Sebald e a fauna das ruínas

Sinto nos parágrafos de Sebald, no fluxo de sua prosa, a sensação de que estou enredado em um movimento interminável, como um feitiço. Seus períodos longos, de vasto fôlego,enredam o leitor em suas paisagens continuadas de ruínas e os perfis de suas personagens, sutis e delicados.

Suas histórias soam como a mágica de algum conto de fadas alemão — extraio a metáfora da própria leitura de Sebald.É como se a voz narrativa falasse, continuamente no mesmo tom, até suspender o efeito do tempo. Sem nenhuma alteração brusca, nenhuma demonstração de surpresa, nenhuma elevação ou diminuição de intensidade. Monocórdia, hipnótica, indivisível, sua escrita flui em direção à paralisia da história, a uma outra era, muito posterior à nossa, instaurando-se confortavelmente no futuro e percorrendo todo um caminho de ruínas para contemplar o verdadeiro sentido que só irromperá ao final desta marcha.

O autor anda de mãos dadas com o anjo da história evocado por seu conterrâneo, Walter Benjamin — sob a inspiração da imagem Angelus Novus, de Paul Klee — aquele que tem a cabeça virada para trás e, empurrado por uma tempestade chamada Progresso, contempla um futuro de ruínas. É através da reconstrução de pequenas trajetórias individuais — às vezes escritores, às vezes um antepassado — e lugares — seu vilarejo de infância, as cidades inglesas que o acolheram, locais em que visita de passagem na Europa ou nos Estados Unidos — que estas ruínas são atravessadas. O passado emerge como um arquivo a ser decifrado, juntamente com fotografias, documentos e gravuras que são coladas à narrativa como complementos e ao mesmo tempo pausas na enxurrada de palavras,descrições e narrativas oferecidas.

Sebald é um historiador, um homem que rememora e um prosador, como gostava de se definir. É um poeta da história, alguém que busca aquilo que foi esquecido e é, quando resgatado, um incômodo para o presente, como a lembrança dos bombardeios aéreos que sofreram diversas cidades alemãs na II Guerra Mundial, tema de algumas de suas conferências mais polêmicas e célebres; um homem que, como suas personagens, caminha sobre os escombros e as cinzas do século XX e aguarda o que será de nós, escrevendo como se toda sua obra fosse um grande epílogo para a história da humanidade até aqui.