Tragédia? O 2016 do São Paulo foi muito melhor que a encomenda

Um clube que teve a proeza de ter um processo de impeachment depois de uma série inacreditável de fatos. Um time que passou por uma humilhação daquelas ao perder para o maior rival com o time reserva e já campeão. Um elenco que só conseguiu se classificar para a Copa Libertadores depois de dois jogos de nível técnico horrendo e com gols no final de cada uma dessas partidas. Uma casamata que teve quatro treinadores.

Esse foi o São Paulo de 2015, em suma. Um ano que merecia muito menos do que foi conseguido — obrigado Juan Carlos Osorio, Paulo Henrique Ganso e Alexandre Pato, que levaram o time nas costas rumo à Libertadores. O 2016 da equipe tinha tudo para ser uma verdadeira tragédia.

Muitos torcedores realmente devem achar que o 2016 do São Paulo foi uma tragédia de fato — muito por conta de mais um ano sem títulos conquistados e por um ou outro flerte com a Zona de Rebaixamento. A frase que esses torcedores falam é algo como “Isso é muito pouco para um clube tão grande quanto o São Paulo”.

Sim, é mesmo. Mas os torcedores, no alto do clubismo e arrogância (características que perseguem a torcida são-paulina desde sempre), não veem que o futebol é feito de fases. E a fase atual do São Paulo é ruim por conta do péssimo planejamento e de diretorias que não cansam de fazer besteiras — desde 2011, aliás.

Pensemos aqui, friamente:

- O São Paulo chegou a uma semifinal de Libertadores — foi o melhor time do Brasil na competição e foi mais longe que clubes na crista da onda (River Plate, Corinthians, Rosario Central e Palmeiras, além de ter parado na mesma fase do Boca Juniors). O Tricolor só foi eliminado pelo campeão Atlético Nacional de Medellín, e após duas partidas com erros absurdos de arbitragem

- Apesar de por vezes flertar com a Zona de Rebaixamento, o São Paulo não encerrou nenhuma rodada no Z4 — algo até surpreendente para quem veio de um 2015 tão ruim

- O São Paulo fez 4x0 no Corinthians, dando um troco moral no maior rival no chamado “M4jestoso da Cuevadinha” — que teve, além de tudo, no mínimo duas expulsões claras não executadas pelo árbitro e que prejudicaram o resultado final do jogo

- O São Paulo manteve o tabu ante o Palmeiras (outro grande rival) no Moumbi: o time alviverde não ganha do Tricolor fora de casa desde 2002. O lance teve o épico lance no qual Kelvin entortou Zé Roberto

- Tão criticado por muitos (não sou desse grupo), o técnico Edgardo Bauza deixou um legado no São Paulo: a fortíssima defesa. O SPFC acabou o Brasileirão com a quinta melhor defesa do campeonato: apenas trinta e seis gols sofridos. O sistema consagrou Maicon, que logo tornou-se ídolo da torcida

- Depois de anos e anos, um antigo pedido da torcida e da diretoria foi atendido: a valorização das categorias de base. Dos quarenta e um jogadores utilizados só no Brasileirão, quinze vieram do tão falado CT de Cotia

- Se a diretoria seguiu trazendo jogadores que em nada agregaram e não pôde fazer muito quanto a craques que saíram (sobretudo Ganso e Calleri), dois caíram como uma luva no time: Christian Cueva e Maicon

Tragédia? Como pode ver, o são-paulino tem que agradecer aos céus pelo 2016 que teve. Foi muito melhor que a encomenda. E, vale dizer: 2017 ainda não vai ser o ano do Tricolor, que precisa se reconstruir e voltar a ser protagonismo. Vale dizer sempre que, até 2005, o São Paulo bateu na trave desde 2002, no mínimo.

O ano é 2018. Se o clube seguir controlando bem o dinheiro (dos poucos pontos positivos da gestão do presidente Leco), o Tricolor pode voltar a sonhar com algo grande em dois anos. Jamais apostaria em Rogério Ceni para 2017, mas obviamente vou torcer para que ele consiga bons resultados.

Que 2017 seja surpreendentemente positivo, bem como 2016. E sem deixar margem para dúvida.