A Lenda Dourada

A história de São Jorge e o dragão é uma das muitas histórias sobre santos preservadas na Lenda Dourada (Pintura: Gustave Moreau, 1889/90)

Estou na página 226 do livro “Legenda Áurea” de Jacoppo de Varazze. O livro tem mais de mil páginas. Isso significa que ainda terei muita diversão pela frente.

Também chamado “Lenda Dourada” e originalmente intitulado “Legenda Sanctorum”, o livro é uma coletânea de narrativas hagiográficas (biografias de vidas de santos) escrito por volta de 1260 por um bispo dominicano.

A obra foi considerada um “bestseller” na Idade Média. Mais de 800 cópias do manuscrito sobreviveram. Dentre os incunábulos (livro impresso com imprensas com tipos móveis) impressos antes de 1500, havia mais edições da Legenda Áurea do que da Bíblia.

Embora o autor tenha compilado as biografias com base em outras fontes, o livro tem um estilo próprio e totalmente original. Algumas fontes usadas pelo bispo de Gênova são escritos confiáveis que relatam tradições firmemente estabelecidas. Mas ele mistura acontecimentos reais da vida de santos com tradições orais pouco confiáveis e lendas.

Para a mente contemporânea, existe uma separação bastante definida entre o real e o imaginário, mas não para a mente medieval, em que se misturam fatos e fantasias.

É exatamente isso que torna o Legenda Áurea fantástico: a mistura pitoresca entre realidade e ficção. Quando você lê o livro, sabe que está lendo narrativas reais, que aconteceram nesse mundo, na nossa história. No entanto, é claro que quando séculos se passam e a devoção popular aos santos aumenta, certos “exageros” são acrescentados às histórias, exaltando as virtudes e feitos dos santos, exatamente porque eles são muito amados. É claro que queremos falar bem de quem amamos.

Através das páginas é fácil perceber que a maior parte dos grandes heróis das histórias (os santos) são pessoas que beiram à perfeição, enquanto seus inimigos são extremamente cruéis. Porém, isso não é toda a história.

Há histórias que ocorreram mais próximas da época do autor do livro. Muitas delas estão bem documentadas e são narradas por pessoas que conheceram os santos pessoalmente. Essas são particularmente doces, pois mostram os santos com fraquezas humanas e ao mesmo tempo com impressionantes atos de piedade que, apesar de ser simples, são extremamente preciosos.

Temos como exemplo histórias de nobres ou até mesmo membros da realeza que doaram toda a sua riqueza aos pobres e foram viver como mendigos, por amor a Cristo. Se pararmos para pensar, que algo assim aconteça em nosso mundo pode ser até mais impressionante do que a luta de São Jorge contra o dragão. Ainda assim, relatos como esses costumam ser verdadeiros, pois temos diversos exemplos como esse bem documentados ao longo de toda a história do cristianismo (assim como de muitas outras religiões).

Seria até mesmo possível traçar um paralelo entre o estilo do Legenda Áurea e da Bíblia. Como foram escritos em épocas diferentes, possuem estilos e intenções diferentes. Porém, a Bíblia também possui muitas histórias e personagens reais misturados com símbolos. Isso porque a intenção da Bíblia jamais foi ser historicamente exata, mas retratar acontecimentos reais do nosso mundo misturados com alegorias, tendo em vista instruir de forma espiritual e moral.

Burning Bush, Sebastien Bourdon, 17th century

Afirmar que todos os textos da Bíblia são historicamente verdadeiros é tão absurdo quanto afirmar que todos eles são historicamente falsos. Podemos argumentar isso fazendo uma analogia com o processo de formação do próprio Legenda Áurea.

Há capítulos do livro que têm um objetivo mais claro de ser fiel aos acontecimentos conforme eles ocorreram. Enquanto em outros capítulos as narrações ocorrem quase que completamente na forma de história de fantasia. Não se tem nem mesmo certeza se alguns santos existiram de fato. Porém, algo levou à devoção desse santo e esse mistério fascina.

Há algumas histórias da Bíblia que são obviamente símbolos e alegorias, como Jonas que passou três dias no ventre da baleia. Enquanto em relação a outras histórias, temos documentos e evidências exteriores à Bíblia. O próprio estilo sugere mais sobriedade em certas narrativas e uma tentativa de ser historicamente preciso em pontos específicos (como em trechos dos Evangelhos que narram a vida de Jesus). Os exegetas podem distinguir uma e outra, com base nesses estilos, identificando a intenção do autor.

