Valeu, querida

Para escrever “Ensaio Sobre a Cegueira”, Saramago criou uma “treva branca” para levar quase todo mundo a situações extremas. Acho curioso ver que uma das tantas nomenclaturas que dão para o que está acontecendo no Brasil é “golpe branco”. É simples: tá todo mundo cego, se debatendo e correndo pra todas as direções, vociferando meia dúzia de palavras de ódio travestidas em palavras de ordem. Inteligência e discernimento que é bom tá faltando.

Diz um provérbio persa:

“Calar-se quando é preciso falar indica fraqueza”.

Em tempos tão intolerantes, prefiro pecar pelo erro do que pela omissão: sim, é golpe. Golpe Legislativo, golpe branco, chame como quiser. Treva branca. Dessas que podem nos levar primeiro à penúria e, depois, à escuridão.

Não, eu não sou socialista, comunista, petista, petralha ou afins. Nunca votei no PT num primeiro turno Executivo, quando eu posso escolher o melhor e não o menos pior. Eu tô falando do bom senso, de consciência.

Meu voto no segundo turno das eleições presidenciais de 2014 foi na Dilma. Eu tinha uma pessoa que eu sabia que não era a mais apta pra ser presidente, mas em quem eu confiava; e tinha outro que eu sabia que poderia ser um bom gestor, mas não me inspirava nenhuma confiança. Fiquei com a primeira opção — e sigo sem me arrepender dela.

Ela não é santa, óbvio. Mas ela sabe muito bem que fez bem menos que tantos outros que sequer são investigados. Parece que a tal ~justiça~ escolhe muito bem qual balança vai ficar mais pesada aqui no Brasil. Sempre foi assim, na verdade.

Dilma enfrentou de frente até a inversão da Espiral do Silêncio. Noelle-Neumann não saberia explicar como os derrotados em 2014 ganharam as ruas com tanta força e, sem mais nem menos, passaram a ser tratados como maioria. Bem, acho que a explicação tá na mesma Comunicação na qual essa teoria foi concebida.

É óbvio que ela também errou. Errou mantendo um ministro da Fazenda tão defasado quanto Guido Mantega por tanto tempo, mesmo sabendo que tudo estava indo pro ralo. Nem a lealdade, esse sentimento tão bonito, explica a insistência nesse erro. Bem na Fazenda/Economia que, em tese, foi o motivo do impeachment.

Em tese, claro. Todo mundo aqui sabe que o que tá em jogo não é a Economia, e sim a tirada de um grupo do poder (que tá há catorze anos lá) pra colocar outro (o dos que mandaram no Brasil nos quinhentos e dois anteriores). Quando encontraram o menor motivo pra isso, atacaram.

Quando você fala que “o PT só não quer abandonar o poder”, olhe-se no espelho. O partido/político que você apoia nacionalmente tá, com certeza, mais enrolado que aquela que você quer tirar do poder. Dessa vez não “é a economia, estúpido”. Noelle-Neumann errou, James Carville também.

Mesmo errando, poucas vezes senti tanto orgulho de um político quanto senti de Dilma Rousseff ontem, enquanto ela se defendia de senadores que são muito mais culpados pelo Brasil ser o eterno país do futuro que ela. Falando errado, se atrapalhando e confusa, mas íntegra e não tendo que se esconder de ninguém.

Sou ingênuo, mas sei que Dilma vai ser cassada hoje. Bem como disse Zapata, ela preferiu morrer de pé a viver de joelhos — como seus detratores sempre fizeram. Vai com seu caráter ilibado, levando consigo os erros técnicos de quem nem deveria estar ali. Azar maior é do grupo que a escolheu — tão sujos quanto quem os acusa.

Como última citação, cabe relembrar De Gaulle:

“O Brasil não é um país pra ser levado a sério”.

Esses tempos de intolerância, golpe branco e treva branca falam por si só.

A foto dessa postagem diz muito. Em primeiro plano, o olhar triste e a cabeça baixa de quem não tem nada a esconder. O Brasil ficou pra trás, a ordem foi cortada e o progresso tá caindo.

Por fim: tô de olho em quem pede a saída da Dilma e se omite com tudo o que Temer e seus quetais fazem. Com os que serão do governo, minhas críticas virão em dobro pela falta de caráter de boa parte deles.

Valeu, querida.