Formas de conter um tribunal: Michel Laub- “Tribunal da Quinta-feira”

Michel Laub tem construído romances de formato já muito característico, estruturados em capítulos breves, pequenos blocos de frases curtas incisivas e concentradas, contados em primeira pessoa por uma personagem atormentada — geralmente um homem branco de meia-idade que reavalia fatos de seu passado — e ambientado de forma a ser cruzado por duas ou três narrativas ou problemas paralelos nos capítulos finais.

Nesse último livro o autor conserva suas principais características aprofundando em qualidade aquilo que já domina sem trazer grandes novidades. É sem dúvidas um dos melhores narradores que Laub escreveu até aqui, dotando as personagens ao seu redor também de uma aura própria e cadenciando bem os fatos da trama. A narrativa se estrutura como uma defesa de José Vítor, publicitário que teve vazadas suas conversas com Walter, amigo soropositivo e homossexual, onde em uma linguagem ácida e depreciativa comentavam sobre relacionamentos, falavam obscenidades íntimas uns para o outro e, especialmente, Vítor confessava o affair com Dani, uma moça 20 anos mais nova do que ele, empregada na mesma agência de publicidade em que trabalhava, e o desgaste do relacionamento com Teca, sua esposa, a responsável por editar e vazar o conjunto de conversas entre os amigos como vingança após a traição e separação.

É fácil constatar que José Vítor é exatamente o canalha que sua esposa acha que ele é; mas não é difícil entender também os filtros que são derrubados da linguagem quando dois amigos de longa data se relacionam nos momentos privados. A captura desses movimentos da linguagem é um dos grandes trunfos formais da obra: no privado, as trocas de mensagens entre os amigos denotam uma relação que dispensa as formalidades e bons modos da vida pública; ao passo que as mensagens de condenação e críticas que surgem após o vazamento das mesmas conversas se inscrevem em um terreno que busca falar para todos, exigir um comportamento e uma condenação daquilo que é visto como imoral — e aqui Laub sugere como esse limite é mandado às favas e como o anonimato derruba a barreira da formalidade e da cordialidade dos locais de trabalho e convivência para se tornarem mensagens covardes de rancor e ressentimento, como nas mensagens anônimas deixadas nas abas de comentários dos portais da grande mídia.

Mas é possível ver nos elementos dispostos ao longo da trama uma defesa também de Laub para tratar o tema da tolerância e da militância em redes sociais como autor de uma obra literária. A questão da Aids não é inserida por acaso. Desde as memórias da iniciação sexual de Vítor e Walter, passando pelos avanços no campo científico e comportamental a respeito da doença, a Aids será um espectro até a última página do livro, servindo como gancho narrativo em diversos momentos; igualmente a presença de Walter, o outro vértice do escândalo, como sendo homossexual, e mesmo Dani, sendo também encarada como vítima, posição que de acordo com a narrativa de Vítor ela se nega a pertencer, tudo isso serve como amortecimento e defesa de Laub enquanto autor, para utilizar seu livro como uma ferramenta literária convincente. Todos esses elementos servem, ao fundo, para amaciar, convencer o leitor, para ocultar uma verdadeira política e mesmo torná-la, para utilizar uma palavra que parece clamar de toda a narrativa, tolerável. A obra, ao longo de toda a movimentação de suas personagens e situações, parece-nos enviar um recado condenatório às práticas de exposição. Diante do espinhoso tema, uma verdadeira máquina de guerra foi erigida. Não é só o narrador, Vítor, que está na defensiva, respondendo a acusação de um tribunal, mas parece que o próprio livro também, na forma como foi armado e as suas características foram dispostas.

O grande elemento que talvez convide a desvelar a hipocrisia das relações sociais seja o ambiente de trabalho em que convivem Vítor e Dani. O mundo da publicidade. Vítor, que é antes de tudo um cínico, fala com propriedade desse mundo e de seu lugar nele; como a publicidade atraiu mentes como a sua, pouco interessadas no mundo burocrático do Direito ou das Universidades de Letras; como a figura do criativo e das agências definha hoje, ou ao menos perde o glamour e peso social que já teve, agora que estamos na era dos logaritmos e cálculos digitais de opinião e gosto feitas pelas redes; como o comportamento e a aparência social é alçada como lucro, como a imagem que fazem de nós torna-se também uma commodity. A obra e a narração de Vítor vão construindo a ideia que do mundo da publicidade, do cinismo e do lucro surge de maneira propícia a hipocrisia, quase como uma correlata. A linguagem da tolerância das redes sociais pode então ter se tornado apenas um novo discurso publicitário visando lucratividade, uma nova linguagem do capitalismo. Se é isso, não é difícil constatar que parte da potência dos novos movimentos sociais que vem crescendo e felizmente se fortalecendo nos últimos tempos — feminismo, movimento LGBT’s, movimento negro, etc. — pode ser incrivelmente reduzida e capturada pelas corporações e pelo dia a dia da linguagem capitalista, gerando um tipo de ativismo incapaz de ultrapassar o reino da aparência. Ao fim da operação, vê-se como a obra e sua “tese” podem emergir de maneira mais confortável. Embora seja exagerado afirmar que o livro ofereça o convite para uma crítica desses movimentos sociais como um todo, há sim uma problematização de certas práticas empregadas sobretudo nas redes.

Seria patético se a narrativa construísse a figura de José Vítor como uma vítima. Como não é isso o que acontece, a obra cresce em potencial. Talvez o maior trunfo seja a construção desse narrador e seu passeio reflexivo por diferentes linguagens e ambientes. Dentro disso, também a construção de uma história permeada por ganchos, suspenses e sinais para atiçar a curiosidade e manter o leitor preso até o capítulo final. Michel Laub quer também contar uma história, e a faz muito bem. Ao invés de propor uma solução para todos os problemas levantados por ela, deixa-os ecoando,admitindo que eles ainda tardarão muito tempo para desaparecer.

Trecho selecionado:

No final do discurso, fui informado de que a situação era ainda mais grave por causa da compra iminente da agência pelo grupo Banfeld/McCoy. O grupo Banfeld/McCoy tem uma política de tolerância zero com o racismo, o sexismo, a homofobia e o adultério não igualitário, e os executivos de lá foram selecionados de acordo com uma nova governança de tom e de fala, aliada a uma nova disciplina dos sintomas internos e externos do desejo, algo que impregnou não só a vida corporativa, mas também as artes, o jornalismo, as escolas e universidades, os partidos e instituições públicas, e é claro que a publicidade mastigou esse espírito e o devolveu na forma de mais produtos, ideias e comportamentos a serem consumidos e remunerados, então minha ex-mulher pode ter certeza de que saí do aquário do sócio já consciente da minha derrota: eu caminhei devagar entre as baias, duzentos e tinta funcionários que pareciam estar olhando pra mim, as pessoas andando na avenida Berrini, sem saber que na janela daquele décimo quarto andar há alguém que simboliza o que deve ser condenado e esquecido, o resumo de uma carreira forjada por valores que ficaram para trás na marcha da história e da cultura, um homem branco, de orientação afetiva patriarcal, com humor baseado na depreciação e objetificação de grupos discriminados ao longo dos séculos e milênios, cuja queda se tornou ainda mais patética quando o primeiro post foi publicado nas redes.