A ponte japonesa e a minha história com a arte

A ponte Japonesa, Giverny, outubro de 2013

A imagem era de uma ponte florida e não me saiu mais da memória, guardei o recorte. Anos depois, na aula de artes, reconheci a gravura estampada no livro. “O lago das Ninfeias, de Claude Monet, Musée D’Orsay, Paris”, dizia a legenda. O texto explicava que era um pintor impressionista, aprendi a expressão e a tomei como referência das pinturas que eu gostava.

A minha relação com a arte nasceu assim intuitivamente. Terminado o ano letivo, recortei todas as gravuras “bonitas” do livro que julgava. Sem saber começava a criar uma espécie de acervo.

Mais de dez anos depois, lá estou eu: Musée D’Orsay. É o museu mais bonito de Paris. Tem uma galeria atrativa, com curadoria e expografia impecáveis. Bem diferente dos excessos do Louvre.

Eu já sabia que o terceiro andar era inteiramente dedicado aos pintores impressionistas. Senti-me em casa: Renoir, Monet, Manet, Degas, Pissarro… Eu tinha sido transportada para a atmosfera de meados do século XIX. Imagens de livros, aulas e do meu acervo de gravuras passavam agora diante de meus olhos. Por dentro, eu pulava de alegria. Em pensamento, estavam comigo os professores e os amigos que também amavam os impressionistas. Sem estar preparada me deparei com a minha memória de infância: a ponte japonesa, retrata na pintura “O lago das Ninfeias”. Ao lado, outra versão do mesmo quadro. A diferença estava na paleta de cores que variava conforme a estação do ano. Se eu pudesse, tinha abraçado a obra. Respirei fundo, abraçando o que sentia.

Ali, rodeada pelo acervo do D’Orsay comecei a ter dimensão do que me aguardava em Giverny. Aquele jardim, situado no interior da Normandia, era a verdadeira “musa inspiradora” do pintor. Além de ser sua casa e refúgio. Não raro, Monet pintava diferentes quadros das mesmas paisagens em estações do ano distintas ou em momentos diferentes ao longo do dia, registrando a mudança da incidência de luz. Uma verdadeira aula sobre cor.

Giverny

Quinze de outubro de 2013. Perto de nove horas da manhã desembarco na estação de trem de Vernon, a mais próxima do vilarejo de Giverny. Depois de um rápido trajeto de ônibus chego à porta da casa. A expectativa é grande a imagem supera em cada detalhe tudo que se possa imaginar. “UAU! Esse é o jardim de Monet!” O conjunto impressiona pela composição das cores no paisagismo e o mimetismo entre a realidade e as várias obras do artista.

Visitei primeiro a casa de campo. Quando achei que nada mais me surpreenderia, encontro o conjunto: cozinha azul, de azulejos bizantinos e com panelas de cobre penduradas acima do fogão de lenha e, ao lado, a sala de jantar amarela com porcelanas e mobiliário tradicional da época. Os dois espaços repletos de pequenos detalhes desde miniaturas de animais até as pinturas japonesas na parede, pertencentes à coleção do artista. Lembrei-me da minha avó porque essa era a cozinha de nossos sonhos.

Continuando a visita a expectativa começou a crescer em mim. Lá estava ela, a ponte japonesa. A minha primeira memória, imagem-relíquia que eu guardei por afeto. A cena era perfeita e de novo uma emoção sem tamanho tomou conta de mim. Dessa vez, eu chorei feito chuva com arco-íris. Era o meu encontro marcado comigo mesma.

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