Porque reaproveitar as coisas me deixou ser vista como alguém simples

Mesmo não me importando como a forma que me visto, sobre o que digo, não quer necessariamente dizer que sou uma pessoa simples. O que de fato faz uma pessoa se tornar simples? É a forma de se vestir? Comunicar? Seu estilo de vida? A forma leve como encara os problemas da vida? Poderíamos entrar em comum acordo e dizer que são várias as versões de uma pessoa simples. Cada um faz a sua.

Há muito tempo venho buscando ser uma pessoa mais simples. O simples pra mim é eu me importar menos com o que os outros falam ou pensam a meu respeito (vixi é muito difícil), andar e me vestir confortavelmente, fazer as coisas que gosto sem me importar o que os outros vão dizer, tornar a vida mais simples e não complexa, consumir menos, dar atenção e viver os verdadeiros valores. A lista é grande, mas resumindo: é ter menos e ser mais, pra mim isso é ser simples.

O que me fez chegar até aqui e ter essa lista de coisas que acredito que me fazem ser uma pessoa simples, já sabemos: as pessoas que atravessaram a minha vida, os livros que li, os lugares que conheci, os filmes que assisti, os diálogos com os amigos, as reflexões.

Quando eu conhecia pessoas simples (definidas assim por mim), me encantava o seu modo de vida. E na maioria das vezes eram pessoas bem sucedidas. Não que todas as pessoas bem sucedidas são as pessoas mais simples, acho que ainda estamos na contramão. Mas eis que há um tempo venho debatendo na tela um quesito que cruza a simplicidade: a aparência.

Eu posso passar ao outro ter uma aparência simples, e não ser nada simples, desde uma pessoa cheia de problemas, vice versa. Acontece que a simplicidade para muitos é ter menos, ser menos, aparecer menos e por aí vai até ser um mero coitadinho.

Esses dias conversando com uma prima que logo falou: “pelo jeito que vocês levam a vida parece que ganham pouco”. Eu, meticulosamente respondi: “é pode ser”. Eu interpretei como: reciclamos muita coisa. Nossa TV é daquelas tubo, esses dias ela estragou e mandamos concertar. Nosso carro é da década de 90, mas anda super bem e eu e meu companheiro nem conversamos sobre a hipótese de trocá-lo para um mais moderno. Mas preferimos ainda andar de bicicleta por aí. Nossa casa tem móveis mais garimpados o que pode parecer que a gente não tem grana para comprar os mais modernos. Nossos celulares têm alguns anos e já mandamos concertar, como tudo na nossa casa e sempre reaproveitamos o que é possível. Eu, e assim como meu companheiro gostamos de brechós. Eu troco roupas com amigas, peço emprestado.

Nós gostamos de viajar, de conhecer novos lugares, sabores, sensações, culturas, pessoas. Porque acreditamos que viajar é sempre um investimento para alma, para a vida. Mas esse modo de vida é visto por algumas pessoas que aparentemente ligam para aparência como uma vida onde não temos condições de comprar o que esta imposto. Uns não se importam de pagar R$ 500 por uma camiseta, mas acham caro pagar R$ 1,000,00 por uma viagem. Cada um descobre e se redescobre no valor que dá as coisas.

E isso também me faz ter várias reflexões sobre as crianças que estamos criando. Sobre marca de roupas, sobre o mostrar, ter. Fico triste quando conheço uma criança de três anos que conhece a marca de seus tênis Nike e não sabe de onde vem o leite. Mas também fico muito feliz pelos pais que tenho conhecido, sejam amigos ou até desconhecidos que estão passando verdadeiros valores, de amor à natureza, sentimentos, reciclar, viver, compartilhar. A meu ver, estes são valores que podem nos tornar mais humanos.

Também não estou expressando que alguém que tem tudo moderno não tem valor, não é simples. Conheci pessoas fantásticas assim. É apenas o estilo de vida, as aparências pelo qual me questiono. E como a gente é classificado por ser assim. E ainda, como é chato quando você se invoca com isso e deixa de seguir os seus verdadeiros interesses por medo de se expressar. Era nisso que eu queria chegar. Já conheci muitas pessoas querendo ter um estilo de vida diferente, mas se sentem com medo ou incapazes, porque acham que vão perder amigos. Ah, eu fiz o teste, aquele ‘eu mais eu’, quem não se importa seguirá do seu lado sempre, porque é você que importa.

Em outro momento me deparei com uma conversa em família, onde era discutido um valor de uma casa (bonita e cara), e todos falavam: “sim é possível trabalhar 30 anos e pagar por aquela casa, afinal vale a pena. Imagina o que os outros vão pensar, vocês com aquela casa”. Me questionei, refleti, foi difícil chegar a uma conclusão. Porque afinal se sacrificar tanto, tanto para mostrar o que às vezes a gente não tem condição de ter? Aí me pergunto: afinal, como fomos parar aqui?

E claro, no meio de toda essa caminhada eu mesma me vejo saindo daquele caminho que queria trilhar em busca de uma vida, um ser mais simples. Me vejo exibindo minha viagem, ou algo que adquiri, ou falando sobre o que ainda preciso comprar para meu escritório ficar bonito (sendo que meus móveis ainda estão ótimos). Nossa é muito difícil.

Mesmo você querendo ser mais simples, porque acredita em uma formação mais humana, preocupada com o outro, com a comunidade, com o compartilhamento, a gente se vê junto com o ego. E a simplicidade some, porque afinal é bom a gente se mostrar, dizer o quanto ganha, ou quanto trabalhamos e achamos o máximo por isso, porque a vida é julgada pelo tempo que você fica fora de casa, e muitos caem nessa. Ficam presos, se martirizam a vida toda, se endividam, parcelam, e continuam se sentindo angustiados.

Não estou trazendo a resposta, como ter uma vida mais simples e não se importar com as aparências. Mas parece que muitos sabem a sua resposta, o que fazer, ou o que fazer menos e se importar mais, mas mesmo assim continuamos engolidos pelos desejos que nos deixam vazios, pelas aparências que nos enganam e pela simplicidade que não é bem quista. Mas eu prefiro cultivar boas relações, fortificar estas relações, me gratificar pela natureza e amar, e mais ainda: respeitar as diferenças. Eu sigo tentando!

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