Um comentário sobre Aqui, de Richard McGuire

Se há algo que Richard McGuire realiza em Aqui (Here, no título original) é mostrar o que pode uma Graphic Novel. Através de uma exploração criativa da forma, cada página de sua obra exibe diversos fragmentos temporais de um mesmo espaço, o canto de uma sala. Nestes pedaços de tempo podem estar simultaneamente ocorrendo um debate sobre os rumos da Revolução Americana, um momento em que uma família posa para a foto em 1910, um momento de descanso de um dinossauro, uma caçada de um indígena, para ficar em alguns exemplos.

Simples, mas magnético. Rimas e combinações são produzidas ao virar de cada página, repetições de temas ou preocupações. Vistas através de uma enorme duração, as brigas familiares tornam-se ao mesmo tempo pequenas e extremamente intensas, valiosas. Ao invés do clichê de que as vidas breves são insignificantes, o que Aqui nos diz é que todo instante fulgura, que tudo é muito importante e está acontecendo agora, ainda. Da origem da vida na terra ao desaparecimento da humanidade em um futuro século distante, passando por um passeio de homens e mulheres do futuro (“aqui houve uma casa”) com seus gadgets e telas, tudo é comovente: uma queda de uma cadeira, um molho de chaves perdido, uma festa a fantasia (em dado momento várias festas a fantasia, de diferentes épocas, são postas lado a lado, em uma das mais elegantes sugestões da Graphic Novel).

Enquanto a família assiste televisão, em um dado momento, o programa veicula a sabida informação de que um dia o sol irá se apagar e a vida neste planeta irá se extinguir, mas tal informação é recebida como mais uma efemeridade entre outras. É disso que se trata. Aqui mostra as pessoas vivendo suas vidas alheias ao caos que é o tempo, envolvendo-se em suas querelas pessoais, não porque sejam tolas e não saibam que o mundo vai acabar, mas precisamente porque tem certeza disso, embora criem máscaras cotidianas para seguir em frente. A obra não oferece apenas uma face melancólica, mas também uma percepção muito ativa do tempo, uma que vê em cada espaço do mundo real a multiplicação incessante de milhares de acontecimentos e histórias, uma percepção de que o passado é uma fonte infinita de eventos grandiosos e inalcançáveis.

A maior parte do tempo acompanhamos familiares vivendo nas décadas do século XX. Isto é não só uma decisão que guia a obra, colocando como centro de tudo a vida doméstica, de modo a direcionar o leitor e salientar os dramas pessoais, mas mais do que isso, é uma decisão que serve para nos atentar da força e densidade do século XX, com suas mudanças de hábitos e vestuário servindo como marcadores temporais de uma era que acumulou mais imagens, fotos e vestígios do que nenhuma outra e que nos legou um alargamento de nossa percepção temporal e espacial.

Aqui não foi feita somente para comover, mas também para servir como um documento de celebração da grandiosidade da terra e de nós, parte dela. Uma celebração, consequentemente, da Graphic Novel. Na verdade, uma celebração de tudo o que ainda pode ser feito e explorado no formato, até antes do fim e do esquecimento.

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