Corpo ou alma?

Wanju Duli
Jul 9, 2018 · 8 min read
Christ in the House of Martha and Mary. Johannes Vermeer, 1655

“Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa.
Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo-lhe a palavra.
Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: “Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude! “
Respondeu o Senhor: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas;
todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”.

(Lucas 10:38–42)

A velha dualidade entre Marta e Maria: a via ativa e a via contemplativa.

No livro “A Nuvem do Não-Saber”, de cristianismo místico (provavelmente escrito por um cartuxo), o autor, obviamente, exalta a via contemplativa, elogiando Maria.

Quais são os comentários dos autores católicos a respeito dessa passagem? Muitos e diversos. Uma das interpretações é que Deus sempre deve estar em primeiro lugar. A oração deve vir antes de tudo, pois não é o homem, com sua própria força, que move o mundo. Ele nada pode fazer sem Deus.

Porém, dizem os mesmos comentadores, Marta não está errada! A obra que ela faz é excelente. Mas Maria faz algo ainda melhor, ao estar aos pés de Jesus.

“Respondeu Jesus: “ ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento’.

Este é o primeiro e maior mandamento.

E o segundo é semelhante a ele: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’.”

(Mateus 22:37–39)

Segundo Mateus, os dois mandamentos são muito semelhantes, mas amar e adorar diretamente o Criador seria ainda mais excelente que amar a criatura.

Essa briga de via ativa versus via contemplativa existe há muito tempo. A ideia é que as duas não são opostas, mas complementares. Uma auxilia a outra. Ninguém é completamente ativo ou completamente contemplativo. Cada pessoa é simplesmente chamada a enfatizar uma das vias mais do que outra.

As pessoas são diferentes e trazem consigo uma variedade de habilidades, saberes e inclinações. Por isso, não existe apenas um único jeito ou uma única via para chegar à salvação.

Ainda assim, há de se perguntar: o que fazer para ser perfeito? Essa pergunta é feita na Bíblia e respondida à altura por Jesus.

Adam Elsheimer — Saint Thomas Aquinas

E o que o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, tem a nos dizer sobre isso?

A verdade é que cada santo dá aquele mesmo belo discurso: as duas vias são igualmente boas e complementares, uma precisa da outra. É quase como aquela controvérsia entre a salvação pela fé ou pelas obras. Obviamente, quem tem fé se sentirá inclinado a fazer boas obras. E quem faz boas obras pode chegar a algum tipo de fé. Um leva ao outro.

No fundo, São Tomás de Aquino e os santos, padres e missionários que viveram a vida ativa, após dizer que a via contemplativa também é excelente, tenderão a dizer que a via ativa é melhor. Por outro lado, os monges, os cartuxos, os carmelitas, beneditinos, etc, irão exaltar a via mística e sempre clamar o versículo bíblico: “Maria ficou com a melhor parte!”

Afinal, qual é a melhor? Em “Imitação de Cristo” é dito ser inútil especular qual dos santos é o maior no reino dos céus. Afinal, não temos que nos preocupar com qual santo é melhor que outro. Temos, isso sim, que nos esforçar para tentar ao menos ser o menor no reino dos céus, pois até isso já é grande coisa!

Para entender melhor toda essa questão, vale a pena ouvir o que as outras religiões têm a nos dizer sobre isso.

ध्यान मुद्रे मध्ये बुद्ध: Buda em meditação

O historiador cristão Christopher Dawson em seu livro “Progresso e Religião” observa que as religiões orientais tendem a focar mais no aspecto espiritual da religião, enquanto as religiões ocidentais tendem a focar mais no aspecto material. Então digamos que o Oriente é “Maria” e o Ocidente é “Marta”.

Não é por acaso que, por exemplo, muitas religiões indianas, como hinduísmo e budismo, enfatizam tanto nas meditações, na solidão, no silêncio e na parte mística. Afinal, para eles a matéria é ilusão.

O próprio cristianismo oriental ortodoxo é muito mais místico do que o ocidental. O Monte Atos, uma montanha na Grécia, a “Montanha Sagrada”, é governado por um Conselho Teocrático da Igreja Ortodoxa Grega e possui vinte mosteiros. É um local famoso e antigo no qual viveram incontáveis monges e eremitas cristãos, que se retiraram do mundo. Possui pouco mais de mil habitantes, só se pode chegar lá por barco e é habitado exclusivamente por monges do sexo masculino. Esse é apenas um dos exemplos do quão místico o cristianismo ortodoxo pode ser.

Monte Atos

É verdade que o catolicismo também possui milhares de mosteiros pelo mundo. Porém, se ouve falar muito mais em São Francisco de Assis e na Santa Teresa de Calcutá do que em, por exemplo, São Bento. Tanto que o Papa Francisco tende a ser muito mais popular do que, por exemplo, o Papa Bento XVI.

Cada católico costuma ter seu santo ou papa preferido, mas acho que, em vez de falarmos em termos de melhor ou pior, isso só reflete a diversidade e beleza da Igreja, que abriga as mais diversas vocações.

Os primeiros séculos do cristianismo foram a época dos cristãos escondidos em catacumbas e dos mártires. Depois, veio a época dos mosteiros, do retirar-se do mundo, prevalente na Alta Idade Média. Já a Baixa Idade Média experimentou a glória das ordens mendicantes, como os franciscanos e dominicanos. Posteriormente também viriam os jesuítas. Essas três ordens são exemplos clássicos da via ativa.

