A prosa abafada de Lídia Jorge

Primeira leitura do ano, Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge não me fisgou logo nas primeiras páginas. Talvez lá bem depois das cem páginas é que eu tenha me encantado pelo livro. Intencional, creio eu. De repente, o murmúrio do título me pareceu parte do texto. A prosa é abafada. Parece que a narradora está contando os acontecimentos por trás de uma parede. O texto é uma névoa. Os relatos contam e descontam, esfumaçam. As versões vem e vão como ondas. O texto não é sutil, ele faz barulho. Mas o barulho que sai do livro é como as batidas de um Chill Out.

A narrativa se passa durante os conflitos coloniais pós queda da ditadura Salazar, período frequentemente abordado na prosa contemporânea portuguesa. Diferente dos narradores de um Lobo Antunes, contaminados pelos ódios e traumas de quem lutou nas colônias, Lídia Jorge opta por uma narradora que aguarda o regresso do noivo. Conta diferentes versões do que se passou enquanto durava a espera e após a chegada do oficial. Eva relata a transformação que este sofre pela guerra, de um ambicioso estudante de matemáticas a um assassino carregado de desumanidades, ao mesmo tempo em que narra como ela própria também mudou. O conflito é mostrado não somente naquilo que ele causa nos homens que participam do front, mas também na sociedade que aguarda o regresso de seus soldados, nas mulheres que aguardam seus companheiros.

A narrativa também não vai pelo caminho do silêncio e do tabu como por exemplo em O Delfim, de José Cardoso Pires, em que os traumas e resultados da ditadura Salazar são por vezes silenciados ou contados de maneira elíptica. A narradora de Lídia Jorge fala muito e oculta não no que não diz, mas no que está o tempo todo a nos dizer.

O caráter enevoado da narrativa parece coadunar com uma concepção mais ampla do tempo. A protagonista do romance é uma ex estudante de História e durante um momento da narrativa ela recorda da aula que a fez abandonar a disciplina:

É tudo uma questão de tempo, sim, eu sei ­­- disse ela ainda. Não me deixe regressar àquela manhã de faculdade. Nem à aula parda do professor Milreu. Porque me leva à aula do Milreu? Ele começava o curso no fim do Outono quando as folhas das árvores, pelas ruas, mais criam a melancolia do tempo. Como recapitulava o conceito de História, começava pela noção de tempo. Que se tinha visto o tempo como um brinquedo para os deuses pagãos, sem forma geométrica definida, para além da ideia dum novelo de fio. Que depois se havia visto o tempo como uma linha quebrada entre o bem e o mal. Que depois, em tempo de orgulho, se havia visto como uma linha recta sem fim, como as rectas mas dirigida para um sol brilhante, correndo adiante, sempre adiante da linha do tempo. Que depois se havia visto como uma espiral, menos orguhosa que a recta mais pusilânime, dirigida também para um local de que não se previa o fim. E que era aí que tínhamos ficado no dia interior. Então o professor Milreu perguntou — “E agora, meus senhores?” — Na verdade éramos trinta mulheres e três homens. E agora, que conceito de tempo? Que conceito de História? (p. 212)

Logo após surge um debate acalorado entre o professor e os alunos. Eva ao final declara que sua posição é a de que o tempo é relativo, como o dos físicos. Milreu, o professor, ridiculariza sua posição e ela narra que após o evento decide largar o curso. Sua conclusão, dentro da narrativa, guarda certa ironia: “Só para explicar que no meu conceito de História cabe a influência dos músculos invisíveis que baixam e levantam o ânus.” (p. 214)

O negro e as classes subalternas também fazem sua aparição no romance. Sob o olhar do colonizador, nas famílias de prole numerosa, na prostituição, nas funções gerais, ou apenas no número indefinido de cadáveres. O romance mostra como a vida negra vale pouco, como é a carne mais barata do mercado no terceiro mundo.

Costa dos murmúrios é um livro violento, mas não é violento como o tiro de uma metralhadora. A violência na prosa de Lídia Jorge é a violência que vai contaminando aos poucos. É silenciosa. Apenas mata, não precisa gritar.