Demitir Ricardo Gomes é o pior que o São Paulo pode fazer agora

(Créditos: Rubens Chiri/saopaulofc.net)

Quando Ricardo Gomes chegou ao São Paulo para substituir Edgardo Bauza, dá pra contar nos dedos quantos são-paulinos aprovaram a contratação. Eu mesmo tinha minhas ressalvas — embora, diante de outras opções ventiladas, achei o nome razoável. Quando o novo técnico chega sob tanta desconfiança, é até natural que o desgaste entre ele, os jogadores, a torcida e a diretoria seja rápido. Não foi diferente com o atual técnico do SPFC.

Não cabe aqui culpar os antigos treinadores estrangeiros (Juan Carlos Osorio e Edgardo Bauza; que, aliás, foram dos raros acertos da diretoria são-paulina nos últimos tempos) nem muito menos os interinos (Doriva nunca soube o que fez no São Paulo, Milton Cruz era um eterno tampão em campo e André Jardine ainda está muito cru). Na realidade, esse texto também não quer defender Ricardo Gomes. Quero apenas jogar luzes em outros pontos: a diretoria, a torcida e uma análise um pouco menos fria dos resultados.

Em doze jogos, Ricardo Gomes tem três vitórias, quatro empates e cinco derrotas. Péssimos números, é verdade. Convém, porém, pensar na dimensão desses resultados. Antes, o indefensável: a eliminação bisonha do São Paulo na Copa do Brasil para o Juventude (que trouxe uma vitória e uma derrota no histórico mencionado) não tem explicação nenhuma.

Em casa e com Ricardo Gomes, o São Paulo empatou com Coritiba (outro resultado difícil de digerir) e Flamengo (grande resultado, já que o time carioca deveria nos atropelar — haja vista a diferença na tabela e no momento dos clubes); perdeu para o Santos (jogando melhor que o Peixe, que é bem superior a nós) e venceu Cruzeiro e Figueirense (em lutas diretas contra o rebaixamento).

Fora de casa, o Tricolor empatou com Internacional (não perder fora de casa contra um time que luta pelo mesmo que você é sempre bom) e Sport (jogando melhor que o Leão, sobretudo no primeiro tempo) e perdeu para Palmeiras (vendendo bem caro a derrota num estádio que o São Paulo nunca conseguiu um ponto sequer), Atlético Paranaense (em um estádio no qual o time NUNCA venceu) e Vitória (com bola na trave e gol mal anulado).

A tabela, que foi bem dura com Ricardo Gomes, promete ficar bem mais tranquila para o técnico tão logo acabe a próxima rodada, contra o Fluminense — jogo em que um empate pode ser considerado uma vitória.

(Créditos: Agência Estado/Reprodução)

Com trinta e seis pontos, o São Paulo precisa de dez para escapar de qualquer perigo de rebaixamento. Jogando contra Ponte Preta (que não almeja mais nada no Brasileirão), Santa Cruz (na última rodada, muito provavelmente já rebaixado), Corinthians (que não nos vence no Morumbi pelo Brasileirão desde 2010) e Grêmio (que parece não conseguir sair do meio da tabela) em casa em casa e contra América (virtualmente rebaixado) e Chapecoense (que não almeja mais nada no torneio) fora, é bem capaz que consigamos bem mais que esses dez pontos. Em minhas contas, conseguimos entre doze e quinze pontos nessa sequência. O jogo restante, contra o Atlético Mineiro (que briga pelo título) no Independência, é praticamente um caso perdido.

Não creio que seja tão otimista assim. Creio que é apenas refletir um pouco sobre o que acontece em cada partida e jogar com cenários bem verossímeis.O resultado nunca pode ser tudo no futebol (ao contrário do que muita gente e o ditado popular tenta te provar), e a torcida são-paulina adora julgar qualquer um apenas por vitórias, empates e derrotas.

A torcida do São Paulo é nojenta. Falo isso sem medo por fazer parte dela, embora sempre critique-a. Não por sua passionalidade (até porque ela é conhecida por só ir apoiar o time nos bons momentos), mas por sua ignorância que extrapola qualquer limite. Ninguém é capaz de reconhecer boas partidas se o time perde, assim como o primeiro a ser queimado são sempre um grupelho de jogadores (os de agora são Wesley, Michel Bastos e Carlinhos) e/ou o técnico. Quando puxam algum grito contra a diretoria, ou ele é abafado ou não tem sequência.

Apenas após a eliminação do São Paulo na Libertadores a diretoria rompeu com a Independente, principal organizada do time — e, ainda sim, só por conta de um quebra-pau homérico após a derrota para o Atlético Nacional de Medellín. A torcida, então, ameaçou fazer oposição à diretoria, mas pouco conseguiu espaço. Compensa mais criticar o time e o técnico, algo que é apoiado pelos não-organizados — e igualmente ignorantes.

Após o Brasileirão eu mesmo demitira Ricardo Gomes. Ele não é o meu técnico dos sonhos e eu prefiro alguns outros (como Roger Machado eReinaldo Rueda) para um projeto sólido. Demiti-lo agora, sem saber quem colocar e sem saber como time e torcida lidarão com isso, seria um desastre. E adivinha só o que começa a circular na imprensa: caso Ricardo Gomes não vença o Fluminense fora de casa (algo que, até aqui, apenas os postulantes ao título Palmeiras, Flamengo e Santos e a Chapecoense conseguiram), ele sai. É amadorismo demais para uma dirigência só.

Antes de gritar contra Ricardo Gomes ou contra os mesmos jogadores de sempre, grite contra aqueles que colocaram o São Paulo na lama desde o terceiro mandato de Juvenal Juvêncio: os diretores.