Notas sobre “Histórias Naturais” — Marcílio França Castro

capa bonita
  1. A capa do livro é uma máquina de escrever. O estilo literário é descrito pelo próprio autor como “realismo oblíquo”. Esse é o livro de alguém que venera o processo da escrita, que se encanta com a infinitude dos livros, das palavras, dos mundos que se instauram a partir da relação entre textos, da relação entre leituras e do choque entre mundos que essas leituras provocam. Borges, Vila-Matas, Calvino e tantos outros escritores aparecem nas sombras dessas ficções de Marcílio França Castro, ficções que são tributos ao ato de escrever em si mesmo.
  2. “Eu levantava o copo, levava-o à boca, devolvia-o à mesa. Silêncio. Uma saraivada violenta de frases à queima-roupa. Saía faísca do papel.” Nesse trecho do primeiro texto do livro, “Roteiro de duas mãos”, narrativa mais longa de toda a obra, o narrador em primeira pessoa, um datilógrafo que vira dublê de mãos em filmes de escritores, revisita a história da literatura do Século XX, a história de vários clássicos e sua relação com as máquinas de datilografar. A prosa envolve como se lêssemos um romance policial, um thriller. Viramos a página ávidos. Há plot twists. Há intensidade. Em um momento em que dubla Hemingway, o narrador conta: “Vinte anos concentrados entre um disparo e outro, a parte oculta do meu iceberg. ‘They did not say anything’. Na minha cabeça, vinha então o trecho final, o último golpe, e eu disparava em bloco, de uma só vez. ‘They’ll kill him.’ As folhas tombavam no chão, uma a uma.” Esperaríamos tudo de uma narrativa sobre um datilógrafo, menos a dinâmica que Marcílio nos oferece. Datilografar torna-se uma aventura, torna-se uma epopeia. A escrita como uma atividade vital. O ato de escrever abre espaço pra inúmeros atos, até mesmo para a guerra: “Há um poema do Hemingway, talvez você conheça, que define a Corona como uma metralhadora, uma máquina de disparar palavras, que abre caminho para a infantaria da criação. (…) Um tiro na mosca. Afinal, foi uma fabricante de armas, a Remington, que produziu a primeira máquina de escrever que funcionou para valer, com o teclado do jeito como ainda é hoje. Tal como a Corona, que herdou sua mecânica de um revólver. Carregar, engatilhar, disparar. Os mecanismos são os mesmos, o resultado difere.”
  3. “A superfície dos planetas” tem o formato clássico do conto: a sensação de ler a última frase e imediatamente voltar à primeira página. Formato perfeito, uma esfera fechada. As personagens vagam pela estrada e conversam sobre planetas. Sobre Mercúrio, a personagem de Tom fala: “É um planeta intrigante, Tom continuou. Parece um secretário — um pajem do Sol. Acompanha-o e é ofuscado por ele. Mas é traiçoeiro. Só sai às escondidas, e bem nessa hora — a hora da passagem.” Como a aparição de Mercúrio, o conto é este entreato, este momento de passagem. Momento em que pesa a indefinição. Mas não o marasmo: “É a hora do desastre — disse Sara, apertando a nuca de Tom. Não é à toa que tem essas cores: lilás, âmbar, ferrugem. Cores de desastre.” O humor das personagens aparecendo na descrição poética que elas fazem dos planetas. A terceira personagem, Marcela, não quer Saturno: “ — Saturno hoje não aguento. Sedutor demais, violento demais. Quero algo que ainda não vi, mais sombrio, mais distante. Entende? Olha só este nome — Urano. É perverso, é salgado — Urano”.
  4. “Teatro” brinca com o mundo da dramaturgia. O assistente de um ator narra a história e as idiossincrasias deste. Aníbal é um ator que vive encarnando personagens a todo o tempo. Improvisa no teatro e improvisa na vida. Mixa personagens clássicas, mistura falas, trejeitos. Enquanto ele desconcerta todas as outras personagens ao seu redor, nos desconcertamos com a confusão entre teatro e vida.
  5. “O método de Balzac” é a ficção mais curta desta primeira parte do livro. O tema da escrita volta. Dessa vez brincando com a ligação existente, no clássico Balzac, entre suas dívidas e sua literatura.
  6. Na penúltima narrativa da primeira parte, “A história secreta dos mongóis”, entram em cena os mistérios do oriente, os segredos do Império de Genghis Kahn. A cartografia, a escrita, a hereditariedade, o livro. Tudo se entrelaça e nos sugere que há muitos mundos inscritos em nosso mundo — que é de todas essas escrituras que é feita a existência. Um dos contos mais belos da obra.
  7. Por fim, o chamado “Livro I, Coleção de papéis”, se encerra com a narrativa “Aprendizado do jogo”, que nos lembra Cortázar não só título, mas também no clima narrativo, na interação entre as personagens, nas frases e diálogos como: “‘Esse cara narra com afeto, às vezes com delírio’, diz Edgar, referindo-se ao Max. ‘Austeridade não é o forte dele — é isso que me agrada.(…) J. Gil é um senhor metódico, talvez mais velho que o Max. Pertence à linhagem dos locutores limpos, corretos, que veem o jogo como aritmética, como um xadrez. Na voz dele, os jogadores se mexem lisos e justos, quase não se tocam, nem se devem suar. Gil cultua um futebol aristocrático, altivo. Adivinha as jogadas, impõe uma visão completa do campo.” A paixão e encanto com que as personagens falam ganham o leitor. Tantas coisas pequeninas, cotidianas são descritas com um olhar de encanto. O futebol, os planetas, a História Antiga, tudo desperta afetos nas personagens e nos narradores, adquire importância pelos sentimentos que produzem. Marcílio, ao inserir esse texto logo após “A história secreta dos mongóis” realiza um gesto belíssimo. Depois de toda a grandeza de Genghis Khan e da história de seu império, uma narrativa sobre crianças e a magia do futebol. O futebol brasileiro, lado a lado com os segredos do oriente, potencializa essa sensação de multiplicidade do mundo. O futebol como algo tão importante quanto as antigas civilizações. Mas em “Aprendizado do jogo” não há só o lúdico. Estamos em 1970, tempo de militares e repressão. Muitos textos escrevendo-se simultaneamente, muitos gritos abafados nos porões da ditadura.
  8. A segunda parte da obra, “Livro II, Histórias Naturais”, dividida em outras cinco subpartes, reúne textos breves, mais curtos que os da primeira parte, alguns ocupando apenas uma página. Fecham o livro mantendo o magnetismo, ao mesmo tempo ricos e prazerosos, despertando a imediata vontade de relê-los assim que a leitura chega ao fim. Contos sobre amizade, esquecimento, barbeiros, e sempre a escrita, a história, a escrita da história, a vastidão da palavra.
  9. “Histórias Naturais” não é só um tributo à escrita. Suas ficções são também tributos ao próprio tempo do ato de escrever. O tempo da máquina de datilografar, da carta, da escrita à mão. Um tempo quase anti-capitalista da escrita, anti-ansiedade da escrita e da vida. Um tempo que possivelmente não existe mais. Mas não são relatos nostálgicos. São relatos que parecem reconhecer a potência da escrita nesse perder-se, nesse entregar-se ao futuro da leitura, da história, do tempo que não conhecemos ainda e que já se instaura no nosso presente.