Pois nem tudo são rosas

A noite passada havia sido nada menos do que tenebrosa. Eu não conseguira pregar os olhos, que permaneceram a maior parte do longo tempo que se estendeu diante de minha percepção alterada nervosos, tentando, em vão, perceber, minimamente, as mudanças na luminosidade que teimava em penetrar por minha cortina meticulosamente arrumada.

Ano passado, quando decidi fazer o improvável e permanecer no curso que iniciei por acidente, mas que, inesperadamente, me gerou uma paixão nunca antes experimentada, acreditei que nunca mais me veria experimentar, forçada por mim mesma, outra crise de ansiedade como a que sofri nesta noite que me foi terrível. Estava errada e isso somente me serviu para alimentar meu sofrimento.

Minha fé cega e falaciosa, porém, foi criada na minha crença sincera que fazer o que ama, dia após dia, só pode ser capaz de nos gerar satisfação. Todavia, fazer o que ama de uma forma que te suga e te consome permite, sim, que possa levantar da cama todas as manhãs movido pelo maior prazer que há nesse mundo, mas também que deite todas as noites atormentado pelo maior pesar que consiga suportar.

O grande fato é que sou uma pessoa que sofre de ansiedade. O segundo grande fato é que a Universidade mais alimenta o meu problema do que me instrui. E a sua falta de eficiência em me instruir de maneira adequada me deixa ainda mais ansiosa. No fim, estudo o que amo, mas isso não me impede de ter momentos infelizes.

Passei, entretanto, um semestre inteiro, e particularmente pesado, numa relativa paz. Ontem, porém, algo puxou meu gatilho e eu, como uma bomba, explodi.

Eu estava genuinamente preocupada com uma das minhas disciplinas, pois, mesmo indo relativamente bem, ainda assim posso ser reprovada, pois o meu relativo é realmente baixo.

O problema central, no entanto, não era realmente isso. Passei quatro meses estudando e aprendi quase tudo. Quase. Deixei passar uma pequena parte da matéria, parte qual pode me reprovar. Contudo, quando parei para pensar, concluí que o melhor realmente seria essa reprovação, pois teria, apesar de tudo, a oportunidade de aprender o que me faltou. Mas pensar positivamente me dilacerou.

Sou constantemente comparada às outras pessoas, mas não quanto à minha competência, mas quanto à minha, já sabida, terrível capacidade de decorar. O que me define é o meu coeficiente e a obsessão que todos tem em aumentá-lo, sem que isso implique em aprendizado real, é o que me suga e consome dia após dia.

Quando levantei da minha cama hoje de manhã, todavia, lembrei-me do porque permaneci nesse curso, do porque mudei todos os meus planos de vida para me arriscar em algo que eu pouco conhecia.

Meu verdadeiro sonho sempre interferir positivamente em vidas alheias. Eu escrevo, pois um dia alguém escreveu um livro que me mudou. Gostaria eu de um dia fazer o mesmo por alguém. E eu hoje estudo, para amanhã ter competência para trabalhar com pesquisas, talvez desenvolvendo algo que salve a vida de alguém ou ao menos lhe dê esperanças de mais tempo para se despedir.

Sem perceber coloquei uma blusa simples, mas que me enche de orgulho por seus dizeres nada modestos: “I’m a biochemist. I solve problems you don’t know you have in ways can’t undertand.”. Eu sou uma bioquímica e, apesar de todo o estresse que isso me causa, fico feliz por ter escolhido permanecer assim.