Um comentário sobre o romance A resistência de Júlian Fuks

Vencedor do prêmio Jabuti, o novo romance de Júlian Fuks mostra um narrador vagando à procura de respostas para o seu passado familiar. A origem de seu irmão adotivo, a origem de decisões da própria família, que remontam ao período das ditaduras militares na América Latina. Vagando entre Brasil e Argentina, o narrador escreve a própria ausência de respostas, como que para demarcá-las e afirmar sua existência.

A palavra presente no título é murmurada em todos os capítulos. Murmurada porque em nenhum momento o tom se eleva para além de uma conversa em voz baixa. Há um bom domínio narrativo, de uma escrita contida e que só pode enunciar em poucas palavras o muito que tem a dizer. Em um dos momentos mais pujantes do livro o narrador afirma que o próprio ato de ter filhos pode ser concebido como um ato de resistência, resistência do corpo feminino, resistência dos pais em educar e criar novas vidas em meio a um mundo de barbárie.

São muitas as narrativas que correm quase silenciosamente dentro do livro. É possível observar um debate sobre identidade e militância política escorrendo sutil por entre os capítulos. Se os pais do narrador se engajaram na luta política nos anos 1960 e declinaram da luta armada, que viram como um suicídio, o que resta aos jovens da geração do narrador, nascidos nos anos 1980? Essa é uma das muitas intrigantes questões levantadas.

Supostamente, a narrativa deveria concentrar-se no irmão adotivo, mas não é o que acontece. Ele funciona mais como um centro agregador de problemas, dilemas e reflexões. É verdade que as partes mais tocantes e climáticas são geradas através dos conflitos envolvendo a orfandade, mas o livro utiliza essas questões para ir muito além. O órfão, o irmão que parece nunca sentir integrar-se a família, parece aqui convidar a uma leitura também sobre os tempos do pós-ditadura, sobre a emergência de novos sujeitos, ou mesmo sobre aquilo que nos tornamos, todos nós desconhecendo ao certo nossas verdadeiras origens e até que ponto essa busca por um ponto fundacional da nossa existência pode ser vã.

A resistência cresce por ressoar questões como o período do regime militar, os silêncios políticos, culturais e familiares provenientes do período e que continuam a reverberar mesmo com o fim “oficial” dos regimes. Os silêncios que envolvem também as relações familiares. Acredito que há até a possibilidade de uma leitura alegórica, o filho adotivo assumindo a função de um Outro, função aberta que pode convidar a diversas interpretações.

O pior do livro é, infelizmente, como o autor praticamente desenha que está constituindo uma narrativa sobre o fracasso, principalmente sobre o fracasso de escrever. Essas são as partes que mais incomodam e poderiam ser suprimidas na narrativa. Há páginas inteiras sobre essa impossibilidade de escrever/narrar que são muito acomodadas no lugar comum, comprometendo o romance e o inserindo no terreno do regular. Esta problemática da impossibilidade da narração já estava “dita” desde o começo da narrativa e se desenvolvia com fluidez ao longo dos capítulos. Gastar tantas páginas em parágrafos tão óbvios acabou por comprometer a coesão da obra.

Ainda que levante diversas questões, funcionando como uma incômoda caixa de perguntas e de captura de um sentimento, difuso, de incompreensão coletiva, A resistência é um livro irregular por explicitar partes do jogo narrativo que poderiam estar ocultas. O livro não se adequa nos parágrafos que se aproximam do formato do ensaio, versando sobre temas como o ato de escrever e sobre a relação entre mentira, verdade e ficção. Nos momentos menos contidos, ou que revelam as suas reais estratégias por trás da contenção, o livro cai e perde em poder de fogo.