Nem Jesus agradou a todos

Painting of Jesus before his crucifixion, Henry Thomas Bosdet, 19th century

Hoje eu resolvi reler meu texto “Por que eu me interessei por cristianismo?” para ver se o que eu escrevi em outubro ainda está valendo. Sim, às vezes em menos de dois ou três meses as coisas podem mudar.

Concluí que boa parte do que escrevi ainda faz sentido. Mas eu queria acrescentar algumas observações.

Eu comecei a escrever em blogs pela primeira vez em 2008, aos meus 21 anos, quando tinha acabado de publicar meu livro “Velevi”. Graças a esse blog fiz duas grandes amigas, com quem falo pela internet até hoje. Mas depois o blog foi fechado.

Em 2009 fiz um novo blog especificamente sobre ocultismo, a pedido de um amigo, para falar um pouco sobre alguns livros de ocultismo que eu já tinha lido (que já eram mais de duzentos na época). Acabei falando também de budismo, magia do caos, filosofia e outras coisas. Até escrevi um livro chamado “Guerra das Cores Perdidas” para sistematizar, em forma de história de fantasia, a diferença entre RHP, LHP, xamanismo, magia do caos e religiões indianas (budismo, hinduísmo).

Pois bem, eu abandonei esse blog por mais de um ano. Eu estava muito ocupada jogando RPG online, hehe. Mas até no RPG eu fazia encontros para debater sobre ocultismo. O que, pensando agora, é algo engraçado, mas não deixa de ser interessante.

Após um ano eu me lembrei da existência do blog e fui dar uma olhada. Fiquei surpresa quando vi que ele tinha milhares de visualizações. Pensando agora, isso não é muita coisa para um blog que está online há um ano. Mas naquela época eu achei incrível que tanta gente tivesse chegado ao meu blog.

Entusiasmada por isso, voltei a escrever nele. Eu tinha feito esse blog só para organizar as coisas de ocultismo para um amigo meu, mas achei interessante que outras pessoas estivessem lendo ou pelo menos dando uma olhada por curiosidade.

Eu reparei que muita gente que me acompanhava nesse blog (depois mudei o nome dele para “Ocultismo Magnífico”) o encontrava por causa de um post que escrevi sobre poderes sobrenaturais. A certa altura, acho que esse post já tinha mais de cinquenta comentários. Eu estava um pouco cansada de responder a perguntas sobre “como obter poderes sobrenaturais”, até porque, raios, como se eu fosse uma especialista nisso!

Então apaguei o post, pronto. Eu percebi que se aquele post continuasse, quem leria meu blog seriam pessoas interessadas em obter poderes sobrenaturais. E eu não queria ser conhecida como “a mulher dos poderes sobrenaturais” porque nunca me considerei nada assim. Foi um post inocente sobre como, de acordo com o budismo Theravada, alguém pode desenvolvê-los através da meditação.

Ao apagar esse post, menos gente começou a achar meu blog, mas tudo bem.

Comecei a escrever mais sobre magia do caos, ou até ler mais sobre isso, porque percebi que também muita gente que achava meu blog era por causa do meu post sobre servidores na magia do caos. Nesse caso, eu acabei me empolgando junto. Até o Del Debbio me achou por lá e eu comecei a escrever no Teoria da Conspiração.

Nos anos seguintes, eu escrevi muito sobre magia do caos, incluindo livros a respeito e romances sobre isso. Até que ocorreu uma discussão no blog. Nunca antes meus posts tiveram tantas visualizações. Alguns posts tiveram mais de mil visualizações em poucos dias, porque quando dá barraco todo mundo quer participar, hahaha.

Aliás, a discussão ocorreu logo depois de eu terminar um grupo de magia que eu havia iniciado na internet e que durou seis meses. Nessa época eu tinha voltado a me interessar por budismo, então eu resolvi fechar meu blog por um período e fiz uma viagem para realizar um retiro num mosteiro budista Theravada por um mês. Isso foi em novembro de 2012. Não, eu não desenvolvi poderes sobrenaturais hehe.

