. Fronha. F-R-O-N-H-A. Olha a sonoridade deliciosamente fanha que está saindo da sua garganta. Sinta o ar massageando seu palato. Frooonha. É relaxante, um mantra a ser entoado em momentos de dificuldade. Fronha está pra nós como Bubbles está para os chegados de Shakespeare. É uma palavra que não só nos remete a coisas boas (cama, descanso, dormir — pra quem curte — etc) como também tem essa sonoridade que é, na falta de termo melhor, um guilty pleasure.
“Mas Leandro”, você interrompe, obviamente desocupado o bastante pra não só ler esse desabafo como também travar um diálogo, “se você ama tanto assim essa palavra, como é possível que você encontre algo nela que você não goste?”. Na verdade é bem simples. Eu sou um homem muito chegado em ciências e em explicações racionais. Extremamente chegado. Então qual não foi minha surpresa quando, ao abrir o dicionário para saber tudo que há para se saber sobre a bendita, me deparo com a seguinte informação:

Com o perdão do palavreado, “QUE PORRA É ESSA?!?!”. De onde veio essa palavra?! Qual a raiz dela? O que significa? É um grunhido que deu certo? Uma onomatopéia metida a besta? Fronha, você não é gótica trevosa pra ser obscura. Fronha, O QUÊ VOCÊ SIGNIFICA, PELO AMOR DE DEUS?! POR QUÊ VOCÊ É ASSIM?! Tem palavras que fazem sentido, são lindas. “Filosofia” (ou φιλοσοφία, pros íntimos e pros que colam da Wikipedia) é Philo+Sophia, Amor ao Saber. Baita origem. “Jurisprudência”, idem. É o uso comedido e ponderado de jus, a lei.
Fronha, meus amigos, é aquilo que um francês bêbado exclama ao dar uma topada bem de dedo no pé da cama de madeira, numa noite fria de Novembro (lembre-se: o inverno deles é pra lá). Fronha rima com bizonha. Com maconha, que é o que quem bolou essa palavra estava usando. Com sem-vergonha, de dar as caras assim tão aleatória. Ela não faz sentido. E dia sim dia não eu penso sobre isso antes de dormir. Quando deito a cabeça. Na minha fronha.