Caso certo personagem da Bíblia ou do Legenda Áurea não tenha existido, ou os acontecimentos não tenham ocorrido exatamente da forma que foram descritos, isso não compromete a integridade moral e espiritual do texto. Afinal, Jacopo de Varazze fez questão de introduzir aspectos imaginários e fantasiosos em suas histórias simplesmente porque esse era o estilo de escrever hagiografias em sua época.

O autor inicia cada história da vida de um santo explicando a etimologia do nome do santo em questão. No entanto, ele não faz nenhuma questão de descrever a etimologia verdadeira do nome. Pode até colocá-la quando a conhece, mas logo acrescenta muitas outras, baseando-se em folclore e em sua criatividade.

Por que ele faz isso? Se estou lendo uma biografia, não quero conhecer a origem verdadeira de um nome? Não necessariamente. Nos dias de hoje, os livros possuem uma separação clara entre ficção e não ficção. Se o livro é classificado como “ficção”, não nos importamos que o autor invente tudo, incluindo idiomas e etimologias em seu mundo de fantasia. Porém, se o livro é classificado como “não ficção” exigimos que se faça uma pesquisa séria e que realidade e fantasia estejam totalmente separados.

Qual é a intenção da Legenda Áurea? Ser somente um livro de história? Não! O objetivo principal é inspirar os fiéis, dar-lhes devoção e fervor. Eles admiram os grandes feitos dos santos, rezam para eles e tentam seguir seu exemplo de santidade.

O autor está sendo desonesto? É claro que não! Na Idade Média era comum achar em uma enciclopédia, que descrevia animais como cavalos e ovelhas, descrições de dragões e gárgulas.

Seria quase como eu criticar um comercial de televisão alegando que o produto não irá te dar asas ou te fazer voar. Quem fez o comercial está sendo mentiroso? Não, porque é um símbolo ou alegoria compartilhada pelo público.

Sir Peter Paul Rubens — Daniel in the Lions’ Den

Muita gente rejeita a Bíblia hoje porque não entende o estilo da época e o objetivo de seus autores. É fácil cair num dos extremos: ou afirmar que tudo é símbolo e interpretar a Bíblia meramente como um livro de fantasia com lições morais, ou afirmar que tudo é exatamente tal como está narrado (literalismo bíblico).

Como vivemos numa época relativista, para nós é mais fácil cair no extremo de que a Bíblia deve ser lida meramente como um livro de lendas inventadas. E o Legenda Áurea deve ser lido dessa forma? Obviamente não! Alguns dos santos descritos no livro foram praticamente contemporâneos do autor. Assim como alguns escritores da Bíblia conheceram ou vivenciaram certos fatos narrados.

Não devemos apenas partir do pressuposto de que eles eram desonestos ou estúpidos e que nós, com nossa visão “avançada” do século XXI, sabemos interpretar a Bíblia de forma mais correta do que os próprios autores que vivenciaram aqueles acontecimentos ou exegetas que viveram naquela época.

Eu amo e admiro a Legenda Áurea e a Bíblia exatamente devido a essa atmosfera de mistério: o fato de nunca termos certeza sobre o que é real e o que é ficção. Porém, temos estudos consistentes de especialistas que nos sugerem com certa segurança o que é uma coisa e outra.

Eu trocaria o Legenda Áurea por um livro com relatos “históricos”, frios e “exatos” sobre as vidas dos santos? Certamente não. No máximo, poderia ler o livro historicamente mais preciso como curiosidade e informação adicional.

Jacoppo de Varazze é um autor fascinante, com muita fé. Isso se pode sentir através das páginas: a paixão com que narra as histórias e elogia os santos.

Eu fiquei extremamente indignada quando o autor afirmou, com muita seriedade, que um dromedário é três vezes mais veloz que um cavalo. “Mas como? Isso não está certo! Estou ofendida com isso!” clamei comigo mesma. E fui pesquisar. No processo aprendi muito sobre camelos, dromedários e cavalos.

Alexandre Cabanel — Rebecca et Eliézer — 1883

Ler Legenda Áurea gera um turbilhão de emoções. O autor afirma (sempre bastante sério, é claro) que sátiros e centauros são lendas pagãs e não existem. Logo a seguir, os santos se encontram com sátiros e centauros numa floresta.

Sinto vontade de gritar e chamar o autor de certos nomes, principalmente devido ao seu fascínio com o número três, devido à Trindade. Ele divide praticamente tudo no livro em três coisas e três razões. No começo eu ficava furiosa, mas agora até me sinto ofendida quando o autor cita duas ou quatro razões para as coisas. Agora me acostumei com o número três!

Na Bíblia também encontramos repetições de números (como o 40 e muitos outros) e logo pensamos: “Não pode ter sido real isso, é obviamente inventado”. Mas a repetição dos números foi uma introdução proposital! Note: isso não significa que eles não possam realmente ter se repetido em diversas histórias.

