ANTES SÓ, DO QUE MAL ESTABELECIDO

Entre os conflitos que travo em minha própria mente no dia a dia, penso sobre a forma com que me relaciono com as pessoas, avalio as primeiras impressões, os olhares e as expressões. Concluo que sou um arrogante, um verdadeiro homem fátuo, um fátuo silencioso. O homem, em toda sua historia, sempre teve necessidade de viver em sociedade, e nela, estabelecer vínculos, e em si construir a sua personalidade a partir dela mesma, pois o homem é constituído pela forma com que ele se relaciona com o ambiente, e só então, se torna um ser subjetivo e socializado. Mas, e se ele não tiver isso? Um ser não-social, seria um alheio a sociedade, ao afirmarmos que todo ser somente se torna social, a partir do momento em que deve se estabelecer vínculos com ela. Seria possível, um ser, o ser humano, ser um não-social? Ou então, o não-social não pode ser tornar humano até que se estabeleça vínculos visíveis com a sociedade? Vivemos uma Sociedade Liquida, como nomeado por Zigmund Bauman para representar a sociedade contemporânea, onde nenhuma relação é sólida. E realmente, mais do que nunca em toda a historia da humanidade, o homem procura por sentimentos imediatos e não longevos, o homem precisa ser visto e cada vez mais ele precisa ser notado para lembrar pessoas das quais ele nem estabeleceu vínculos, a sua existência, o que acontece na maior parte das Redes Sociais. Temos aqui um verdadeiro paradoxo do ser tão fátuo e não-social, que ama ser percebido por pessoas das quais muitas vezes não tem vínculo, e na maior ainda das vezes, não quer nem estabelecer tais vínculos. Cheguemos ao ponto, ser social está mais ligado a ser visto, exibir a popularidade do que realmente estabelecer vínculos com a sociedade.
O ser não-social não é bem visto na modernidade, talvez nunca fora, pois o ser social deve estabelecer vínculos para se construir como ser humano, cidadão, logo, a sua moral e a sua ética e senso de justiça não devem estar bem estabelecidos ou estão deturpados, caso você não tenha uma boa relação com sua própria sociedade, se tornando um antissocial. Um pensamento equívoco, creio eu, ser ou não social, ter em mente o senso de ética e moral é algo interdependente entre a mente e como você enxerga (e se enxerga) na sociedade, e não dependente dos laços que constrói com ela no decorrer da vida, independente de você ter ou não uma boa relação com uma sociedade, se você não se sente parte dela, você então é livre para fazer o que bem quiser sem se preocupar com as consequências, você pode se relacionar o melhor possível com quantas pessoas você quiser, se você não se sente bem estabelecido, uma barbárie pode ser cometida igualmente por alguém antissocial. Não raro são pessoas que se sentem alheias a sociedade e insuficientemente capazes de estabelecer vínculos mas isso não significa que ela será um antissocial . Um ser totalmente não-social estabeleceria poucos vínculos, mas dos poucos, os mais fortes e mais intensos. Possibilitando a si mesmo uma forma de defesa contra más companhias ou vampiros emocionais.
Ser não-social não é ser desprovido de vínculos, nem sentimentos ou afetividade, é guarda-las para pessoas que realmente a tomam e retribuam à altura. Talvez um dos pilares que a Sociedade Liquida se sustenta é de que a necessidade de se ter muitos vínculos é reconfortante, podendo substituí-los frequentemente, enquanto isso é reconfortante para os altamente qualificados para serem sociáveis, para outros com dificuldades, é uma demanda muito grande e acabam se culpado por isso, timidez não é determinada somente pelo organismo ou por experiências passadas, é um processo complexo e independente de tais fatores, juntamente com fatores sociais. Cada qual se constrói no meio pela forma recíproca em que vêem o indivíduo, e como ele e se vê na sociedade, os que não conseguem se relacionar, pode estar ligado ao medo, pré-conceito, e muitos outros fatores. Mas a pergunta que devemos fazer não é qual a sua relação com a sociedade, e sim COMO você se relaciona com ela, a partir disto, poderemos começar a enxergar e complexar esse fenômeno, não nos enxergarem como seres incapazes, patológicos ou até mesmo antissociais, e sim pessoas em construção. Não sei dizer se sou um ser não-social ou não, mas também não me rotulo como tímido, sou um ser em constante construção e consequente de como me enxergo e como os outros me enxergam, meus vínculos são bem estabelecidos, mas nunca me senti confortável ou satisfeito em nenhum tipo de grupo.
“Nunca me adaptei adequadamente a nenhum grupo social, jamais fui capaz de me encontrar completamente como indivíduo na presença de alguma pessoa ou de algum sistema, e, embora não ignorando os interesses da vida, do sentimento e do pensamento coletivo, sempre me mantive isolado, crítico e insatisfeito” — William McDougall (1871–1938)
Ser como eu sou, me constitui e me liberta ao mesmo tempo que limita minha conduta, é algo que não se tem nome, mas esteve comigo desde um certo tempo, não se sabe quando começou, mas sei que vivo o suficiente pra dizer que eu me acostumei com isso, e de certa forma, se tornou a minha melhor companhia.
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