Crônicas de um Quarto Abafado — Parte II

“Palavras, palavras, palavras
Desde quando sorrir é ser feliz?
Cantar nunca foi só de alegria”

Enquanto ele procura outro vinil cuidadosamente, pendendo entre um que encante o momento ou outro que não busque antigos fantasmas, luiz gonzaga jr 1973 prossegue a me angustiar com suas verdades cuspidas sem dó nem piedade: Você deve estampar sempre um ar de alegria e dizer: tudo tem melhorado. Você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado.


Por um momento a mente flutua por tantos e o peito volta a ser esmagado, dilacerado com tudo aquilo que falta, que vem a ter falta, que vem a faltar, a falhar, faltam-me palavras para explicar. Sua silhueta tão bem definida continua seu flerte com a lua — agora explorando outro ângulo — que invade uma brecha de janela aberta, confunde suspiros, encanta olhos! 
Assim como sua essência invadindo a minha através de uma passagem tão pequena, rachadura quase imperceptível, um erro de quem substitui concreto por areia do mar que na primeira onda se desfaz, se deixa invadir, se desmonta em grãos a retomar sua aparência inalterável. Quase metade do maço se foi em goles de dor, e dentro, ela continua a fazer morada.
Aquele feixe luminoso destacava suas curvas criando uma pintura que nem Van Gogh saberia executar, sua essência se ocupa da falha arenosa, exalta todo o bem possível a se doar numa mistura de cores que nenhum pós-impressionismo seria capaz de expressar, ainda assim, logo após a última onda passar a rachadura ganha vida e volta a se fechar . Numa sequência sinuosa águas passam dando novas formas a areia finita, surras dolorosas cada vez mais fortes desmontam
des montam
montam 
re 
montam
montante de água morna
re monte areia ríspida, fria
resigna ego, monta a calma


“Não esqueça que a Asa Branca torna sempre a seu lugar quando sangue dos seus olhos brilham mais que o Sol no mar”

Era Gonzaguinha se despedindo num tom fúnebre com sua belíssima melodia em Depois do Trovão, numa súplica gemida dos últimos momentos daquele pequeno quarto. 
Ele me aponta alguns discos, tenta descobrir minhas preferências enquanto seu sorriso de cigana fácil se desfaz entre um e outro cantor, seus lábios fartos a proferir cantigas, que pouco me interessam naquele momento, são a forma de pecado que faria Deus repensar num oitavo. Sorrio com minha ideia herege, ele sorri de volta como quem sabe o efeito que aquele humilde ato tem sobre mim.

“Não esqueça que é preciso mil fogueiras de São João matando o velho da terra pra uma nova plantação, não esqueça de lembrar que só depois do trovão, depois da explosão da chuva é que torna Arribação”

Fica adeus de nosso companheiro.


— Você acredita quando eu digo que não sinto nada por você?

O sorriso se desfaz em seu rosto, tomado de súbito ele vacila indeciso:

— Não.

Acendo outro cigarro frustrada. Termina o maço junto com minha vaidade. Se dissipa uma fumaça de ego.


Naquele mar de oceano onde já molhei os pés e me deixei mergulhar até cobrir os seios, naquela imensidão de tormenta, tempestades, aquelas profundezas magnéticas te levam a um nado cansativo ou a se afogar em sua própria fúria. Azul puramente, azul e nada, somente azul. Só. Mente. Azul.
A cada onda um punhado de areia é levado, seu fundo vai sendo todo forrado, de grão em grão tudo se faz consumido e rispidez antes encontrada faz maresia em terra inabitada.
 
Não! Não há de ser assim! Imperdoável!

Recolho os trapos, meus pedaços espalhados pelo quarto. Em fluído não se tem firmeza pra parar, punhado d’água sede nenhuma irá saciar, de sal resolvo apenas lágrimas experimentar.


“I can’t stand it cause you put me down
I puta spell on you
Because you’re mine”

Nina vem nos saudar no exato momento em que noite e dia se confundem como madrugada, em que a distância entre mente e coração se torna grande demais para sentir e curta demais para razão se fazer presente.


Uma gota salgada se espalha sobre o lençol.

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.