Lendo as narrativas das vidas de santos já começamos a nos indignar logo na introdução, com as etimologias fantasiosas do autor. A seguir, nos deparamos com santos “cristianíssimos” (ele adora essa palavra) que buscam o martírio e se jogam para ele como se fosse um doce.

Há inúmeras cenas com minuciosas descrições de tortura. Na última história que li, sobre São Juliano, o cavalheiro foi esfolado e com sua pele fizeram um tapete para o rei.

O humor da Idade Média é bastante exótico. Eles possuíam uma dose generosa de humor negro. Coisas que para a nossa época seriam tidas como banais, para eles era de mau gosto. E certas piadas que eram naturais para eles, para nós pode soar como algo extremamente reprovável.

Em muitos momentos dou gargalhadas lendo as vidas dos santos, me sinto culpada e logo penso: “Eu deveria rir disso? Que horror! É claro que não! Mas não consigo parar de rir!”.

Em apenas uma vida de santo, eu passo da risada à raiva, e logo após a uma extrema inspiração e fervor religioso. As histórias nos prendem a esse ponto. Não é difícil imaginar porque esse livro era tão lido e famoso.

Às vezes nós gostamos de heróis mais humanos, cheios de fraquezas e defeitos, para nos identificarmos. O Legenda Áurea possui alguns desses: pecadores arrependidos, que se converteram somente mais tarde. Mas outras vezes nós também gostamos de heróis extremamente fortes e corajosos, que triunfam. E a obra também possui vários desses.

Scarsellino (Ippolito Scarsella) — Christ and Saint Peter at the Sea of Galilee

Da mesma forma, a Bíblia também contém relatos de profetas cheios de defeitos. Mas também possui histórias com grandes exemplos de santidade.

Hoje em dia, sinto que nós nos sentimos jogados num mundo frio e vazio, sem fantasia ou beleza. Por causa disso, sentimos vontade de consumir histórias de ficção e fantasia (filmes, livros de literatura, etc) numa proporção enorme, a ponto de desejarmos esquecer de nossas próprias vidas e a fantasia se transformar numa fuga.

Com o homem medieval isso era diferente. Ele vivia num mundo em que cavalos eram tão reais quanto dragões. Num universo em que Deus era real e no qual ele estava em meio a uma batalha espiritual entre anjos e demônios. Por isso, sua própria vida já era uma história de fantasia. Vida real e ficção não eram contraditórios, a ponto de a fronteira entre um e outro não estar assim tão definida.

Com isso não afirmo que Deus, anjos e demônios eram criações da fantasiosa mente medieval. Pelo contrário: eles sabiam que existem realidades sobrenaturais que não são fáceis de explicar em palavras. Eles precisavam utilizar uma simbologia própria para explicar um mundo sobrenatural completamente real, que atua em meio a nosso mundo. São forças que o mundo moderno e contemporâneo negou, no instante em que tentou separar o corpo e o espírito.

A importância de ter uma religião hoje não é inventar um mundo de fantasia para nos confortar ou dar mais emoção à nossa vida. É o exato oposto: é aprender a voltar a acreditar em seres que estão ao nosso redor. Nós tememos crer neles e sermos chamados de tolos e irracionais.

Uma vida sem sentido, na qual somos frutos do acaso e que acaba com a morte parece refletir a realidade do mundo? Então por que buscamos tão desesperadamente mundos de fantasia na ficção? Não é porque, no fundo, sentimos que neles há beleza, bondade e verdade?

Na Idade Média, as pessoas conviviam de perto com a morte e com o sofrimento em vez de se esconder deles, como fazemos hoje. Também era um mundo mais violento, com mais torturas, execuções. Havia muita crueldade. Porém, também havia muito mais que hoje do exato oposto: uma santidade inacreditável. Era um mundo de extremos, de contradições. Como se diz por aí: são exatamente nas épocas de maior crueldade e decadência que surgem os maiores santos.

No Legenda Áurea é possível captar esses extremos. Atualmente, nós tentamos reproduzir mundos de heroísmo, santidade e violência na fantasia, mas nós não vivemos essas coisas na mesma proporção que naquela época e pode nos soar artificial.

Por isso, sinto que há uma particular beleza em ler livros escritos em épocas diferentes das nossas. A descrição das torturas e da santidade no Legenda Áurea é algo repleto de suor e sangue, não algo artificial. Foi narrado com base na vida real, inspirado em algo que eles viviam e conheciam.

Não é muito mais fácil se emocionar com a vida dos santos narrada dessa forma? Nós tivemos heróis reais no nosso mundo. E temos até hoje.