Amaravati Monastery Temple, 2013
Meu quarto no mosteiro, no dia que cheguei, enquanto ainda estava arrumado
Livros que eu li enquanto estive lá

Quando voltei, apaguei todas as 400 postagens e recomecei meu blog do zero, por dois motivos principais: alguns posts estavam muito velhos e já não refletiam minha opinião atual. Outro motivo é que usei muitas imagens com direitos autorais, que eu não tinha autorização de usar.

Uma questão não saía da minha cabeça: será que eu gostava de magia do caos porque eu realmente me interessava ou eu simplesmente segui a onda? Eu vi que tinha muita gente na internet querendo ler sobre magia do caos e tinha pouco material sobre isso em português. Então eu pensei: “acho que as pessoas que leem meu blog vão gostar se eu ler muitos livros sobre isso, já que a maior parte é em inglês, e disponibilizar as resenhas em português”.

Sei lá o que eu pensei. Mas eu só entendi que eu gostava mesmo de magia do caos no final de 2014, quando tomei a firme resolução de entrar para o Arcanorium College, o grupo online do Peter Carroll.

Até então eu tinha um pouco de resistência de participar de grupos na internet. Algumas pessoas me perguntavam porque eu não participava dos grupos de magia do caos no Facebook e eu não sabia responder. Por nenhuma razão em particular. Até porque eu nunca gostei tanto assim do Facebook. Eu apago de vez em quando. Estou nele ainda porque sei lá.

2015, meu ano no Arcanorium College, foi uma boa época. Participei de alguns cursos de lá, como um curso sobre magia khmer do Camboja (até então eu nem sabia que isso existia). A Jaq D Hawkins participou desse. Também fiz por alguns meses o curso do Peter Carroll sobre os Grandes Antigos de Lovecraft e o curso dele sobre o Liber KKK, no qual ele me orientou como fazer e carregar sigilos para encantamentos, dentre outras coisas.

Minha varinha para a Evocação dos Grandes Antigos, com o Necronomicon Caoísta do Epoch

Foi legal poder conversar no Arcanorium College com vários autores de livros que eu havia lido (e participar de alguns barracos de lá). Também fiz brevemente um curso do Dave Lee, mas já foi na época que eu estava quase saindo do grupo. Fiquei lá por quase um ano. Acabei saindo porque acho que no fim daquele ano eu já não estava tão ligada assim em magia do caos.

Sigilos pictóricos para encantamento, que fiz durante o curso

Ah sim, também participei do grupo KoC do Arcanorium College, os Knights of Chaos. Nós fazíamos rituais juntos em dias específicos, cada um em sua casa, exatamente no mesmo horário, em nome de alguma causa.

Minha máscara para os rituais do KoC, com o símbolo dos Cavaleiros do Caos

E esse foi meu esquema para o ritual de magia khmer:

E minha mandala khmer:

Eu me empolguei e estou ficando nostálgica com essas fotos, então voltemos ao assunto do post.

É inevitável que na vida tenhamos alguma dificuldade de diferenciar entre o que realmente gostamos de fazer e entre o que as outras pessoas esperam de nós. É verdade que algumas pessoas têm menos dificuldade que outras.

Eu gosto dessa troca entre as pessoas. Eu gosto da forma com que eu aprendo tanto com aqueles ao meu redor. Às vezes meus gostos mudam por influência daqueles com quem tenho contato. Mas isso não é ruim.

Não significa que aquele gosto não é meu ou que eu não tenho personalidade ou gostos próprios. Eu não quero ser uma bolha ou uma fortaleza. Eu quero permitir que as pessoas ao meu redor transformem minha vida com suas presenças, com o que dizem, ao ver como elas vivem.

No início de 2018 eu fechei meu blog pela última vez. Mas desde então fiz muitos outros blogs, que de vez em quando eu torno restrito quando vejo que o conteúdo já não reflete tanto o que sou hoje.

As coisas mudaram desde 2015. Essa página do Facebook do Peter Carroll já não existe mais. E essa minha conta do Facebook que eu tinha eu apaguei lá atrás, e comecei outra.