Para completar, foi no ocidente que também surgiram os protestantes, que enfatizavam fortemente a via ativa: transformar o mundo enquanto se está no mundo em vez de retirar-se dele.

A painting of Martin Luther

Há quem diga que foi Descartes que separou o corpo da alma. Mas precisamos mesmo dessa cirurgia espiritual? Será que não podemos harmonizar os dois?

Um ateísta, que não acredita na existência de Deus, da alma e de um mundo espiritual, obviamente vai focar na importância do corpo e do mundo. Não é raro que uma das críticas do ateísta ao místico que se retirou do mundo seja: “Você não está ajudando ninguém meditando ou rezando! Por que não vai ajudar os pobres ou os doentes?”.

É raro que um místico ouça isso sem ficar pelo menos um pouco ofendido ou irritado. Ele fica frustrado porque o ateísta parece não compreender o papel fundamental de Deus e da alma no mundo. Nós fomos feitos para o outro mundo, é nosso destino final. E essa realidade deve ser compreendida literalmente e não somente de forma simbólica. Claro que também existe um símbolo nisso, mas ele não é tudo que há. E é somente mantendo o coração no outro mundo que podemos ajudar esse de forma mais efetiva, pois seremos guiados diretamente por Deus.

Para o místico, a mudança de coração é fundamental. Como ele poderá ajudar alguém se ele mesmo se julga ferido por dentro? Primeiro ele precisa se purificar. Ele se afasta das tentações do mundo, de modo que, dessa forma, poderá guiar melhor muita gente um dia. Mas normalmente são as pessoas que sobem a montanha ou vão até a caverna do místico em vez de ele ir até as pessoas.

Buda, por outro lado, foi o exemplo de um seguidor da via contemplativa que, uma vez obtida a iluminação, seguiu a via ativa, para espalhar seus ensinamentos para os outros.

Já o seguidor da via ativa não quer esperar se tornar perfeito ou algo próximo disso. Ele é mais prático. Mas como um cego pode guiar outro cego? Bem, eles aprendem um com o outro e juntos crescem. É uma maneira difícil de fazer as coisas, uma maneira apressada, mas ainda assim possível. Um estudante pode guiar outro estudante, mesmo sem ter se tornado ainda um professor.

No cristianismo, a via ativa é representada pelo padre, frade, missionário ou leigo, enquanto a via contemplativa é representada pelo monge ou eremita. No budismo, a via ativa é o Bodhisattva (aquele que “adiou” a iluminação por compaixão a todos os seres) e a contemplativa é o Arhat (o iluminado). Por isso se diz que o budismo Mahayana enfatiza no amor, enquanto o Theravada na sabedoria. Mas os dois possuem ambos: amor e sabedoria.

Buddhist sects

É difícil ver um monge ou eremita e não se sentir tocado e admirado pela extrema calma, paz, gentileza. Por outro lado, as pessoas do mundo, ou mesmo padres, leigos missionários, etc, parecem estar sempre estressados, cheios de compromissos e preocupações. Eles são como Marta, a quem Jesus disse: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas”.

Com isso alguns podem concluir que, de fato, as preocupações do mundo induzem à raiva, interagir com os outros é estressante, de modo que a única forma de cultivar a paz é a solidão e o silêncio. Mas será?

Se você visitar um mosteiro, principalmente um que seja bem isolado e silencioso, pode parecer que você está vendo o céu na terra e idealizar que é lá que está a verdade. Bem, pode até estar. Mas Deus não fica apenas escondido dentro de mosteiros. Ele pode ser encontrado nos locais mais improváveis.

Agora experimente visitar uma comunidade de vida ativa. Digamos, as Missionárias da Caridade. Sem dúvida você encontrará pessoas estressadas e ocupadas, tendo que lidar com mil e uma atividades ao mesmo tempo. Até as freiras e os padres podem ficar irritados no meio de alguns dias mais agitados, que são um verdadeiro caos. Ainda assim, não deixa de haver um tipo de luz no rosto deles.

Nenhum tipo de vida está isento de críticas. Um ateísta irá criticar mosteiros (sejam cristãos ou budistas), alegando que aquele tipo de vida não ajuda ninguém. Ainda assim, ele não se importará de pagar por um hotel quando for necessário. Enquanto isso, os mosteiros, que existem em praticamente todos os países do mundo, promovem, muitas vezes, retiros gratuitos, com ensinamentos espirituais e admirável hospitalidade, ajudando muita gente que, de outra forma, não teria dinheiro ou condições para estar lá.

Um ateísta também poderá criticar as casas de repouso, creches, hospitais, escolas, universidades, etc, administrados por religiosos, alegando que a qualidade deles é inferior a outros ricos hospitais e colégios ocidentais. Porém, ele não se importará de pagar por eles, enquanto muitos hospitais e colégios religiosos darão um tratamento e educação gratuita, ou mais barata, a pessoas que, se não fosse por eles, morreriam ou jamais aprenderiam a ler ou escrever.

No final, as vias ativa e contemplativa sempre se encontram em algum ponto. Os religiosos da via ativa sustentam sua fé e seu amor através da força das missas e das orações. E nos mosteiros existe um enorme serviço à comunidade e muito trabalho a ser feito (pinturas, artesanato, comidas, etc). Para completar, eles rezam por todos nós, com uma intensidade e dedicação inimaginável.

E nós, no mundo, será que temos mais características de Marta ou de Maria? Vale a pena aprender com os ensinamentos das duas.

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