Uma crônica do Japão moderno — “Voragem” — Junichiro Tanizaki

Boa parte do melhor das obras de literatura japonesa do século XX, principalmente de sua primeira metade, abordaram o problema das transformações sociais da modernização, em específico, do conflito entre a destruição das velhas tradições e o avanço desenfreado dos costumes ocidentais. A tetralogia Mar da fertilidade de Mishima, alguns romances de Kawabata, contos de Akutagawa e Kenzaburo Oe, pra não falar do cinema, com obras de Kurosawa e o clássico “Era uma vez em Tóquio” de Yasujiro Ozue, são exemplos de obras que exploram conflitos em torno desse embate entre o velho dos antigos costumes e práticas culturais e o novo representado não só pelas máquinas e pela tecnologia mas por novos hábitos exportados do Ocidente.

Voragem foi escrito no Japão da década de 1920 e se passa na Osaka da mesma época. Influenciado por Fitzgerald e outros autores ocidentais, Junichiro Tanizaki desenvolve uma trama que parte de um casamento infeliz entre Kakiuchi e sua esposa, a narradora Sonoko. Após esta trair o marido, estremecendo o matrimônio, estes se reconciliam e buscam recomeçar do zero. A esposa, porém, começa a se envolver com uma colega da sua turma de arte, Mitsuko. É a partir desse relacionamento lésbico que outras personagens vão ser arrastadas para dentro do conflito, como Watanabe, a camareira Oume e a família de Mitsuko.

A história é toda contada por Sonoko a um escritor que ela chama de Sensei, na obra o próprio autor Junichiro Tanizaki. Toda a narração constrói a imagem de uma Sonoko pura e manipulada, ora por Mitsuko, ora por Watanabe, de quem esta vai revelar-se como mero joguete.

A maior parte dos choques do romance se deve ao medo do julgamento moral da sociedade. Todo o medo das personagens é que sua vida privada transborde e se transforme em escândalos públicos. Seja o suposto relacionamento lésbico do começo da narrativa, seja a gravidez indesejada ou mesmo a impotência de outra das personagens, toda a luta dos personagens é para manter seus problemas conjugais longe da mira da sociedade conservadora. Aqui está entrelaçado o problema da transmutação cultural que o Japão sofre no período. A conservadora sociedade tradicional é invadida por novos hábitos, costumes e práticas que precisam ser soterradas e silenciadas. Por outro lado, a sociedade ocidental traz consigo a hipocrisia da sua separação entre vida pública e privada, uma formalidade que não poupa a vida de nenhuma família, que vê-se às voltas com infernos particulares justamente pela pressão dessa moral imposta culturalmente.

Watanabe é a personagem que melhor representa esse clima de adaptação ao mundo burguês através de sua paranoia contratualista. Tenta a todo custo submeter todas as relações de que faz parte a contratos, assinaturas, termos de conduta e ajustes jurídicos. Com estes em mãos faz ameaças e intimidações, promete difundir os segredos íntimos de seus desafetos à imprensa, difamá-los. O jornal diário torna-se uma arena de combate, já que há sempre o temor de que as fofocas da vida privada vazem e se alastrem formando escândalos e destruindo reputações.

Mas Watanabe é também um desenho feito pelo relato de Sonoko. Pouco confiável, observada atentamente sua narrativa pode indicar que é dela que partem muitas das chantagens e manipulações. À medida que o romance se aproxima do final é quase impossível confiar em algum pedaço daquilo que nos foi entregue. Seu marido, que no começo da história parece ser um homem apagado e de pulso fraco revela-se a mais decidida e determinada personagem, a única capaz de solucionar os problemas que permeiam a relação entre Sonoko e Mitsuko. Porém, a ele está destinada também a tragédia final.

O ritmo é folhetinesco, os capítulos são geralmente curtos e são poucas as personagens; mas todas com uma respiração própria,maneiras específicas de encadear as frases. A leitura nos prende principalmente pela forma com que os problemas são colocados e com o ritmo no qual a trama vai se desenvolvendo e encaminhando suas resoluções. Há pouca preocupação com a descrição de cenários e ambientações e mais com a focalização de hábitos, costumes, medos e posturas privadas. 
É um romance sobre cotidianos abalados, medos, paixões em conflito com a moral vigente, mas, principalmente, sobre dissimulação, componente decisivo para o mundo da intimidade e falsidade burguesa.