A IOT Books, a loja americana que eu usava para encomendar vários livros de magia do caos, também já fechou há muitos anos.

E agora vem a parte mais importante da reflexão desse post. O assunto que eu realmente queria falar, após toda essa “introdução”.

Eu falei tudo isso para explicar que as pessoas que me conhecem pela internet podem ter me conhecido através de vários lugares, mas principalmente por causa da magia do caos.

Mas isso não é tudo. Eu não escrevi tanto sobre budismo, pois na época em que eu lia livros de budismo quando adolescente, meditava, frequentava templos e participava de fóruns na internet eu ainda não tinha começado a escrever em blogs. Mas eu fiz o “Primavera do Cristianismo”, um blog sobre cristianismo que já não uso tanto hoje. Fiz resenhas de quase 200 livros de cristianismo por lá uns anos atrás e escrevi muito.

Então é possível que algumas pessoas tenham me achado por lá. E outras por interesse em Abramelin. Afinal, foi por causa de Abramelin que eu comecei a me interessar por cristianismo, quando eu tinha 17 anos. E como estou fazendo a operação de novo agora, isso gera curiosidade.

Então eu poderia dividir as pessoas que me acompanham na internet basicamente em três grupos, embora seja óbvio que muitas delas não se encaixem em nenhum desses grupos ou em mais de um ao mesmo tempo:

1- Pessoas que são caoístas ou que gostam de magia do caos

2- Cristãos, ou pessoas que simpatizam com o cristianismo

3- Quem tem interesse por Abramelin, seja quem já fez a operação, que está fazendo, pretende fazer ou têm curiosidade sobre ela.

É legal essa diversidade, mas às vezes eu fico em apuros, pelo seguinte motivo: eu não sei para qual público eu estou me dirigindo quando escrevo!

Se eu sei que estou escrevendo um texto para um cristão, eu evito falar de Abramelin, de ocultismo ou de magia do caos. Então algumas pessoas que se interessam por cristianismo ou catolicismo podem ter parado de me seguir por causa dos meus textos de ocultismo.

E muita gente que gosta de magia do caos nem sempre gosta dos meus textos de cristianismo. Alguns que me seguiam por causa da magia do caos pararam de me seguir no momento que repararam que eu estava envolvida demais com cristianismo. Elas já não tinham interesse em ler meus textos sobre Deus.

Finalmente, há o grupo interessado em Abramelin. Esse grupo é um pouco exótico e difícil de classificar. Algumas pessoas que fazem Abramelin gostam de cristianismo e outras não. Alguns que se interessam por Abramelin gostam de magia do caos, enquanto outros seguem uma linha de magia mais tradicional e pensam muito mal da magia do caos!

Então, para resumir:

1- Muitos caoístas que ainda me seguem podem estar detestando meus textos de cristianismo. Ou apenas os suportam e ficam de olho para ver se ainda vou postar algo de caoísmo de vez em quando.

2- Muitos cristãos, principalmente católicos, podem não gostar de ocultismo e de Abramelin, então a maior parte já parou de seguir esta herege há muito tempo hehehe.

3- Alguns que se interessam por Abramelin podem achar realmente um atraso que eu ainda menciono a magia do caos e estão esperando o momento em que me tornarei mais “evoluída” e passarei de vez para o cristianismo. Enquanto outros podem achar um absurdo que eu fale tanto do cristianismo através de uma visão predominantemente católica e preferiam que eu falasse de um ponto de vista mais místico, gnóstico ou qualquer coisa assim.

Em suma: eu estou numa armadilha! Que eu mesma fiz!

É um pouco difícil estar nessa situação, pois eu gosto de agradar os meus leitores. Não gostaria que meus textos fossem uma leitura desagradável.

Por outro lado, eu quero ser sincera com minha própria consciência. Quero escrever o que eu gosto e o que eu penso e não pensando em agradar alguém.

