Os apagamentos da indústria cultural

Minha experiência com a velha guarda do Rap Nacional

Um dia desses estava eu montando uma playlist de rap nacional num aplicativo pago de streaming. Daí que eu cresci em São Mateus, zona leste de São Paulo, nos anos 90 e minha juventude toda foi feita ouvindo um rap. E para mim o rap era bem como o Sabotage o definia: compromisso. Isso porque qualquer outro estilo musical não me agradava ou estética ou ideologicamente (não sei até que ponto esses aspectos se diferenciam): o rock gringo era incompreensível, já que eu não falava inglês; o rock nacional era colonizado pelo imperialismo norte-americano; a MPB era de outro mundo (e quando eu acessei esse mundo, por muito tempo a repudiei como os punks haviam feito: como algo elitista, empolado, intelectualizado).

No final das contas, até por volta dos quatorze ou quinze anos de idade minha formação musical foi feita basicamente pelo rap nacional (o que não é totalmente verdade. Embora fosse o que eu mais escutava com a molecada na rua e na escola, os discos e K7s da minha mãe e avô foram importantes: Tim Maia, Elis Regina, Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho, Jair Rodrigues e por aí vai).

Lembro que isso foi mudando vagarosamente, com a chegada da internet discada e os programas de download (quem lembra do E-Mule? E do Kazaa? Do Soulseek?). Ali do lado do terminal de São Mateus tinha um grafite da Wu-Tang Clan, bem onde minha mãe ia buscar as mercadorias da revista Hermes (que ela revendia), que me fez querer saber que som era aquele, como era a pegada do rap norte-americano. Daí eu fui chegando por um primo mais velho ao Cypress Hill, ao Tupac. Também passei a circular de modo mais expandido pela região metropolitana, entre o ABC e as áreas centrais de São Paulo. Conheci gente nova (principalmente em Santo André, que andava com uns patches muito interessantes nas jaquetas e nas mochilas) que me falou de anarquia, de DIY e do punk; e alguns amigos que antes só ouviam rap comigo tinham passado a ouvir rock. Comecei achando todos eles uns traidores, mas aos poucos fui me abrindo.

E o rap era pesado naquela época, hein! MA-LU-CO! O rap era de um ódio, manos e minas, que punk nenhum tá ligado. Cê é loko! Quem ouvia os raps nessa época (sem nem considerar Racionais, que todo mundo manja) sabe que o rap era feito nos presídios, nas periferias mais esquecidas pelo poder público, entre grupos de amigos jovens, verdeiros ativistas políticos locais, bairristas. As letras fortes, chocantes, de denúncia, descrevendo um cotidiano vivido e imaginado. O lance é que, para o mercado fonográfico brasileiro, era tudo muito tosco, muito precário e, acima de tudo, pingava sangue. Era uma estética cruazona mesmo. Classe média cultivada dificilmente compraria. Era um produto cultural feito de modo independente para um público local.

Daí que o rap foi perdendo força. Isso porque até mesmo as molecadas de periferia começaram a não se interessar muito mais pelo rap e seu discurso duro, militante. Uns caras orgulhosos demais na cena, inflexíveis às vezes. Eu achava aquilo tudo muito bom, mas eu já estava ouvindo um rock (sem tirar o pé do rap), eu tinha saído de São Mateus. As novas gerações, eu tô ligado, caíram de cabeça no funk. A cena mudou. Nem sou desses que acham que piorou, que o funk estragou o engajamento que vinha rolando. Nada a ver. O funk também tem suas subversões (não na mesma pegada chocante do clipe de “Diário de um detento”, claro).

Só que, voltando ao assunto, o lance é que naquele aplicativo de música lá não tem muuuito do rap que eu manjo, véi! Não tem De Menos Crime, não tem Realidade Cruel, Face da Morte, Potencial 3, Consciência Humana. Facção Central então, nem pensar. Não tem uma porrada de coisa, gentes. Não vou nem listar. Vou só citar que as lendárias coletâneas da 105.1 FM, Espaço Rap (Vols. 1, 2, 3, 4…12, 13, 14, etc. Sei lá até qual volume isso rolou! Perdi a conta e o contato!), não estão lá! E como disse um amigo num dia desses, o que assusta nesses aplicativos é que eles vão reduzindo o escopo. O MP3 já era, junto com o P2P. Agora você paga pros caras te oferecerem o que a demanda diz que é viável oferecer. Quanto mais esses aplicativos se difundem, mais eles definem o que se ouve: música é o que tá ali. Só que não, pera lá!

Daí que eu fiquei frustradão. A lista ficou com cara de incompleta. Não tem metade do que eu esperava, não tem boa parte do peso que eu queria reouvir. Aff! No final das contas eu acabei lembrando de uma reflexão desses últimos anos, sobre o rap que ressurgiu forte aí. Porque Criolo tem. Emicida tem. Esse rap é bom também, com certeza. É reconhecido pela velha guarda e tudo. Mas é bem mais tragável, né? Nenhum problema nisso. Mas não é a mesma coisa. Né? O rap ainda é arredio, mas tá mais bem assentado (tem seu espeço, conquista dos caras). Denuncia, faz a crítica, mas de um jeito mais sutil, mais sagaz talvez. Daí que é isso: a velha guarda não vendeu, não soube se vender, não quis, não pôde (de novo, faz-se a exceção aos Racionais, sumidade nacional). Uma parte dela ficou pelo caminho, enterrada pela indústria cultural. E agora, de novo.

Eu sei lá. O rap vai bem. Melhor que antes. Mas tá diferentão. Será que algo se perdeu? Com certeza. E talvez fosse inevitável. Os álbuns com capas violentas, com armas em punho, fuzis, com cenas de morte e muito sangue perderam espaço. Itens de colecionador agora. O rap amador foi esvanecendo. Mas algo novo emergiu. E não tenho antipatia nenhuma pelo novo rap. Muito pelo contrário: tenho verdadeiro entusiasmo por boa parte dele. Parabéns para a nova rapa que fez acontecer, recriou a cena, não deixou morrer e reinventou o estilo, profissionalizou, sem perder a referência.

Minha intenção aqui é só não deixar ser apagada uma geração de pioneiros e pioneiras. É fazer pensar a lógica do mainstream, sempre. O que é que muda com as novas tecnologias? E as rádios, as demos? Como a cena se refaz? Porque o rap fez sucesso e vai fazer ainda mais. Tem muito gaiato, mas também tem muita gente boa, que tá nesse barco faz tempo. Tem gente que fez acontecer, que tá na crista da onda mas sabe de onde veio, tem gente ainda tentando e que tem muito valor (Relatos da Invasão, CA.GE.BE., Rincón Sapiência, etc.). Eu só não vou esquecer dos grupos dos anos 1990, de jeito nenhum.

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