O conceito de totalitarismo é um beco sem saída

Hannah Arendt é uma espécie de símbolo do pensamento democrático, progressista e generoso sobre a política. Um antídoto contra o “mal”, entendido como as ideologias stalinistas e fascistas, que não passariam, no fundo, de irmãs “totalitárias”.

Vale a pena acompanhar o raciocínio de Slavoj Zizek para identificar pistas que indicam o quanto esta visão na verdade serve como um obstáculo, uma trava para determinados debates.

O esloveno lembra que nos anos 1970 não havia dúvidas quanto a filiação da teórica dentro da Guerra Fria, alinhada ao império estadunidense em um engajamento contra o comunismo e as ideias de esquerda mais radicais.

Essa exaltação de Arendt talvez seja o sinal mais claro da derrota teórica da esquerda — o fato de a esquerda ter aceitado as coordenadas básicas da democracia liberal (“democracia” versus“totalitarismo” etc.) e agora estar tentando redefinir sua (o)posição dentro desse espaço. A primeira coisa que devemos fazer, portanto, é quebrar sem temor esses tabus liberais: E daí se formos acusados de “antidemocráticos”, “totalitários”…

O caminho para desbloquear esse entrave seria explodir o confinamento dentro destas coordenadas da democracia liberal e abrir espaço para pensar uma crítica que vá na raiz dos problemas da própria democracia. Livrar-nos do conceito de “totalitarismo” seria livrar-nos de um “conceito tampão”, justamente aquilo que nos impede de raciocinar para além deste horizonte histórico imediato.

“Totalitarismo” seria o equivalente, no debate público, ao nome de uma ansiedade, a proibição declarada de anunciar a rejeição às noções liberais hegemônicas. Então, quem fala em romper com esta ordem invariavelmente pertence a este campo nebuloso do mal: nazistas, fascistas, comunistas, revolucionários, todos são “farinha do mesmo saco”, inimigos declarados dos valores genuinamente humanos da nossa sociedade de mercado.

Por isso, talvez não seja tão difícil assim clamar por uma tolerância abstrata em nome da pacificação social, insinuando aqui e ali que talvez as feministas e o Estado Islâmico se movam pelo mesmo impulso irracional; que o fanatismo dos apoiadores de Bernie Sanders é tão nocivo quanto os protestos da Alt-right que saiu às ruas da Virgínia; que o homofóbico raivoso e o militante do movimento negro que rima versos contra a polícia comungariam dos mesmos excessos fanáticos.

É tudo uma questão de tolerância.

Cômoda a situação que pode emergir desse discurso, nos próximos anos. Após a onda de mobilizações que varreu o mundo no começo da década, cujos pontos altos foram a Primavera Árabe e a explosão das juventudes precarizadas europeias — mas concebeu também uma vaga de lutas poderosa na América Latina, tendo nas jornadas de Junho de 2013 uma inesperada renovação do cenário dos movimentos urbanos e de massa no Brasil — o que se delineia nas lutas institucionais é um combate entre a extrema-direita e as velhas democracias moderadas de sempre, com a vitória do velho establishment, agora repaginado com a cara dos novos gestores, como os Macrons da vida.

O que não podemos é ousar ir muito longe. Não é isso que diz Lula, quando sugere que Junho de 2013 não foi nada democrático?

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