Prometeu


O descambar do sol pareceu um momento para sempre, e sobre a solene parede de rochas do penhasco, projetava-se o lilás alaranjado do ocaso de afélio. O choque das ondas contra as pedras e o vento fresco e úmido lembravam-lhe das insanas epifanias de sua juventude:

-Que se quebre em mil pedaços esta existência de cristal! Que se estraçalhe a vida humana e seus alicerces de vicissitude!

Em uma fúria inútil, o sonhador desferiu uma série de socos ao sereno monólito onde repousava sentado. As ondas seguiram sua dança, as andorinhas continuaram a chilrear, e as rochas permaneceram inertes no mesmo exato ponto onde permaneceram por uma vasta era. Tinha agora tanta certeza de sua insignificância quanto de que as estrelas estavam no céu. Um profundo brado de angústia projetou-se ao horizonte, tão vazio e desesperançoso que já se cuidava ser eterno. Durante esta fração do tempo, o universo por completo encontrou-se suspenso no tremular da matéria provocado por sua voz — até o final do ar de seus pulmões, quando irrompeu um solitário soluço. Cessou-se o ruído no mundo; A inércia sonora perdurou até que a lágrima derramada desprendeu-se de seus cansados olhos e despencou em uma queda livre. O choque do pequeno globo cristalino de encontro às rochas retumbou no chão como o desmoronar do cosmos, e a ruína passou a assombrar os sustentáculos de sua existência. Seu lamento tornou-se intenso, e não havia distinção entre a queda de suas lágrimas e o desfazer das ondas que lançavam-se ao penhasco. Percorreu em seu corpo, tal qual corrente elétrica, uma agonia que arrastou-se de seu âmago às suas extremidades, contraindo cada fibra muscular em seu caminho.

-“Por quê?” — murmurava para si mesmo, em frequências exânimes.

Entre a dor, a agonia, o desespero, surgiam, na agora vazia tumba em seu peito, lampejos do que seu passado uma vez fora. Não parecia haver outra explicação, senão a de que o universo tem uma maneira de puní-lo pelos seus erros, e a cada memória de um fracasso, apresentada em vívidas cores, o arrependimento é implantado alma adentro pelo estalar de algum chicote justiceiro a que chamam vergonha.

Este homem outrora fora um sábio entre os homens, por encontrar na razão a explicação de tudo aquilo que lhe afligia, todas as emoções que ninguém conseguiria explicar. Em sua ânsia por sabedoria, o entendimento dos processos humanos tornou-se claro o suficiente para que pudesse predizer o desfecho de toda possível atitude dos homens. Com o passar do tempo, tornou-se o conselheiro a que todos procurariam. Filósofos, artistas, exploradores, donas de casa, cientistas, políticos, jovens apaixonados, ricos e miseráveis. Embora jamais tratasse de futuro, sempre soube aplacar a aflição com as palavras de conforto de sua sabedoria.

Sua vida era harmônica e estável como uma lagoa de água límpida, e seus dias se passavam em paz de espírito, uma vez que todas suas angústias poderiam ser explicadas e justificadas para si mesmo. Em uma tarde morna, no período de afélio, o sol se encontrava tão mais distante do que o usual, veio a seu consultório um homem jovem, porém de semblante lívido e castigado. Seus profundos olhos negros não eram nada mais do que covas rasas. Do fundo de suas íris, projetava-se a miragem de uma chama negra definhante, indo de encontro ao seu olhar como a personificação do infortúnio.

-Queres a verdade, jovem pensador? — muito embora aparentasse idade inferior à do sábio.

-Que verdade é esta? — redarguiu.

O homem meneou a cabeça, e apenas fez menção para ser seguido. Caminharam por alguns quilômetros, sem vocalizar uma palavra sequer. No horizonte, o mar, e assim chegaram em um penhasco solitário.

-Queres a verdade, homem? Por quê? Não vês a miserável vida que tens tomado? Tua vida nada mais é do que entender o que tu sentes! Que se quebre em mil pedaços esta existência de cristal. Que se estraçalhe a vida humana e seus alicerces de vicissitude. Percorri a o chão da vida, feito de tênues vitrais, que se partem em cacos lancinantes a cada passo errado. Dei-me conta que meus passos tornaram-se descuidados sempre que ludibriado a perseguir as borboletas que chamam paixão, e os estilhaços adentravam a carne com voracidade. Dei-me conta também, que ao ignorar as borboletas, atacava-me a agonia e o desespero de saber que ao final de cada piso de cristal, as lancetas voltariam a rasgar-me os pés. Volta loucura, volta juventude, pois o desejo de ser imortal me fez querer viver, mas agora que sou, tudo o que desejo é esquecer.  

-Quem és tu?- perguntou o agora confuso sonhador.

-Fui um homem como tu, que perseguiu os ensejos da onisciência simplesmente para explicar a desgraça da vida humana. Cuidei ser outra coisa qualquer além de um animal, pensei que o fogo da sabedoria tornaria minha existência meramente mais importante nesta natureza. Fui castigado pela minha insolência, e minha consciência tratou de açoitar-me durante um período de tempo fora de tua compreensão. Homem desgraçado, sou o que tu chamas de Deus! Acostuma-te à desventura que te espera, pois este agora é tu!

Ao abrir e fechar de olhos em que a informação estava a ser absorvida pela consciência, o homem já se encontrava a alçar um vôo de pleno contentamento ao infinito, e a gravidade tratou de chocá-lo de encontro às sempre passivas rochas.

O homem em choque acabara de ser espectador do suicídio de Deus.

Prometeu roubou o fogo dos deuses para dar aos humanos, e a sabedoria tornou-o o ser mais próximo da divindade. Embora a chama da consciência siga a cintilar com fulgor, esta é apenas a luminária da vida humana, que somente torna-se completa com as trevas. O inexplorado dá asas aos homens, o desconhecido forma o dia de amanhã, os anseios fazem o tempo, e o pior castigo feito a um homem é privar-lhe do medo.