Sobre ler “Não há nada lá”, de Joca Reiners Terron

  1. Burrougs, Rimbaud, Pessoa, Crowley, Torquato Neto, Lautreamónt, Roussel e a mulher chamada Lúcia, que supostamente teria visto o milagre de Fátima, em Portugal, confluem para a construção deste pequeno e profano elogio da Literatura. Um hipercubo invocado por forças obscuras surge nos céus, trazendo consigo imagens de serpentes, a própria besta, a virgem Maria, livros e labaredas de fogo. Em capítulos de cortes afiados, as vidas de todos estes personagens, ícones literários, unem-se em torno dos sete selos deste artefato demoníaco e misterioso.
  2. A força da escrita é capaz de dar vida ao mistério de Fátima e mantê-lo alimentado. A força da Literatura, que por tantos séculos foi tratada como uma religião por especialistas e críticos, é aqui demonstrada através de uma exaltação que supera as típicas homenagens pueris à arte. Afinal, o milagre de Fátima só existe porque há uma carta que supostamente revelaria seu segredo. O poder da palavra é o poder da criação de mundos. É da ordem do milagre, mas do milagre da destruição, já que contorce, nega, rejeita as explicações. Destruir o senso comum e instaurar o novo, antecipar o futuro.
  3. Se falta sentido ao mundo, sobra sentido à escrita. Há espaço para o caos e para a torção das noções convencionais de tempo. Os capítulos contam-se regressiva ou progressivamente, em direção ao ponto zero da revelação do segredo de Fátima. É a linguagem em experimentação que funda o tempo e a humanidade, a consciência é apenas um nome diante da trip que envolve tantas figuras que ao fim pertencem à mesma pulsão satânica e misteriosa que move as letras da verdadeira poética do mundo.
  4. A lisergia encontra o fazer literário. As drogas de Burroughs; as aventuras de Rimbaud; a música e os solos psicodélicos de Hendrix em seu encontro com Torquato e depois o passeio deste por Porto Bello Road ouvindo Reggae, evocando a letra de Caetano Veloso; a carruagem louca de Roussel e seus irmãos surrealistas, tudo conflui para a viagem, para o delírio, para o fora. Saltar fora do mundo convencional, da caretice, da linearidade, do princípio — meio — fim, da lógica. Torcer a língua oficial do mundo, a ordem pré determinada das coisas. Pirar.
  5. Joca Terron oferece ao segredo das palavras uma alegoria, uma ode ao mergulho que é o ato de ler. O livro como a potência máxima da vida, como o jorro do inferno, o empuxo para dentro do abismo, a abertura para as trevas e para a entropia, para o negativo, para a ausência, para todo o sentido até sua anulação completa. Para o vazio, onde não há nada, e nunca haverá.