A Força de uma Religião Difícil

Siddha Shila, por © Anish Shah: the abode of liberated beings at the apex of universe as per the Jain cosmology

O que é uma religião difícil? O que é difícil para mim pode ser fácil para você e vice-versa. E quando gostamos muito de algo, isso também pode fazer com que as partes árduas se tornem mais leves.

Quando eu era adolescente, eu tinha uma paixão pelo que eu considerava “religiões difíceis”. Por isso, foi natural que eu buscasse as religiões indianas.

Não porque eu achasse que religiões difíceis de seguir fossem melhores. Era simplesmente aquela sede pelo desafio, para testar os meus limites. Eu estava curiosa para saber até onde eu poderia chegar.

Quando eu comecei a meditar, pensei: “Ei, isso é difícil”. Não é nem um pouco divertido ficar imóvel por muito tempo na mesma posição, sem fazer nada, apenas sentindo dores, com a mente voando por mil pensamentos.

Quando eu soube que o Buda não era um grande defensor de asceses, pensei: “O que é isso, budismo? Não me desaponte. Será que vou ter que ir atrás do hinduísmo para ter permissão de fazer penitências?”

Acabei largando temporariamente o budismo e me envolvendo no jainismo quando eu tinha uns 18 anos, simplesmente porque aquela religião parecia, talvez, a mais difícil de seguir que eu conhecia (isso porque as Cruzadas exterminaram os cátaros, ou poderiam ser eles).

Era como se eu estivesse jogando um jogo de videogame, achasse muito fácil e quisesse trocar para outro mais difícil e desafiador.

Eu não vou fingir que minha busca por religiões sempre envolveu motivos nobres. Muitas vezes era a curiosidade, a vontade de me divertir e buscar novos desafios que me movia. Também, é claro, misturado com isso estava a busca pela verdade e por aprimoramento espiritual e moral.

Antigamente eu tinha a impressão de que o cristianismo era muito fácil de seguir e por isso perdi o interesse nele rapidamente. Só depois eu descobriria que não é bem assim.

As religiões ocidentais também possuem seus “requintes de crueldade”. Ser judeu não é fácil, com tantas restrições alimentares e rituais complicados que devem ser seguidos ao pé da letra.

Ser muçulmano é de uma dificuldade extrema, com suas cinco rezas diárias (é preciso lavar até os pés antes de fazê-las) e seu jejum anual do Ramadã.

Até o catolicismo, se olhado de perto, não é tão fácil quanto parece. Até fazer o mínimo exigido, como ir para a missa todos os domingos, exige alguma dose de disposição e comprometimento.

E por que raios alguém escolheria, por livre vontade, se prender a todos esses mandamentos e dogmas aparentemente sem sentido? Não é muito mais fácil não seguir nenhuma regra e fazer o que quisermos?

Se não seguirmos nenhuma religião, podemos cultivar nossa espiritualidade de uma forma mais divertida, interessante, saudável e cômoda.

É verdade que podemos aprender tanto através da alegria quanto da dor, tanto por métodos divertidos quanto por métodos árduos e chatos. Então por que escolher logo o caminho mais difícil e monótono?

Porque nós não podemos reduzir o ser humano. Nós não somos somente máquinas ou animais que buscam apenas prazer, dinheiro e conforto. A verdade é que todos nós possuímos desejos muito mais complexos que isso.

Meu ponto aqui não é dizer que seja ruim buscar prazer, dinheiro e conforto e sim que essas não são as coisas que dominam nossas vidas. Você pode até argumentar que, sim, para você essas coisas são fundamentais, mas eu retruco: “Pode até ser, mas somente num nível superficial”.

Se analisarmos a nós mesmos em profundidade, há outras coisas por trás desses desejos. Se você obtiver todo o dinheiro, diversão e poder que deseja, perceberá que não está necessariamente satisfeito.

Muitas vezes o que realmente buscamos é amar e ser amado. É fazer parte de um grupo só nosso, a que C.S. Lewis chamou de “fenômeno do círculo íntimo”. Pode ser uma família, um grupo de amigos ou simplesmente ter sua “turma” com interesses semelhantes.

No começo o que eu buscava com religiões era poder. Era atingir o status (mesmo que dentro de minha própria mente) de realizar algo extremamente difícil dentro de uma religião, por nenhum outro motivo além de ser difícil. Era superar meus limites.

Mas se ficasse só nisso seria algo sem significado. Se o que eu buscasse fosse somente o êxtase dos altos estados de meditação, não seria muito diferente meditar ou jogar videogame.

Até falando do próprio videogame, as pessoas não jogam só para se divertir. Elas também buscam amizades ou uma transcendência do próprio corpo, ao experimentar outro mundo ou realidade.

Às vezes um jogo de videogame fácil pode provocar certa alegria, podemos nos distrair e nos sentirmos mais leves. Isso é bom. Esse tipo de jogo é importante e fundamental, pois não estamos sempre no clima para jogar algo sério ou estressante.

Porém, nem sempre o jogo fácil funciona para nos levar a uma sensação de transcendência. Não digo que é impossível, pois pode ser que o jogo tenha certa leveza, gráficos nostálgicos que nos relembre a infância e nos faça viajar de imediato a esse outro mundo sem precisar de muitos estímulos.

Da mesma forma, uma religião mais fácil de seguir, que não proponha muitas regras e desafios, também pode cumprir seu papel de forma boa para nós. De fato, somos todos diferentes.

Tanto que o próprio cristianismo nos ensina que há vias fáceis e difíceis de chegar a Deus. Há caminhos leves, curtos e simples, enquanto outros são pesados, longos e complexos. Se nos sentimos chamados ao caminho leve (como a devoção a Maria e rezar o rosário), iremos para o mesmo céu para o qual vai outra pessoa que escolheu uma via sofrida (penitências, martírio, etc).

