Sobre ler V., de Thomas Pynchon

  1. A jornada empreendida pelos personagens Benny Profane e Herbert Stencil em busca de V., o enigma que dá título à estreia de Pynchon, é tão exaustiva quanto a tentativa de entender plenamente o que se passa com cada nome próprio, cada personagem, lugar ou situação da obra. A introdução de uma quantidade cansativa de fatos, ações, encontros e desencontros produz um tipo muito esquisito de prazer advido da estafa e do esforço. Um livro que é como uma queda de braço.
  2. V. é a busca pela mulher, lugar ou o que quer que se pareça com este mistério ao longo das mais de quinhentas páginas de narrativa. Essa procura aparentemente eterna, que sucede gerações e fornece muito pouco além de pistas falsas e conclusões parciais, às vezes nos dá a impressão de poder se preenchida por quase qualquer lenda concernente ao feminino. De fato, alusões a mitos, a deusas da fertilidade, ao olhar do homem sobre o sexo oposto, ao amor e ao tesão oferecem-se em vários parágrafos. Embora as personagens femininas da narrativa mostrem-se em diversas cenas ainda mais objetificadas que os homens, sofrendo na mão de misóginos, do desdém dos parceiros, das plásticas e cirurgiões, em outras elas parecem dotadas de uma dignidade mágica, de uma força superior e inexplicável que as move adiante e parece dotá-las da capacidade de funcionar como sustentáculo do mundo.
  3. A História, que para Pynchon é algo mais aproximado ao balbucio do louco cheio de som e fúria do que a qualquer sinal de providência ou teleologia, é esmagadora para com os personagens deste romance. Todos eles parecem minúsculos, pequenas engrenagens ou alavancas diante do tempo. Cronos passeia devorando seus filhos ao longo das sentenças. Forças da tradição e do arcaico transmutam-se em imagens populares, em conversas fortuitas, em miragens e acasos, no banal.
  4. A explosão da I e da II Guerra Mundial, o intervalo entre elas, a década de 1950 na qual os personagens embebedam-se ouvindo o jazz e sofrem de um tédio mortal que parece anteceder a próxima hecatombe. O romance se situa entre os escombros das guerras que ocorreram, ou mesmo dentro das bombas que caíram, e a espera das próximas que virão. Civilização e barbárie funcionam como um único e confuso vetor. Há um rumor ao longo das páginas, um burburinho. Um levante de massas talvez esteja prestes a ocorrer. A multidão sem nome está prestes a marchar. Ou será que não?
  5. As imagens cartunescas de caçadas no esgoto a procura de crocodilos são apenas um dos possíveis exemplos a ser sacados de uma história que é mais do que a aparente sucessão de eventos. Os personagens de V. marcham decididos e ao mesmo tempo confusos; vêm e vão, recuam e procedem rumo ao que devem fazer ou acham que é o certo em cada dado momento de suas vidas. Bebedeiras, livros, conversas baratas, sexo, prostituição. É a vida de um pós-guerra desesperançoso, mas também a caricatura de um mundo que ora é pouco familiar, ora é extremamente íntimo de nós. Não se trata apenas de circularidade ou do encontro de um propósito em meio ao aleatório da vida. Não há meta, exceto a busca por V., esta que não se efetiva com uma resposta concisa, e nem mesmo com uma recusa. Ficamos tentados à solução fácil de dizer que ao longo da busca a resposta já foi entregue e V. já foi encontrada, mas é um pouco mais do que isto. O clichê nos impele a sugerir que V. é esta travessia de Manhattan à ilha de Malta narrada no romance, que V. é a própria empreitada de rumar a seu encontro. Mas algo para além do clichê, ainda assim, nos escapa.
  6. Pynchon inventou um leitor disposto à aventura e à dissimulação por meio de um mergulho em monumentos da escrita, calhamaços que parecem desertos intermináveis. Este leitor que atua sobre a obra literária como um investigador do impossível, um homem que se debruça sobre o passado e o presente com o olhar enviesado, contaminado pela mentira. Um leitor que vê com traves nos olhos, e por isso enxerga melhor. V. é o livro que inaugura a odisseia de Pynchon na literatura. Esta onde ainda se pode ouvir o canto ancestral de sereias, musas, ninfas e damas; esta que está preparada para ecoar o canto da música que virá.