“ São vorazes concorrentes.”: Elvira Vigna — “Como se estivesse em palimpsesto de putas”.

Entro num elevador de um prédio antigo e suas portas me trancafiam no espaço fechado, velho conhecido de todos nós. Ele sobe devagar enquanto fica em mim aquela sensação de que estou fazendo algo muito errado, que estou cometendo um engano. Em meio aos barulhos e solavancos, penso “como Elvira Vigna escreveria isso?”. É esse o efeito que me causa Como se estivesse em palimpsesto de putas. Olho o mundo e o que ouço na minha cabeça é a voz daquela narradora. Vejo as luzes da cidade, do alto do décimo quarto andar, e imagino como ela descreveria aquelas luzes. A minha amiga abre a porta de seu apartamento e imagino que lá dentro estarão Lurien, João, Mariana, Lola, e todas as personagens do livro.

A narradora de Como se estivesse em palimpsesto de putas segue com o projeto encontrado em outros livros de Elvira Vigna. Ela narra uma história que não foi inteiramente vivenciada, mas sim contada por um terceiro, no caso, a personagem de João. A medida que conta a história, preenche as possíveis lacunas, pensa, titubeia, retrocede, vai avaliando como a história deve ser escrita. E assim, tijolinho por tijolinho, a história vai sendo traçada em um esforço de memória e urdidura daquilo que não se presenciou integralmente.

Elvira Vigna sabe construir narradores que extraem muita intensidade do banal. Um copo de plástico pode ter um impacto de um meteoro, sendo na trama apenas um copo de plástico, um recipiente que após o uso é amassado e jogado no lixo. Uma estátua de Fernando Pessoa pode servir como mote de uma digressão que ocupa algumas páginas. O neon cafona de uma boate pode ser destruído em sua cafonice e servir como ilustração do patético da vida noturna masculina e sua caçada a prostitutas e bebedeiras. Elvira Vigna parece querer contar o efêmero, sem com esse efêmero extrair grandes momentos de epifania, mas sim dentro de todos esses pequenos e triviais acontecimentos do cotidiano permanecer com a narradora ou narrador, colada a esses eventos, a esses objetos corriqueiros, e extrair poesia desses cenários mundanos sem buscar neles uma profundidade inexistente. Sem arroubos, sem afetação. Uma poética material, sensível

Mas Como se estivesse em palimpsesto de putas tem diferenças com outras obras da autora. Nessa narrativa haverá, sim, grandes eventos. A trama se encerra com mortes, traições, viradas de enredo e acontecimentos espetaculares que não são encontrados tão facilmente em outros momentos da escrita da autora.

Não sou um conhecedor da obra de Elvira Vigna, mas do pouco que li esse livro me pareceu sua obra mais acessível, sem querer com essa definição expressar da minha parte nenhum tipo de juízo de valor. O que me pareceu, na verdade, foi que a autora decidiu conscientemente adentrar em uma história de formato mais “comercial” e com ela construir uma resposta na ficção a outros colegas de editora, principalmente Daniel Galera — a quem Elvira já dedicou um ensaio crítico — construindo um narrador que, apesar de se constituir na primeira pessoa, porta-se em diversos momentos como se estivesse com uma câmera, de maneira objetiva, focalizando tudo com relativa distância e desinteresse. Admitindo que posso estar muito equivocado, parece que Elvira aqui adentra em uma seara muito explorada por autores jovens, como Luísa Geisler, Daniel Pellizzari, o já citado Daniel Galera, dentre vários outros, e mostra seu poder de fogo como autora experiente e habilidosa nas técnicas narrativas tão utilizadas por estes escritores.

Todo o livro é construído sem divisões em capítulos. Uma narração contínua, em parágrafos e frases soltas, também como em palimpsesto. É tudo muito forte. Em qualquer página que abrimos, em qualquer ponto da página que escolhermos, lá estará uma palavra capaz de nos fisgar e nos fazer ler a seguinte e a seguinte, até a última linha.

A sensação que Elvira Vigna causa, essa de nos fazer olhar para o mundo e lembrar de sua narradora, imaginar como ela contaria o mundo que vemos no dia-a-dia, é a sensação que muitos de nós ainda temos quando procuramos uma obra de ficção. A vontade de nos transformarmos, de construir um novo olhar sobre o mundo. É isto que Elvira Vigna faz. Uma esquina, uma rua, aquela que passamos todos os dias nos dois sentidos, um imã de geladeira, tudo se transforma em possibilidade, se desloca, se exibe para nós com outro olhar, ao mesmo tempo que continua sendo para todos nós exatamente aquilo que é, foi e sempre será: uma esquina, uma rua, um ímã.

Elvira Vigna nos conclama a prestarmos atenção. E seus personagens, alguns tão desatentos ao que acontece à sua volta, tão tolos, talvez sejam uma boa e representativa imagem de nós.