Mas nós realmente escolhemos essa via sozinhos? Nós podemos simplesmente nos sentir chamados para ela. Talvez porque sentimos uma necessidade de purificação. Ou porque ela inexplicavelmente nos atrai, possui um doce fascínio.

Às vezes uma pessoa opta por jogar um jogo de videogame extremamente difícil e demorado. Ele está furioso, não está se divertindo ao jogar e o jogo se resume a ações repetidas e monótonas. Existe muito sofrimento envolvido, muita dedicação, sangue e lágrimas.

“Por que está fazendo isso? O que vai ganhar com isso?” Não é nem ao menos divertido!

Mas lá está ele. E, lá no final, há a transcendência. Mas não somente no final, pois ele irá experimentar aquele breve momento de êxtase em vários momentos de sua jornada.

Não é exatamente a diversão que ele busca. É quase como uma missão divina que recebeu. Aquilo simplesmente deve ser feito, mesmo que não exista recompensa. Uma “questão de honra”, ou muito mais que isso.

Da mesma forma, eis o encanto das religiões difíceis.

Por que eu vou seguir um monte de mandamentos, regras e rituais que me farão perder tempo, que são monótonos e que irão arrancar muito do prazer e diversão da vida?

Porque a vida é muito mais que isso. Não se trata de masoquismo. É um tipo de libertação que só chega quando estamos com correntes. A disciplina pode levar à liberdade, mas não é apenas essa nossa meta.

Cada jogo tem suas regras e o jogo só acontece quando você se submete a elas. Tente jogar o jogo sem as regras e ele é apenas algo apagado e sem graça. Só é possível entender o sentido do jogo quando realmente aceitamos, de corpo e alma, jogá-lo da forma que ele foi designado para ser jogado.

É somente nesse ponto que as coisas parecem fazer sentido. Se buscamos uma religião somente para obter algum consolo e distração, qualquer religião serve. Mas se você busca outras coisas, como bem-aventurança, liberdade, desenvolvimento espiritual, melhorar num sentido moral, entender e sentir o amor divino, algumas religiões, de fato, podem te oferecer isso de forma mais efetiva que outras, contanto que você aceite jogar conforme as regras.

Se você seguir regras diferentes, pode até funcionar, mas resultará num jogo diferente. Para melhor, se você for um Mestre de Jogos, mas o risco de falha, se não formos cuidadosos na “tradução” e “readaptação”, é grande. Mesmo que nos achemos muito espertos. É inevitável nos apegarmos à nossa doce arrogância e declarar a nós mesmos mais sábios do que os sábios de todos os tempos. Teremos a sacada genial que ninguém jamais pensou. Quem sabe. É uma possibilidade.

Por que será que mais da metade da população mundial se declara como cristão ou muçulmano? Em parte porque nessas religiões organizadas elas podem encontrar sua “turma”, seu grupo de amigos, amizades, amor. Há mais mesquitas e igrejas dessas religiões, então basta ir até a esquina para desfrutar uma boa conexão espiritual com outras pessoas que possuem essa busca.

Mas o que faz com que essas religiões cresçam tanto? Se são religiões difíceis de seguir, o natural não seria que as pessoas se afastassem delas? Além da questão da tradição, do amor pela própria cultura, história e família, eu acredito que exista algo mais.

Peguemos o exemplo do islamismo. Se você buscasse conhecer Deus sem compromissos, só iria rezar quando sentisse vontade. Há muitas outras distrações mais divertidas do que rezar.

Porém, o islamismo obriga todos os seus fiéis a rezar cinco vezes ao dia. Isso te proporciona uma conexão imensa com Deus. Você passa a amá-lo cada vez mais.

Ou seja, religiões difíceis “funcionam” exatamente porque são rigorosas e mantém a sua disciplina nas práticas.

Muitas pessoas seguem uma religião porque buscam a verdade. Outras descobrem que essa religião é a verdade, ou contém muita verdade, porque funciona. Ela realmente te leva a Deus.

Se alguém consegue manter uma disciplina excepcional em suas práticas espirituais mesmo não seguindo uma religião específica, poderá obter grandes benefícios. No entanto, as coisas do mundo frequentemente nos distraem de nos dedicarmos tanto à espiritualidade quanto gostaríamos.

Ainda assim, pode não ser a mesma coisa. Se uma religião é antiga e já deu certo para tanta gente, você terá mais segurança, mais fé, de que aquilo realmente dará certo.

Minha intenção aqui não é reduzir uma religião a mero pragmatismo. Na verdade, o foco da minha explicação no pragmatismo é exatamente oposto: propor que o fato de algo funcionar tão bem e para tanta gente em diferentes períodos da história sugere que lá existe alguma verdade profunda.

Mas não é possível enxergar essa verdade se não experimentarmos. Apenas lendo a respeito, como ouvintes desinteressados, não compreenderemos. É preciso sentir com o corpo. Disse São Bruno:

“Que utilidade e gozo divinos trazem consigo a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama; só o sabem quem os experimentou”.

É como fazer um jejum religioso: podemos falar teoricamente sobre ele e especular que ligação tem não comer com conectar-se a Deus. Outra coisa é fazer esse jejum religioso e experimentar a dor, o desamparo e a pequenez, que jamais poderá ser preenchido com as coisas desse mundo.

Que cada religião seja celebrada. Não importa se o caminho que você segue é fácil ou difícil e sim que você se sentiu chamado a ele. Que sentiu algo de muito especial lá e por isso deve continuar caminhando.