
“A paranoia é o alho na cozinha da vida”: Thomas Pynchon — O último grito
Nova York como o grande suspeito enigmático que sabe de tudo.
Maxine Contempla o fluxo constante de estrelas, vasos cabalísticos despedaçados na Criação dando forma a todas essas gotas de luz, a jorrar do ponto único que as gerou, também conhecido como universo em expansão… “O que acontece se eu clicar num desses pixels aqui?”
“Você pode dar sorte. Nada que a gente tenha escrito. Pode dar num link pra algum lugar. Você pode também passar o resto da sua vida explorando o Vazio e não chegando a parte alguma.”
As ficções de Pynchon geralmente se estruturam como grandes conspirações, que substituem outra possível narrativa capaz de dar sentido coerente ao tempo histórico. Ao invés de uma presumível luta de classes marxista, ou de uma “metanarrativa” de qualquer tipo, somos envolvidos em uma trama permeada por uma grande conspiração que infesta as páginas do romance (e a nós, leitores) de paranoia; sentimos por todos os lados a existência de uma força, uma empresa, uma sociedade secreta ou algo análogo capaz de conduzir as cordinhas por trás do teatro da História.
Sem se distanciar do formato paranoico, tal estruturação adquire nesse romance maior plausibilidade e realismo que em qualquer outro de Pynchon, ao menos para os seus padrões lunáticos.O último grito se encaixa nos romances mais curtos e acessíveis do autor, diferente dos calhamaços exigentes como Arco-íris da gravidade, Contra o dia ou Mason & Dixon; mais próximo, portanto, de livros mais curtos como O leilão do lote 49, Vineland e Vício Inerente.
A história se passa na virada do milênio, pouco antes da queda das torres gêmeas e pouco depois do estouro da bolha da Internet, crise econômica que jogou água no sonho de muitos empresários da época. A protagonista é Maxine, uma investigadora que teve recentemente sua licença cassada (o que não a impede de atender seus clientes mesmo assim) e é levada a investigar uma estranha empresa chamada hashslingrz (aqui, a mãe de onde emanará toda a conspiração) comandada por um homem misterioso chamado Gabriel Ice, uma versão bizarra e piorada de um típico gênio cínico e frio da era do empresariado digital.
O livro utiliza, para alegria dos fãs, de velhas convenções do universo do autor: as coincidências que movem o enredo adiante, os personagens excêntricos, os dramas amorosos e familiares correndo por fora do cinismo e do sarcasmo, as observações sociais e políticas. Talvez dois ambientes se imponham com a força de protagonistas. O primeiro deles, a cidade de Nova York, percorrida por agentes secretos, especialistas na Deep Web e outras figuras pitorescas. O segundo, a própria internet, que passa pelo momento imediatamente anterior ao seu progressivo processo de cercamento que estamos vivendo até hoje. O romance acompanha uma espécie de narrativa de transição na qual a cidade tem seus afetos redesenhados após o atentado terrorista do 11 de setembro.
É aqui que a narrativa nos parece muito distante, por um lado, já que a ficcionalização do ano de 2001, visto da perspectiva da nossa atual perda de qualquer ingenuidade frente à tecnologia, nos parece tão estranho e longínquo. Por outro lado, o clima de terrorismo e policiamento do cotidiano, de emergência da sociedade de controle e de cercamento dos comuns se parece tanto com nossa realidade que nos sentimos assustadoramente próximos. A sensação que emana deste romance é que talvez a paranoia se justifique e que a conspiração seja de fato real. O grande símbolo da prosperidade americana fora derrubado, do que mais poderíamos duvidar?
A confusão tradicional estabelecida por Pynchon entre elementos da cultura de massas e elementos narrativos típicos do alto modernismo também está aqui, com destaque especial para os momentos envolvendo games e experiências eletrônicas. Há menções e aparições deliciosas de franquias como Metal Gear Solid e Time Crisis, por exemplo. Mas como já dito, a internet moderna é que figura com maior destaque dentro da trama, com ares de novidade, reunindo tanto uma dimensão utópica quanto um ar de maior aprisionamento e reificação da vida.
Há uma intensificação da espectralidade a cada visita que Maxine faz à DeepArcher, um game que torna habitável a Deep Web, transformando-a em um complexo mundo paralelo dentro da narrativa, que parece engolfar a Nova York do romance e tomá-la por dentro. A sugestão que faço aqui é a de que talvez o romance faça o movimento narrativo de alegorizar a espectralidade típica do espaço pós-moderno, o movimento do capital fictício substituindo a materialidade das coisas, os simulacros e simulações no lugar do Real.
No clímax da suspeita, a percepção de enigmáticas alterações e investimentos na bolsa antes do atentado, uma inundação da Deep Weeb por pessoas de perfil muito diferente do usual e uma profunda modificação do espaço do DeepArcher após a queda das torres gêmeas que talvez indique uma conexão maior do que parece entre os eventos. No fim, o romance narra a destruição de uma Internet cheia de esperanças, possibilidades e investida de utopias, substituída por outra, colonizada pelo mercado e pelas grandes marcas.
É imensa a coleção de figuras e cenários que contribuem para dar à narrativa um ar caótico e pós-apocalíptico. Dentre tantas imagens marcantes ressaltam-se os prédios fantasmas, os agentes secretos, os assassinatos/desaparecimentos, as figuras exóticas típicas de grande metrópole como os conselheiros budistas para yuppies, além das crianças que já crescem interagindo com a virtualidade e um ex-marido que ainda desperta sentimentos em Maxine. Pynchon nos brinda mais uma vez com uma desconcertante ficção histórica, talvez a mais acessível (o que aqui não é um defeito) e mais familiar de todas as que escreveu até hoje, uma crônica paranoica do neoliberalismo. Mas é uma crônica que abre espaço para sentimentos como a ternura e a compaixão, que contrasta de um lado bombeiros que se sacrificam nos escombros das torres gêmeas para tentar salvar pessoas que nem ao menos conhecem com, de outro lado, a incomensurabilidade do violento mercado financeiro que dita a nova racionalidade do mundo.
Se algo no livro ocupa a função de utopia talvez seja, no seu encerramento, a família: os filhos, Ziggy e Otis, que já não cabem nos braços de Maxine e Horst e ganham sozinhos as ruas da cidade. Isso porque a verdadeira utopia parece ter sido engolida pelas megacorporações. Em tom melancólico, a narrativa se fecha mostrando que a História, como construída pelo gênio pós-moderno e louco que é Pynchon, prossegue sua marcha. Eles venceram mais uma vez.
