Amanhã
Projeta-se à minha frente outra clara noite
De ligeiros pensamentos castigando em açoite
Tudo aquilo que levo nesta cova do peito
De forma qualquer, o sentimento me é funesto
Pouco importa tudo o que amo ou que detesto
Verdade é que concebo-a tão logo me deito
Inevitável planejar seus vinte e poucos anos
Inevitável conjecturar se estou em seus planos
Ou se sou-lhe apenas uma fração de instante
Pouco me importa o desenvolver deste enredo
Pois a inocente voz do amor silencia o medo
De tornar-me apenas outro livro em sua estante
Imagino que amanhã acordarei só outra vez
Sem seus membros acalentando minha algidez
Sem sua alma tépida para tomar num enlace
Se talvez a possuísse em meus braços agora
Pouco importaria a ruína do mundo lá fora
Conquanto a tepidez de sua alma me abraçasse
Também pouco importa esta noite a que projeto
Sei que ao deitar-me olharei além do teto
Ao infinito, indagando se é isto que procuro
Por agora, deixo-me entregue ao azorrague
Talvez pela manhã, toda memória se apague
Talvez depois de amanhã, repense meu futuro
Desisto, mulher. Tu és um incessante epicentro
Do terremoto de um corpo que grita por dentro
Embora ao teu solo tal tremor esteja restrito
Estar a teu lado tal qual estranho configura
O mais temerário dos estados da tortura
Me beija! Me mata! Mas cala este soturno grito!
Embora tu estejas no outro lado da tormenta
Nestas noites frias, tua memória me sustenta
E conforta ternamente minha aflição à tua espera
Se chaga qualquer fez teu sentir melindrado
Vem pousar teu corpo quente ao meu lado
E lembra que o inverno é seguido da primavera