Axis Mundi, Teoria do Caos e Caobala

Pink Fractal Blue Circle

“O Caos não é aleatório como pode parecer, mas uma sutil forma de ordem”

Understanding Chaos Magic, por Jaq D Hawkins

“Onde você está indo?”
 “Jogar pinball. Não tenho certeza onde”.
 “Pinball?”
 “Sim. Sabe, bater em bolas com flippers”
 “É claro que eu sei. Mas por que pinball?”
 “Por quê? Esse mundo está repleto de questões que a filosofia não pode explicar”

Pinball, por Haruki Murakami

A matemática, a ciência, a filosofia. Praticamente todas as áreas do conhecimento partem do pressuposto (da esperança e do desejo) de que o universo seja regido por leis determinadas que podem ser desvendadas.

A religião e a magia, filhas desse mundo, também herdaram esse mesmo pensamento. Na religião há uma crença de que existe alguma ordem e propósito no universo. Os Deuses não são indiferentes e conhecem a angústia humana: sua dor diante da morte, sua imensa solidão.

Repletos de compaixão, os Deuses criaram a Axis Mundi. É o centro de tudo, o ponto que conecta terra e céu, humanos e Deuses, o limite entre a mortalidade e a imortalidade. É a Yggdrasil, a Árvore da Vida, a Árvore Bodhi, os chakras, o Colosso de Rodes, o Homem Vitruviano, a Caaba, a Serpente Arco-íris.

Diz a Tábua da Esmeralda de Hermes Trismegistus: “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo” e “Sobe da terra para o Céu e desce novamente à Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores”.

A jornada rumo à evolução espiritual pressupõe que exista um caminho. Disse o Gato para Alice: para quem não sabe onde vai, qualquer caminho serve.

Quando nós estudamos áreas do conhecimento como cabala, astrologia e tarot, nós tentamos encaixar os diagramas de correspondência como quem monta o quebra-cabeça do mundo, que existia desde o princípio na mente de Deus. Talvez ele o tenha desmontado para nos testar. Sim, talvez seja uma espécie de teste para medir o nosso nível de moralidade.

Na astrologia, por exemplo, se acredita que aquilo que acontece nos céus é refletido nos acontecimentos da Terra. A cabala, com forte influência judaico-cristã e hermética, também segue esse pensamento: a Árvore da Vida conecta os dois mundos. A Árvore da Vida e a Árvore da Morte, Kether (o mundo espiritual) e Malkuth (o mundo físico). E o tarot também contaria a história dessa jornada: enquanto tentamos escalar a Árvore da Vida, sofremos diversas adversidades nessa aventura.

Na época da Grécia Antiga, floresciam os mais diversos pensamentos filosóficos. Havia os céticos, os estoicos, os epicuristas. Havia até mesmo Éris, a Deusa do Caos. Porém, aqueles que triunfaram na luta pela sobrevivência filosófica e adentraram a Idade Média foram Platão e Aristóteles, tão amados por Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.

No Renascimento (termo bastante tendencioso) pretendeu-se um resgate à antiga filosofia greco-romana. Na prática, não resgatou-se muita coisa. O tarot, a alquimia e a astrologia continuaram com fortes influências neoplatônicas. Até mesmo o neopaganismo era interpretado sob a sombra de um neoplatonismo disfarçado.

Em Epoch, Peter Carroll lembra que quase todas as áreas do ocultismo hoje são apenas variações do mesmo neoplatonismo. Então quando estudamos cabala, astrologia e tarot, por um lado temos contato com uma enorme diversidade de mitologias de diferentes povos e aprendemos muito. Por outro lado, nós basicamente vemos em tudo isso uma interpretação platônica do mundo.

Em MYOMT, Lionel Snell nos recorda o quanto usamos o platonismo no nosso dia a dia e em nossa magia. Nós tendemos a acreditar que tudo que enxergamos é apenas a “sombra” de algo maior (uma interpretação bastante kantiana também, já que Kant teve influência cristã). No seu livro sobre cartomancia, Patrick Dunn nos mostra que geralmente preferimos o tarot porque ele parece mais filosófico, mais profundo. Nós consideramos que a realidade que vivemos é inferior e sempre desejamos por um mundo impossível e irrealizável em que as coisas seriam perfeitas, como um Deus ou um céu. As cartas de Lenormand, por exemplo, lidam mais com interpretações de realidades práticas do dia a dia. Geralmente desprezamos a abordagem de Lenormand como simples ou trivial, porque preferimos as jornadas épicas, simbólicas e grandiosas para superarmos nosso mundo inferior de sombras.

