Magia, Religião, Arte e Ciência

Descent of the Modernists, E. J. Pace, Christian Cartoons, 1922

Muitos acusam a magia do caos de ser uma “bagunça” e de não ter base. Mas de que base estamos falando aqui? Muito provavelmente de bases científicas, filosóficas ou ao menos históricas, porque é a isso que damos algum crédito.

Lionel Snell conta que na época de sua adolescência o governo estava seriamente considerando retirar muitas das disciplinas artísticas e humanas do currículo escolar e deixar apenas as “científicas”. Era a época do pós-guerra e o triunfo era atribuído à ciência, desconsiderando que essa mesma ciência era capaz de descobertas perigosas que, sem o auxílio de uma reflexão humana e filosófica, poderia levar à nossa perdição.

Curioso como guerras e fanatismos são usados como argumentos para se denegrir a religião, mas quando armas perigosas e intolerância são fruto do meio científico, deixa-se esse “pequeno detalhe” de lado e continuamos a venerar a ciência mesmo assim, porque supostamente teria mais vantagens do que desvantagens.

Evidentemente, a ciência é realmente útil, mas ela não é uma panaceia que, sozinha, irá resolver todos os problemas da humanidade. Não podemos esquecer que o pensamento científico surgiu a partir de concepções filosóficas e religiosas. Inclusive há quem defenda que foi graças à filosofia escolástica cristã que houve o desenvolvimento das universidades e incentivo ao pensamento científico. Descartes e Bacon, tidos como os dois criadores do método científico, eram cristãos.

Tendemos a achar que ciência e religião são inimigos, mas isso não é verdade. A ciência tem seus próprios meios de se tornar dogmática mesmo sem influência da religião, como se vê nos dias de hoje com as brigas de diferentes teorias lutando para sobreviver. E quem vence não é necessariamente a melhor teoria ou a verdadeira, mas a mais apta que sobrevive ao caldeirão cultural de brigas ideológicas e de poder.

A arte, por sua vez, nunca teve que dar satisfações à ciência para garantir seu lugar no mundo, embora tenha sido fortemente influenciada por ela em muitos aspectos, assim como foi moldada pela religião e por muitas outras manifestações do pensamento humano.

Mesmo nessa época de supremacia científica em que vivemos, ainda valorizamos muito a arte como necessária à nossa formação. Mas é inevitável lembrar que na hierarquia costumamos colocar a filosofia acima da arte e a ciência acima da filosofia.

Infelizmente, isso existe até mesmo na magia do caos. Os próprios fundadores do caoísmo tendem a dar muitas explicações científicas para fortalecer suas teorias, talvez numa busca de que se leve a magia do caos mais a sério. A teoria do caos é um dos muitos exemplos. Peter Carroll também nunca deixa de adicionar mais dimensões a suas teorias de física para explicar seu pensamento de magia.

É claro que não há nada de errado em relacionar ciência e magia. É realmente divertido. Mas não podemos pensar que um embasamento científico é o único que funcione para dar valor à magia.

Em segundo lugar, nós valorizamos as explicações filosóficas para a magia, de preferência citando muitos pensadores consagrados. Elas também são muito boas, mas não é o único embasamento possível.

Não costumamos levar muito a sério explicações religiosas ou artísticas para validar a magia. Citar a Bíblia está há muito tempo fora de moda. E quando um magista do caos faz piadas ou cria belos trabalhos artísticos em sua magia, isso nem sempre é visto com bons olhos pelos praticantes mais conservadores. Principalmente quando o caoísta faz um monte de “rabiscos” e chama de arte.

Nós já passamos pelo modernismo e pós-modernismo. Nós entendemos o que aqueles caras quiseram nos mostrar no que diz respeito à arte, mas ainda assim relutamos em aceitar.

Eu defendo que um caoísta pode utilizar qualquer paradigma para embasar sua magia, mesmo que seja artístico. Nós só levamos a sério a magia do caos quando há explicações científicas e filosóficas por trás dela (ou explicações linguísticas, históricas, antropológicas, etc)! A magia do caos não precisa dar nenhuma satisfação para a ciência ou para a filosofia para justificar sua existência. O Caos é selvagem e livre.

Tente aprisionar o Caos numa gaiola. Ele não é mais caos. Ele é qualquer coisa que se encaixa no nosso desejo infindável por Ordem nesse mundo. Nós precisamos de um chão para nossos pés ou ficaremos tremendo de medo. A ciência substituiu a religião para nos dar essa certeza. Quando a tiramos da jogada e contemplamos o Caos sem chão e sem pés pode ser realmente assustador. Nós queremos ter o controle e ficamos apavorados quando estamos diante do desconhecido, do mistério.

O magista contemporâneo é geralmente um ateísta ou agnóstico que repudia religião, tolera a arte e venera a ciência como seu novo Deus. Será que isso se encaixa no Caos? Bem, esse é um ponto de vista possível, mas não é o único. Experimente dar um salto no desconhecido e sair de seu porto seguro em busca de novos paradigmas. Sim, é assustador venerar novos Deuses ou fingir ser Deus.

Não exijo que você retire a estátua de seu Deus Ciência, de seu Deus Positivista de seu altar. Não, isso seria pedir demais de um crente de nossa época. Em vez disso, tente colocar outras estátuas ao lado deste e veja o que acontece. Só para começar a viagem.

O Caos é bagunça? Se quer Ordem e explicações bonitas que sempre se encaixem com os paradigmas já existentes da matemática e da filosofia, você está no lugar errado. O Caos não cabe em caixinhas e tem sua própria forma de fazer as coisas. Celebremos a diversidade. Viva a magia, a religião, a arte e a ciência! Viva o Caos e também viva a Ordem!

Use as explicações bonitas, fique à vontade. Mas não torça o nariz para as explicações feias, que não se encaixam no seu quebra-cabeça do século XXI e na sua visão “privilegiada” de um suposto presente livre de atrasos e superstições.

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