Mas inevitavelmente aqui e ali dou uma amenizada e uma polida em certas coisas que escrevo, pensando “se um caoísta estiver lendo isso vai achar que estou sendo muito dogmática, então vou tirar” ou “se um católico estiver lendo isso vai achar que estou sendo muito pragmática, então vou tirar”.

Como vocês sabem, eu apago blogs e contas minhas no Facebook de vez em quando, então eu não diria que meu objetivo seja obter o maior número de seguidores e likes. Eu simplesmente escrevo coisas e gosto de compartilhar minhas ideias, mesmo que seja apenas com uma ou duas pessoas.

Eu comecei a me envolver mais profundamente com catolicismo e a fazer retiros há quase seis anos (eu me crismei com 27 anos). Por várias razões. E resolvi repetir Abramelin também por várias razões. São tantos os motivos que não vai caber explicar nesse post, que já está longo demais.

Algumas pessoas não gostam que eu esteja envolvida com catolicismo. E algumas das pessoas que gostam, talvez não gostem que eu esteja fazendo Abramelin.

Há aqueles que consideram a visão católica/cristã um atraso. E outros que consideram Abramelin uma heresia. Para completar, há quem considere magia do caos coisa de criança e acha que eu não deveria perder meu tempo com isso. E nem com ocultismo.

O que eu tenho a dizer a todas essas pessoas? Fodam-se, não brincadeira hehehe.

Enfim, o que eu tenho realmente a dizer é: eu não tenho como agradar todo mundo!! Bem que eu gostaria. Eu até poderia escrever um texto com dezenas de notas de rodapé explicando o que significa, em termos de ocultismo, tal expressão cristã, ou o que significa certo ritual do ocultismo com base em passagens da Bíblia, mas isso seria muito trabalhoso e frustrante. Ou eu poderia colocar parênteses em cada texto dizendo: “esse é para católicos”, “esse é para budistas”, “esse é para caoístas”, “esse é para ateístas”, “esse é para o diabo”, etc.

Eu sou influenciada pelas visões de mundo das pessoas ao meu redor e não tenho vergonha disso. Se uma pessoa é ateísta acho que ela tem um motivo para isso e não acho que ela seja burra ou menos “espiritualmente avançada”. Pode ser uma pessoa melhor que muitos cristãos, inclusive. Mesma coisa para quem é budista, hindu, espírita, muçulmano, caoísta, ocultista RPH, LHP, etc.

Eu não sou perfeita. Sou cheia de falhas, não conheço bem a mim mesma, nem meu anjo, nem Deus, nem as pessoas ao meu redor, nem o sentido da vida. Eu estou aprendendo. Inclusive aprendo o tempo todo com as pessoas que leem meus textos. Vou me esforçar para escrever melhor, para tentar melhorar, para aprender mais. Mas isso é tudo que sou por enquanto. Não consigo fazer melhor que isso.

Eu sou o resultado de já ter convivido com budistas, com católicos, com ocultistas, com caoístas, com ateístas. São pessoas que respeito e admiro, muitas delas eu levo como modelo para minha vida. Se uma pessoa tão boa e sábia é ateísta, é muito provável que o ateísmo não seja tão ruim. Se um grande amigo meu é ocultista ou católico e eu gosto dele, há algo interessante na crença e prática dele, com certeza.

Eu não devo pensar que uma pessoa que tem uma crença diferente da minha é estúpido, não conhece “a verdade que só eu conheço” ou é menos evoluído. Não é irritante quando alguém diz: “Coitado desse cara, não acredita em Deus, ele ainda está nessa sephirah, enquanto eu estou nessa aqui mais acima”?

Não quero dar esperanças para alguém que espera que um dia eu diga: “pronto, a partir de agora sou definitivamente e apenas caoísta, ou católica, ou muçulmana”. Quem sabe um dia eu diga. E depois de dez anos diga outra coisa. Quem conhece o futuro? Só Deus.

Em três dias vou começar o meu quarto retiro em um mosteiro católico. Vejamos como vou voltar de lá. Às vezes eu me surpreendo e volto de uma forma que não esperava. Outras vezes não.