Nós criticamos o cristianismo porque alegamos que eles desprezam o mundo e a carne e desejam um Deus ou um céu distantes. Não podemos esquecer que o cristianismo foi fortemente influenciado por Platão, através de Santo Agostinho. Acontece que o ocultismo também sofreu essa influência. A cabala é fortemente cristã e possui esse mesmo sistema. A astrologia e o tarot possuem algumas influências pagãs, mas também guardam aquele desejo de “subir da Terra para o céu”.

O herói parte numa jornada para conquistar a si mesmo e o mundo, porque está completamente insatisfeito tanto consigo mesmo quanto com o mundo. Ele queria que as coisas fossem diferentes. Ele quer ser qualquer coisa que não seja ele mesmo e estar em qualquer outro lugar que não seja onde está.

A interpretação platônica da realidade não é intrinsecamente ruim. Mas quando a tomamos como a única possível e como a verdade, isso pode estreitar nosso campo de visão.

Quando Peter Carroll propôs a Caobala (cabala caoísta) no Epoch, dentre outros sistemas de magia, sua maior crítica era à supremacia da interpretação neoplatônica do mundo. Por que não criar um sistema de cabala, de astrologia e de tarot que englobem outras visões filosóficas?

Talvez as coisas não se encaixem. Pode ser que o mundo não seja regido por regras fixas.

Na Idade Antiga, Euclides foi considerado uma autoridade em matemática (assim como Platão e Aristóteles eram autoridades na filosofia e Hipócrates na medicina) e por muito tempo não se aceitou outra geometria que não fosse a euclidiana.

Os fractais, por exemplo, seguem uma geometria não-Euclidiana. Não é tão simples prever o funcionamento dos sistemas caóticos. Os magos da matemática ficaram frustrados que seu brinquedo chamado mundo não pudesse ser sempre facilmente desvendado por seus cálculos divinatórios.

A teoria do caos aponta a existência de sistemas dinâmicos complexos. Os cientistas sempre desejaram aprisionar a realidade em sua gaiola. Queriam a Teoria do Tudo, porque acreditavam na ordem. Não porque a ordem fazia mais sentido que a desordem, mas simplesmente porque a ciência só funciona se existe causa e efeito. Quando Hume questionou a existência da causalidade, os cientistas de todo o mundo tremeram.

E se vivermos num universo extremamente estranho e caótico? E se às vezes as coisas se comportarem de forma aleatória? Não precisa ser sempre, pois se as coisas passarem a seguir um tipo de “regularidade aleatória” a ordem novamente se instalará. É possível que a realidade siga algum tipo de alternância entre ordem e desordem.

“Deus não joga dados com o universo” disse Einstein e Bohr respondeu: “Einstein, pare de dizer a Deus o que ele deve fazer!”

Uma outra magia é possível? Uma que se comporte como um jogo de dados, difícil de ser prevista. Extremamente caótica. Nós aceitamos a existência da teoria do caos na matemática, na física, na química, na biologia, na economia. Por que é tão difícil para nós aplicar esses conceitos na magia? Será que somos assim tão dogmáticos?

Copérnico tirou a Terra de seu Axis Mundi apenas para colocar o Sol em seu lugar. Mas será que precisamos de um ponto de início que conecta o corpo e o espírito, somente acessível aos poucos iniciados yogues ou que saibam controlar perfeitamente seu chi? Ou será que a realidade é muito mais caótica e os espíritos transitam livremente entre corpo e espírito?

“A ridícula dualidade espírito e matéria desaparecem no novo paradigma” declara Peter Carroll em Liber Kaos. Celebremos! Não por sermos menos ridículos. Nós apenas escolhemos jogar um jogo diferente.

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