Regressão à Média

Em janeiro de 2014 eu estava fazendo um curso de inglês. Eu costumava ler nos intervalos. Um dia, um dos meus colegas com quem eu raramente falava me mostrou um livro. “Percebi que você gosta muito de ler, então eu queria te emprestar esse livro aqui. Comprei há pouco tempo e achei muito bom”.
Eu aceitei, agradecida. Olhei a capa e o título e lembrei que eu já o tinha visto nas livrarias, mas nunca teria olhado para ele duas vezes. Além disso, tinha 502 páginas. Só li porque foi emprestado, mas no final da leitura fiquei surpresa de perceber o quanto gostei.
O título era “Thinking, Fast and Slow” (na versão em português: “Rápido e devagar: Duas formas de pensar) de Daniel Kahneman, psicólogo israelense vencedor do prêmio Nobel de economia.
O capítulo que eu mais gostei, e do qual tratarei aqui, se chama “Regression to the Mean”, sobre um fenômeno da estatística. Em outubro de 2015, quando li o livro “The Drunkard’s Walk: How Randomness Rules Our Lives” de Leonard Mlodinow (recomendação do Gordon do Rune Soup, de “7 livros essenciais de magia do caos que não são sobre magia) eu teria contato novamente com essas ideias.
Em seu livro, Kahneman relata um episódio em que ele estava atuando como psicólogo na Força Aérea Israelense. Ele contou como recompensas para uma melhor performance funcionam melhor do que punições por erros. Até que um dos cadetes comentou que, pela experiência dele, o oposto era verdadeiro: quando ele elogia um cadete por uma manobra de voo particularmente boa, da vez seguinte eles geralmente fazem pior. E quando ele grita no fone de ouvido do cadete por causa de uma execução ruim, eles costumam melhorar.
Segundo o pensamento do autor, o raciocínio do cadete estava correto, mas não devido às razões que ele imaginou. Para exemplificar, ele pediu que todos os cadetes virassem as costas para um alvo e jogassem duas moedas, uma seguida da outra. Os resultados foram os seguintes: na maior parte dos casos, os que chegaram mais perto do alvo na primeira tentativa, se saíram pior na segunda. E os que se saíram bem pior na primeira, melhoraram na segunda.
Daniel Kahneman mostra as seguintes equações, como curiosidade:
sucesso = talento + sorte
muito sucesso = um pouco mais de talento + muito mais sorte

Ele deu outro exemplo, dessa vez envolvendo jogadores de golfe. Vamos supor que a média de tacadas para acertar um buraco seja 72. O Jogador 1 fez 66 e o Jogador 2 fez 77. Nesse caso, o primeiro jogador se saiu muito melhor que o segundo. Se for pedido para que se tente adivinhar o desempenho desses jogadores no segundo dia, talvez alguém respondesse que seria similar: o desempenho do Jogador 1 seria acima da média e o do Jogador 2 abaixo da média. Porém, embora seja possível medir o talento de um jogador, não se pode medir a sorte. Portanto, a interpretação mais apropriada seria a seguinte:
- O Jogador 1, que se saiu bem no primeiro dia, provavelmente se sairá bem no segundo dia também, mas menos do que no primeiro, pois a sorte incomum que ele provavelmente teve daquela vez terá menos chances de acontecer.
- O Jogador 2, que se saiu mal no primeiro dia, provavelmente se sairá mal no segundo também, mas não tão mal quanto no primeiro, pois sua provável falta de sorte não terá tantas chances de continuar.

Mais um exemplo: o autor estava assistindo o salto de esqui nas Olimpíadas de inverno. Cada atleta deveria dar dois pulos. O atleta norueguês se saiu muito bem e o atleta sueco se saiu mal. O comentarista disse o seguinte: “A Noruega teve um ótimo primeiro pulo. Ele estará tenso, tentando proteger sua liderança, e provavelmente se sairá pior. A Suécia teve um pulo ruim, e agora ele sabe que não tem nada a perder e estará relaxado, o que irá ajudá-lo a se sair melhor”.
Segundo a interpretação de Kahneman, o comentarista detectou a possibilidade de um episódio de “regressão à média”, mas tentou encontrar um efeito causal para ele. Talvez as razões apontadas por ele possam até acontecer: um jogador estar mais tenso e outro mais relaxado, pelos motivos apresentados. Contudo, de acordo com a teoria, a sorte terá um papel mais decisivo: quem teve muita sorte da primeira vez, provavelmente não terá tanta na segunda. E quem teve muito azar na primeira vez, provavelmente não terá tanto na vez seguinte.
A razão pela qual seria difícil entender a regressão à média seria porque a nossa mente está sempre procurando uma relação causal para as coisas e não lida bem com “meras estatísticas”. Conforme o autor, quando observamos um evento, a nossa memória associativa irá procurar uma causa, mesmo que seja uma causa qualquer que esteja na memória. Porém, a regressão à média tem uma explicação, mas não uma causa.

Um exemplo final que o autor mostra é uma linha de jornal que aponta que crianças depressivas melhoram significativamente após beberem energéticos, dentro de um período de três meses. Porém, eles poderiam ter dito qualquer outra coisa em vez de bebidas energéticas, como abraçar gatos. Crianças depressivas seriam um grupo extremo, que estão mais depressivas que a média. E grupos extremos regressam à média com o passar do tempo. Crianças depressivas melhorariam com o tempo mesmo se não abraçassem gatos ou se não bebessem energéticos. Para realizar um teste efetivo sobre algo que realmente tenha uma melhora, seria preciso comparar um grupo que recebe tratamento com outro grupo de controle que não recebe.
Não é interessante pensar quantas vezes atribuímos causas diversas a acontecimentos que têm um forte fator de sorte envolvido?
Vale lembrar que o autor não tira o valor da habilidade de uma pessoa e dos aspectos psicológicos envolvidos. Ele apenas relembra que também existe o fator “sorte” nos acontecimentos, que é bastante ignorado.
Essa reflexão é bem importante para os ocultistas. Em muitas vertentes da magia, particularmente na tradicional, se fala muito de causas e consequências e da ligação entre os eventos. Fazer um feitiço seria uma tentativa de conectar dois eventos, para que uma causa (o ritual) traga uma consequência (ganhar dinheiro, inteligência, etc).
Os caoístas também trabalham com isso, mas sempre levando em consideração a aleatoriedade, a sorte, o caos! Nem sempre as coisas estão conectadas ou, se estão, a mente humana não é capaz de encaixar tudo. Por isso, muitos caoístas se sentem à vontade em meio ao caos e jogam com a sorte, às vezes até tentando evitar o desejo de controlar tudo magicamente, mas realizam experimentos e se maravilham com a aparente desordem da mente e do mundo.
Portanto, quando for fazer um feitiço, lembre-se: se um dos seus feitiços funcionou (e principalmente se funcionou maravilhosamente bem), o seu próximo terá uma maior probabilidade de não funcionar tão bem quanto esse, ou até de falhar. Afinal, a habilidade com feitiços não depende somente da sua habilidade como magista, mas também de sorte. E, nesse caso, também da sua capacidade de lidar com probabilidades. Nenhum ser humano tem sorte eterna ou ganha sempre.
