Alarde: o que mais me chamou a atenção na prisão de Cunha

(Créditos: José Cruz/Agência Brasil)

Me chamou a atenção todo o alarde por conta da prisão de Eduardo Cunha. Quando entrei no Twitter, logo após a minha hora de almoço, não se falava em outra coisa — e, aliás, como se falava. Sejam posts de alívio, de ódio, de alegria, os tão famosos memes… tinha tweet pra tudo que é tipo.

No Brasil, parece que se tornou impossível observar algo sem defender a sua ideia com unhas e dentes — o que, muitas vezes, cai no poço da ignorância e da desinteligência que, infelizmente, se tornou comum nos dias de hoje. Vi poucos posts com o mínimo de sobriedade ou discrição: o exagero reinou.

Os que abominam a figura de Eduardo Cunha (eu sou um deles) comemoraram a prisão — acho que qualquer brasileiro que não gosta de atos danosos ou imorais ao país fez isso, aliás. Alguns mais radicais (não sou desses) ironizaram o fato de Cunha estar preso e outros (como Lula, Dilma e afins) estarem em liberdade. Aqui começam os posicionamentos que acho deploráveis.

Os que foram favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff (ou, como eu prefiro chamar, golpe) e tinham pelo menos alguma reserva por ter sido Eduardo Cunha o responsável por começar todo o trâmite do impedimento da presidente falavam, quase que em uníssono, que o próximo seria Lula.

Aqui, temos que apontar os dedos para os dois extremos — como é do meu agrado, já que sou dos que acha que extremos quase nunca são favoráveis ao bom senso e à boa convivência. Ironizar porque um está preso e o seu antagonista não é de uma imaturidade que me enoja. E, bem, ninguém tem como saber ~~quem vai ser o próximo — a não ser que tenha alguma informação privilegiada. Fora que não comemorar a prisão de uma pessoa tão nefasta é, para mim, passar um imenso recibo de que você coloca a sua visão política na frente dos interesses nacionais. Bem eles, que adoram falaram que ~a bandeira do Brasil é verde-e-amarela e não vermelha~, numa retórica que em muito lembra a da ditadura militar.

(Créditos: André Dusek/Estadão Conteúdo

O que eu não vejo quase ninguém comentando: em um país minimamente sério, Eduardo Cunha seria impedido de cuidar de um jardim para impedir que um cidadão tão avesso a atos minimamente morais roubasse sementes. Ele tem contra si uma série (para não dizer uma infinidade) de crimes. A prisão dele seria a atitude mais normal do mundo e não deveria chamar a atenção de ninguém. No Brasil, onde a lógica é bem peculiar (para não dizer inexistente), a prisão de um completo fora da lei mexe com todo mundo — que, pacientemente ou de maneira irresponsável, busca a justiça a qualquer custo.

Isso, claro, observando apenas as redes sociais — mais precisamente o Twitter, pautada por notícias instantâneas e plataforma que o blogueiro mais usa. O brasileiro comum, que pouco tem acesso à internet e não dispõe de TV a cabo, passou longe de ficar sabendo da prisão preventiva de Eduardo Cunha. Pasmem: a TV Globo não deu sequer um Plantão para anunciar o que está acontecendo com o o outrora presidente de Câmara dos Deputados.

Desde 2015 a TV Globo derrubou a sua programação inúmeras vezes para mostrar protestos a favor do impeachment, quase sempre aos domingos. A sessão que fez o impedimento passar na Câmara fez toda programação global de domingo cair — incluindo o Domingão do Faustão e o futebol, que já tinham sido cortados, diminuídos ou escanteados em outras datas. Atos como prisões ou conduções de suspeitos da Operação Lava-Jato eram transmitidas logo pela manhã ao vivo e seguiam, sempre com destaque na programação da segunda maior emissora de televisão do mundo.

Se a prisão de Cunha é ótima para o país, precisamos rever muita coisa que a circunda. Todo esse alarde é uma delas.